Ogiva

Reiteradas vezes, nas reflexões e preces do Grupo de Teatro Terceiro Milênio, feitos antes dos ensaios da peça O Amor Salva, tem sido apresentada, pelo plano espiritual,  a Caridade, levando-nos a considerar todas as suas dimensões: social, familiar, interpessoal e principalmente pessoal e íntimo para consigo. Base da manifestação do amor, a caridade favorece a indulgência, a tolerância e , na falta destas, o perdão. Erramos, caímos e enfraquecemos reiteradas vezes – e ficamos muito cansados muito mais por errar, cair e enfraquecer do que pelo trabalho de nos recuperar. Da mesma forma,  reiteradas vezes somos esclarecidos, socorridos e sarados por Deus, sinal e prova do poder gracioso e também transformador – afinal sempre melhoramos – da Caridade. 

Neste período, fui pensando cá comigo no quanto a minha impaciência me torna improdutiva, falando em termos do viver … o fascínio pela ruindade e pela ignorância  cria uma ilusão de que elas sejam mais importantes do que todas as conquistas da bondade que opera em nós e, principalmente, uma impossibilidade de integrarmos esse “mal” ao inteiro da vida, de nós, fazendo-nos evoluir. 

Sábado, no meio do ensaio, li ao acaso Miramez, em Os Horizontes da Fala, a mensagem central , que não me é inédita, muito pelo contrário … : 

“Tu és propriamente um pequeno universo, dirigido por um pequeno deus que és tu mesmo. Tudo é possível para aquele que crê, nos informa o evangelho. Se acreditares que podes viver feliz e fazer algo em favor da felicidade, está vai se aproximando de ti. O ponto chave é começar o plantio de luz no teu campo de carne.

A ogiva da mente fica no topo do crânio e o restante do corpo age enquanto energia concentrada, para levá-la ao grande destino, na longa e abençoada viagem do saber. Compete a cada criatura desenhar na sua própria viagem, imagens superiores que falem bem de sua passagem por onde transitar. A educação não deve ser esquecida em momento algum, é ao lembra-la, é de boa regra que nos esforcemos no sentido de melhorar nossas condições de pensar e de falar.”

Lembrei-me das histórias que ouvimos sobre como começa a obra de artistas: das folhas em branco, o escritor vê a história; do bloco de mármore da tela em branco, o escultor e o pintor vêm a obra; do espaço, das pessoas e da luz, o arquiteto vê a construção. Tudo nasce do olhar, partindo do “em si”. Perguntei-me: o que eu vejo da realidade que se me apresenta? De mim mesma ? O bloco ? As paginas e telas em branco, a multidão, o espaço, as luzes e sombras somente ? Os problemas em torno deles ou do meu olhar ?

Dei-me conta, novamente, que meu olhar ainda é cativo de de passados recentes e remotos, reconhecendo padrões destes e passando instruções para o medo guiar desvios. Sua cela aberta me convida a transcender e assim, ver-olhar o agora e , com as inteligências que minha humanidade confere, passar instruções para o amor me guiar caminhos. Se a cela está aberta, o que percebo, refletindo reiteradamente sobre, é a oportunidade de trabalhar o olhar, treinando a mente para que ela colabore com a alma que sabe o que fazer nesta vida. 

É uma mudança de hábito que requer muita disciplina pra sustentar a atitude, mas muita confiança em si, na vida e em Jesus. 


A visão foi clareando mais – os mesmos esforços para diminuir a frequência dos pensamentos negativos foram direcionados para aumentar a apreciação do que me faz feliz ou satisfeita no momento presente, o que me ajudou a lidar com as dores e equívocos que pequenas experiências do cotidiano me trouxeram a seguir. 

E dai comecei a criar os registros destes passos, voltando à escrita – um dos compromissos da minha alma: já que, começo o dia bem , nas preces de agradecimento e vibrações – cabendo uma série de outros “procederes” -, preciso acabá-lo bem, assim como esta vida. 

