Quando me deram a noticia, tive vontade de rir e até agora não sei porquê. Sentada numa sala de aula vazia a espera dos jovens alunos do EJA para a roda leitura onde teremos um convívio sobre laços, baseado num texto de Mario Quintana, um nó começou a pressionar o meu peito.

Trinta e poucos anos, meu par no escritório, com quem me encontrava praticamente nas reuniões semestrais promovidas pelo diretor, foi encontrado ferido a caminho do escritório. Quando me disseram, acabavam de confirmar a morte cerebral e os indícios, até o momento, afirmam que ele cometeu suicídio.

No fim, a graça passou quando me lembrei que na última reunião nossa, há poucas semanas, sua manifestação pública foi uma queixa de que “as pessoas não colaboram”, tom de quem está muito, mas muito cansado de avisar e perdeu a esperança não só de ser ouvido, mas de ser atendido.

Todos estão chocados porque era alguém que não parecia tão… tão prestes a dar um fim a própria vida. Aliás, sua paciência diante das tribulações parecia ilimitada e por isso, não raro, é de se supor que abusavam dela.

Não sabemos o porquê do ato, e talvez não venhamos a saber, ficamos com um nó, talvez amostra vinda dele, dos milhares que lhe sufocavam debaixo daquela aparência serena, daquele tom conciliador e quase paternal que naquela reunião, revelava uma raiva, uma angústia, sussurrada bem baixinho, pouco escutável, e que eu subestimei a considerando uma frustração qualquer que passaria. Pois é, não passou e o levou.

Não sei o que mais achar, só sei que aqui a alguns minutos tenho uma aula sobre laços. Laço de amor, de amizade, de fita. Acho que sei de coisa: quando não vemos os laços de alguém ou menos as pontas da fita, pode ser – nunca teremos certeza senão nos aproximarmos – que estejam emaranhadas em nós num esconderijo, sussurrando que aquela vida está está por um fio.

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