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Pulso

Pela primeira vez fiquei de frente para o monitor e via claramente as imagens do coração batendo. Fiquei pensando se este seria o único coração que eu veria pulsar dentro de mim nesta vida, ainda com aquela réstia de esperança a entrar pelas frestas das portas fechadas de ouvir mais unzinho. O meu coração não parou de trabalhar ou desritmou por causa deste triste pensamento, o que me levou a simplesmente estar com ele, naqueles minutos em que a médica silenciosa e calma marcava suas medidas no aparelho. Pensei, que era aqui dentro onde residia todo pulso, força, confiança e presença de ser que eu buscava fora. 

Aqueles minutos de imagem reabriram o portal de dentro, que ora cruzo, ora miro, mas dificilmente caminho, sendo, estando. As mensagens orientando o caminho de dentro raramente me foram confortáveis, exceto nos momentos da infância, entegue eu aos desenhos e escritas em dias de verão ventilados por generosas brisas; houve outros, já adulta mas sempre manchados com relutâncias sem fim. Compreender o que era ter o coração aberto então, era-me arte dificílima, mesmo tentado várias metáforas pra sovar a compreensão, como : sorrir, abrir a janela, entregar ouro, desapegar do filho , etc .. caminhei novamente pela beira da entrada do portal. 

Caos, que se quer ordenar e classificar e essa maneira de ver já me causa o ímpeto de julgar tudo o que há dentro, como o-que-quer-que-seja-la-visto, como inútil, inominável, sujo, prolixo. Mas aquele esforço constante do bater do meu coração era tão belo que o caos, ganhou outra vontade, a de reconhecer suas partes, emaranhadas e entrelaçadas, graciosamente confundindo as bordas de cada parte como relevos e reentrâncias de uma parte só , até que isso não importasse mais e sim, sua presencia, fundida com outras ou não, mas cheia de propósito e riquezas em si mesmas. 

Ali estava a luz que minha vó me alertou um dia que eu tenho, Deus, bondades, jeitos, amores e graças de cores e formas nunca antes vistas, estranhas.

Virei-me para que a médica registrasse outras imagens dele, e o teto branco foi a pausa daquela viagem para dentro. Os sentimentos ficaram palpáveis, parecia ser possível perceber os lugares certos onde fincar atitudes como confiança, esperança, para colher todo aquele bem no meio do mal, único visto claramente por tanto tempo.

Pensei nos desafios dos relacionamentos e nas riquezas de que dispomos para criar os mundos que queremos, a aparente incompatibilidade entre o dito e não dito, o feito, o não feito e o desfeito, e o amor querendo ligar tudo à vida e aos corações. 

É só então eu percebi que neste reino sem palavras, só se entra de boa fé e temperança, gratuitas e generosas – que vão dando passagem ao caminhar para dentro , pois a vida cuida do merecimento, Deus da justiça e da misericórdia e nós, do amar, do criar e do recriar. 

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Incansáveis

No meio das ocupações e preocupações, confortáveis ou não com o arranjo que nós ou a vida fazemos das coisas, muitos de nós nos reencontramos no Jardim Botânico de São Paulo depois das férias dos trabalhos para a peça O Amor Salva, do Grupo Espírita de Teatro Terceiro Milênio. Tarde de sol com nuvens, verão, esperanças, alegrias e comidinhas para o pic-nic – estávamos bem, apesar das lutas que correm dentro e fora de nós.

Depois de um longo tempo sem trabalhar com pessoas fora do escritório, estar ali me desperta para as necessidades sutis do nosso humano, dentre elas o afeto e a alegria, coisas que deixamos correr por conta das nossas opiniões sobre os problemas que nos desafiam, faltam, negamos a nós mesmos e aos outros. Caminhávamos pela linda paisagem, lagos com pequenas vitórias régias, mata e trilha para a nascente do rio Ipiranga – uma ponte suspensa sobre o riachinho e a mata, cheia de encanto e energia.

Levamos ali energias antigas para reciclar e decisões e esperanças para fortalecer. Ganhamos mais doses da compreensão de que os esforços para sustentar a fé e a alegria, não são uma estratégia de fuga ou auto-engano, são um trabalho de reconhecimento de que tudo está bem, Deus cuida de tudo e a Vida movimenta a tudo e a todos às oportunidades que buscam e necessitam. A fé neste esforço, nos leva a entender que aprender é preciso e está no viver, o tempo é imprevisível e as transformações que ocorrem são a prova da existência de Deus no meio de nós – que precisamos nos perdoar antes de compreender que a perfeição está longe, mas o que somos hoje também é admirável e belo.

Minha amiga Aurea, luta, como eu por seu aprimoramento. Vive entre o espanto das coisas pelas quais se conscientiza, que muitas vezes passa pela indignação pelas causas e consequencias, e pela alegria pelas esperanças e pelo amor que sentimos, muitos dados pelos queridos irmãos e irmãs do plano espiritual, que também trabalha pelo nosso progresso. Estávamos alegres pela convicção que a fé e as últimas lições que a vida nos deram, e pela compreensão que o trabalho para Jesus no GGTM nos preparou para ter, muita gratidão estava misturada àquela alegria pura. Não me canso de admirar minha amiga Áurea por essa alegria pura, cheia de boa vontade, guerreira.

Na trilha, no meio da mata, energia intensa, a visão se apura, enxergamos nossos companheiros ali, lutadores também e agradecemos – todos ensinam, aprendem, seus seres nos animam com sua presença cheia das histórias e riquezas do seu viver. Agradecemos especialmente ao Thiago e a Aurora, nossos diretores que servem como Jesus serviria, guardadas humildemente suas imperfeições, como Paulo de Tarso à Igreja nascente naquele começo de século. Muita bondade, muita disposição, muito perdão, muita persistência, para lidar com as nossas dúvidas, fraquezas, ignorâncias. Muito afeto, que a tudo coaduna, pois como Paulo nos disse e aos colossenses, o amor une perfeitamente todas as coisas. Pesadas responsabilidades têm, desafios e dores, mas se despem para nos vestir do mais rico propósito de servir e amar, a nós mesmos, aos outros e a Deus acima de todas as coisas como Jesus ensinou, trabalhando por ele e alcançando, para a nossa maravilha, as metas. Áurea e eu pensamos e dizíamos uma para a outra, desde que nos reencontramos depois de séculos, “que riqueza de caminho estamos trilhando agora, logo nós, que passamos a vida experimentando meios para alcançar tudo o que alcançamos nele.” Nessa alegria brincante, Áurea batizou os encontros e transformações de O Caminho de Aurothi, experiências e aprendizagens sobre as quais passo a compartilhar aqui, memórias de duas aprendizes.

Saímos do jardim, passamos pelas nossas alamedas do dia a dia, sempre as provas nos alcançam; grande parte das forças se exaurem, sentimos abatimento pelo peso da distância que temos das inteligências superiores e as nossas, e das dívidas que precisamos resgatar. A palavra que nos acompanhou no último encontro foi caridade e esta é irmã do amor, caridade para com a gente mesmo, para ter paciência e confiança – virtudes que nos descansam deste trabalho de autoaprimoramento.

Jesus nos consola dizendo: “Vós sois aluz do mundo” logo nós, tão imperfeitos. Mas ele acredita em nós, em nosso potencial e por isso, como diz José Mario, no livro Quem Perdoa Liberta, Ele nos envolve em bondade e misericórdia – para nos desenvolver.

E Chico Xavier, sela este entendimento ao nos dizer que se ele pudesse deixar uma legenda para o mundo, esta seria uma deixada por Jesus “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” e o amor, completa ele, não espera nada em troca, se doa, rico de bondade e misericórdia, e não cria problemas.

Amem. Amemos. Amemos a nós mesmos e uns aos outros.

 

 

 

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A mulher que conhecia o Sim

Cada segunda feira, um milagre.

Na hora reservada para esquecer da insignificância da nossa mente, do nosso corpo, das nossas coisas e das coisas dos outros, fui seguir com o meus tratamentos e meditações. Nessa hora nossa mente, corpo e coisas do universo ao redor saem do centro e circulam elipticanente em torno do nosso centro real, nossa alma eterna, gravitando em relativa importância – podemos ver, ouvir e compreender com o coração.

A moça segurou as minhas mãos e sua alegria confiante e cheia de compreensão das incontáveis tristezas desse mundo segurou meu coração. Olhos miúdos cuja luz não se via naquela penumbra, mas que da boca pequena se ouvia a melodia desta alegria purificada pela experiência do fogo de muitas tristezas das quais, entretanto, não se sentia o menor vestígio, apenas se pressupunha pela pureza que vem do saber e não do ignorar.

Senti-me incitada a levantar o espírito, abri-lo como se faz com a porta que recebe uma pessoa de bem. Pensei em Jesus, tão retratado como um ser cheio de pesar pela miséria humana. A alegria dele devia ser assim, ou tão maior que mal consigo imaginar … alegria que levanta e abre, reconhece e dá-se a conhecer generosamente com a coragem, não a que enfrenta o medo mas a que põe o coração no comando da ação, marcando o pulsar: “agem… Agem… Ajam..”. Alegria cheia do amor abnegado, que crê no poder do Ser e gera energia do sim … Sim, agem… Sim, ajam… Sim, aja.. Sim, cure… Sim, perdoe… Sim, caminhe… Sim, gere… Sim, caminhe … Sim, ame … Sim, Sim, Sim … Sim, você… Sim, eu … Sim, nós … Sim, vida … Sim, sim, sim …

Fiquei atordoada, às vezes a luz expõe todas as nossas fraquezas.. Mas as mesmas mãos que receberam, ampararam sutilmente e sorrindo… Pensei ainda trêmula, das energias de hoje e graças dos últimos dias … Quero achar esta alegriaxem mim e deixar que ela fale sempre que for necessário vibrar algo, seja no falar , seja no pensar , seja no ouvir , seja no ver , seja no caminhar, seja no amar …

Que alegria mais bonita. Nao me saia do pensamento… Jesus, é assim a sua alegria? Pensei nas multidões que ele atraia e ele ainda atrai hoje, mesmo sendo nós, veículos tão precários para a transmissão dessa alegria pura, cheia de sim, de pulsar, de noVIDAde… Mesmo sendo nós pouco capazes de compreendê-la, reconhecê-la, e necessitarmos de pesar para nos sentirmos compreendidos … Multidões que procuram forças pra levantar suas próprias forças e abrir os caminhos que as façam expandir, germinar, procriar… Sim, Ser… Na esperança de um futuro que vai sendo feito no presente. Presente em sabermos que um dia acharemos e viveremos a mesma alegria, o mesmo Sim que Jesus tem …

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a visão do coração

Foi como um empurrão para uma via movimentada de carros, seguido de uma batida fatal que recebi a notícia de um reencontro. Ré. Retro. Retrocesso. Ré. Seis meses depois de ter tido a coragem de assumir minha inabilidade em lidar com o desafio de conciliar nossos gatilhos de munições destrutivas no meio dos turbilhões das rotinas e propor a separação dos caminhos, a vida insiste e traz de volta.

Poucos dias antes de saber, me vi  confusa em sentimentos nostálgicos pelos raros momentos de bondade, indulgência, harmonia, criação e riso, misturado com  gratidão aos cidadãos dos céus pelos seus progressos que foram o tornando alguém melhor.

À batida fatal se seguiu uma paz, talvez comparável à das almas que se vêm soltas de seu corpo inerte, leves outra vez, em sobrevôo a uma realidade que as aprisionava. Uma paz silenciosa começou a dar lugar a um estado de alerta que dialogou com este passado conturbado que por sua vez, foi contido pela consciência de que de nada adiantava negar, a aceitação evitaria o desespero e promoveria coisas que eu só compreenderia depois.

O primeiro encontro, misturado a outras pautas e compartilhado com outras presenças e suas histórias e prioridades, foi discretamente desconcertante. Fiquei impaciente pelo término daquela sessão que já não me criava nenhuma expectativa de novas realizações e empreendimentos, todas as minhas idealizações de experiências enriquecedoras estavam, a um só golpe, comprimidas numa caixa em preto e branco, destinada a prateleiras, no limbo.

Ao término, saí às pressas e sem brutalidade, falando suavemente, um sinal da minha rendição e meu consentimento ao destino, ainda que no íntimo houvesse um tímida e pequenina esperança de ressuscitar ou reencarnar em outros lugares, outras relações.

Procurada minutos depois, fui questionada sobre a minha felicidade sobre a decisão, minha máscara bem feita não o enganava, e conversamos.

Hesitação, seguida de raiva contida, não o poupei de pensamentos ressentidos, nem ele me poupou. Desperta pelo aviso de que as coisas não deveriam ser conversadas do mesmo jeito de sempre, respirei fundo e flanei sobre nós, observando o diálogo que começou a se encaminhar para regras de negociação de convivência, abandonando qualquer gesto de reparação e reconciliação verdadeiros.

Foi então que observei o quanto éramos parecidos. Diferentes nos caminhos da vida, mas parecidos na expressão do ser e em muitas de suas realizações. Tão parecidos nas intencionalidades que andamos sintonizados pelas diferenças e indisposições, onde o atrito se manifesta e o conflito se instala. Nossas atitudes se alternavam mantendo as afinidades. Sua agressividade, minha agressividade. Sua desconfiança, minha desconfiança. Sua insegurança, minha insegurança. Sua inveja, minha inveja. Seu jeito de decidir e de fazer, meu jeito de decidir e fazer. Sua conduta abusiva, minha conduta abusiva. Culpar-me pelos atritos, culpá-lo pelos atritos. Inocentar-se e vitimizar-se, inocentar-me e vitimizar-me. O desejo de separação e o desejo de reparação se alternavam, assim como as indulgências e castigos. Tudo isso se manifestando ao mesmo tempo, bico com bico.

Conscientizando-me disso, comecei a compreender-me e talvez compreendê-lo naquele instante, observando suas manifestações como uma matriz mais complexa de características que reagem ou ensejam reações às minhas características. Além do que nos concerne como seres humanos, que nos qualifica como pouco divinos, também havia os ganhos de uma espiritualidade atenta com a nossa evolução e assim, comecei a vê-lo como alguém que agride para sobreviver à sua própria bondade, desconfia para moderar a generosidade, sente-se inseguro pela ausência de compreensão e consequentemente, diálogo e união. Inveja a minha desenvoltura no trabalho e eu invejo sua prosperidade  nos relacionamentos. Agora não mais me parecia que estávamos presos a uma inabalável incompreensão, parecia que estávamos … não, pensei de repente, só eu estava. Ele continuava ali, ouvindo-me e respondendo, o mesmo, em tantas partes de si mesmo que jamais vou perceber, sequer compreender. Mas havia uma mudança importante acontecendo ali, algo que eu compreendia inteiramente, e era o meu olhar: eu estava livre à possibilidade de sintonizar o nosso melhor e com eles, dialogar, empreender e unir.

O encontro com Prem Baba e a sua prescrição espiritual para tratar o nosso corpo psicológico – que encantando com o passado, persegue o presente o deformando -, ficar em silêncio, tem operado muita perspicácia de escuta e eloquência ao meu coração, comecei a aprender a colocar minha mente no seu devido lugar, a de centro de suporte e não centro de comando. Humildade e coragem para perceber os imensos enganos cometidos e fazer com que o enfrentamento com as realidades que eu criei, seja mais uma presença acolhedora e disposta para o que há para aprender e viver do que um ataque às cegas a tudo o que se move na minha direção sem bem saber se o que vem é bênção ou maldição. Perdi muitas bênçãos e desperdicei as aprendizagens de muitas maldições.

A semana seguinte foi pacífica como jamais havia sido e até a alegria teve o seu lugar entre nós. O silêncio revela muito mais o essencial e disso a mente não sabe pois ela só entende o que é visível.

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acreditei na coisa certa, no lugar errado

não se impeçameu pensamento sobre o amor – o Bem eterno que une perfeitamente todos os seres e os faz evoluir -, ao longo dos anos, habitou diferentes lugares em mim: uns bons e férteis, mas vários duros e violentos, secos e estéreis, herdados desse jeito; que pra mim não cabia, não servia, não me queria; o temia. Cansada, não sei se digo de lutas contra mim ou de ter preguiça de viver… às vezes parece que é isso, preguiça de viver, misturada com uma incerta tristeza, um incerto pra quê? Não. Não posso deixar que estes lugares me prendam. Mas preciso conhecer estes lugares, achar-lhes a saída, ou criá-la, transformando-os para libertar o meu amor…

mandaram-me avisar que eu tenho que largar de (des)graça e cumprir a ordem: Viva o amor, pois viver o amor faz reverberar o bem a todas as pessoas com quem a pessoa que ama e é amada se encontra, pessoas que o vivem ou o buscam ou o recusam ou o questionam, multiplicam os milagres que ele causa. Portanto, não há por que para Deus e para a Vida não querer que alguém deixe de viver o Amor, pois sem ele, nem a Vida, nem Deus se manifestam… Cumpra esta ordem!

eu quero este bem? quero este querer? aparecem sentimentos adversos, sem nome, sem rosto, sinto-lhes um não. Mas logo percebo: são como o medo, meros fantasmas, ou sombras das minhas dúvidas ou más lembranças. Afastá-las é afastá-los.

então, é só mudar o pensamento de lugar, um lugar de luz, espaço, ar fresco, onde se possa circular gente, bichos, plantas. é só enfeitá-lo, dar-lhe ao uso das pessoas que por ali convivam, amem-se e eu com eles, termino por fazer as histórias de amor que desejo, não impedindo o ir e vir e cultivando o permanecer nestas impermanências do viver.

é só mudar o pensamento de lugar pois nenhuma desgraça, falha minha, maldição ou colheita, me impedem de viver o amor que eu desejo e é bom que as pessoas recebam e lhe correspondam. O amor vivido por meio dos relacionamentos, enriquece qualquer escolha de vida. Não vivi bem todos os amores que sonhei porque me enganei. E como Deus é bom e misericordioso, enquanto me orientava a abrir meus olhos e o meu coração, ele criou histórias, feitos e propósitos; no meio desses descaminhos, fez caminhos e fez tudo tão perfeito – como só Ele sabe fazer – que até parece que a minha vida nasceu pra ser assim, esse querer-sem-viver e viver-sem-querer.

mude o pensamento, cumpra a ordem, mulher: faça amigos, faça famílias, deixe o seu homem a amar e o ame. Tenha filhos, enriqueça, trabalhe com o que ama, plante, colha, construa…. e diz meu mentor:

“Nada impede você, seus caminhos estão abertos, então… caminhe. É você que se impede. Esqueça o que ficou pra trás, os fatos, erros, frutos ruins e sentenças – não os reanime. Não se impeça. Trabalhe, siga construindo, plantando. Seja humilde e colha no tempo certo, receba o que a vida está lhe confiando agora. Não se impeça.”

e diz meu amigo: “Eles amam você e em breve vão lhe revelar, mas seja forte e boa para si mesma, só assim se dará a este encontro. Acredite e receba, eles são seus e você é deles.”

naõ se impeça II

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conto de encontros

pastis_s345x230Nova York, num dia feliz de setembro, ela estava no Pastis para o café da manhã. A camisa verde-água de tecido leve sobre a camiseta pérola rendada, caía sobre a calça cáqui e o scarpin azul, dando-lhe um frescor que se harmonizava com os cabelos acastanhados presos num coque displicente no alto da cabeça, maquiagem leve, brincos vintage com pedras em rosa antigo e a alegria de estar no mundo, ainda que na maioria das vezes, não lhe fosse acolhedor.

Às vésperas do outono, retocava o plano daquela semana de férias: os museus, as escolas de projetos inovadores, os restaurantes e os encontros da vida. Tinha dispensado todas as ilusões e colocava toda a atenção no presente, espiando de vez em quando o futuro ou levantando o olhar além, a fim de checar se as luzes que sonhava ver de perto, ainda tremulavam ao longe, em amigo aceno que dizia: “Vem!” ou “Viene qui” já que na semana seguinte, partiria para Toscana restaurar as cores da alma e da mente.

Suas esperanças, eram somente as imediatas: será que o croissant viria crocante e ao mesmo tempo macio como ouvira falar? ou veria uma gostosa chuva dali a pouco, naquela manhã cinza e delas se protegeria com o seu guarda-chuva vermelho, levando, de lembrança imediata, a paixão que a risada das pessoas desta manhã lhe despertava? Nada mais faltava, apesar de todas as ausências. Sorria, reescrevendo suas notas, espalhando os mapas na pequena mesa e sobre o casaco e a echarpe de tons pastéis que descansavam na cadeira vazia ao lado. Check-in no Pastis e festa virtual com as amigas eram outras alegrias, daquelas que acrescentam brilho no olhar, rosa nas bochechas. Clara manhã, feita só de luz, do dia, da vida, das pessoas, estava confortável dentro dela mesma, sorria fazendo parte do momento, doando a sua beleza, aquela mesma que, depois de anos de repúdio e descuido, se aceita, depois se reconhece, cuida-se e dela se admira; olhava o lá fora das janelas.

Ele entrou acompanhado de dois outros homens, talvez amigos. Ela o viu somente depois que sentiu seu par de olhos a observando: alegria serena, admiração terna, um estar com ela, encontro afinal. Ela, talvez preparada pelos anos de desencontros, não se amedrontou daquela força, nem se sentiu indigna daquela beleza ou duvidou daquela oferta, que era a companhia que, conforme se passavam os segundos, se revelava mais e mais querida. Sentado perto da janela, com jeans, camisa branca e suéter azul marinho iluminado pelas contas azuis que enfeitavam os seus olhos, seu sorriso franco e generoso e pelas demais luzes que ela via, parecia tão belo. Que felicidade foi brotando ao se ver também bela e refletida naquele olhar, beleza que se constata perfeita ao nascer por pais orgulhosos para quem, nenhuma outra a supera. Sorriram um para o outro, nenhum clichê ou tem-que os distraía daquela animada e silenciosa conversa.

Levantou-se e caminhou até ela, convidado, os olhares os seguravam e asseguravam aquele contínuo querer pela companhia um do outro. Naquele momento, também nenhuma urgência ou saudade, ansiedade ou desejo os perturbava, tudo ao redor se fez lugar para cada um, fazendo-os serem dois. O som da conversa saiu, formaram-se palavras gentis, frases brincalhonas, sabiam-se em encontro no instante em que não há tempo, pois parecia que tinham se conhecido há eternidades, quando tempo nenhum os tinha separado. Compartilharam experiências, congratularam-se pelas descobertas, vontades e planos, riram-se dos tropeços. Pediram mais café e ele se despediu dos amigos, voltando para a mesa dela, onde passariam o primeiro dia do resto de suas vidas.

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Aos poucos, o tempo os foi resgatando da conversa imersa na eternidade, criando espaços, onde couberam suas constatações: histórias, emoções e corpos também quiseram falar um outro. Rubor nas faces, escurecer do olhar, inebriando-se dos demais encantos da amizade antiga, silêncios que pronunciavam um “minha vida recomeça aqui”. Como uma dança, de dois para lá, dois para cá, cuidadosamente, cometiam fortuitos gestos de desapego e sorriam, espantando as importâncias, facilitando o respirar, o falar, temerosos de que a intensidade que ia se enaltecendo, espantasse aquele amor, meio-recém nascido, meio reencontrado, meio sempre-vivido.

Por fim, cessaram as estórias e a vida começou a anunciar seus movimentos rompantes; veio o garçom retirando a louça com as comidas mal tocadas. O olhar dela se desviou por um instante como se lembrasse de si mesma. Ele conteve o ímpeto de pegar sua mão para tê-la de volta, e confiante de que tudo que a fizesse feliz a manteria ao seu lado, esperou-a sorrindo. Quando ela se voltou, aquele sorriso franco outra vez, o olhar atento banhado daquela luz que sai do coração de quem ama e foi amado por sábios amigos, sentiu o coração disparar, atingido por aquela alegria febril que dá, todas as vezes em que a vida nos prega uma peça: nos engana que nunca viveremos, martelando uma sentença, que dia após dia, se prova irrevogável, mas porém, volta, entregando um presente maior, mais colorido e surpreendente que sequer imaginávamos merecer. Ele a resgatou deste desnorteio ao segurar uma de suas mãos com suavidade; seu toque despertou nele memórias estranhas, conhecia aquele corpo? aquele corpo era o seu próprio corpo? sentia a si mesmo? a sentia? Aproximou-se mais dela, ele também desnorteado; a sede, a fome, a falta de chão se apoderaram e, encorajado pela sua saborosa alma e o mistério daquele encontro, atraído pelos seus rubores, sua pele, seu calor, a beijou.

Era ela, era ele. Afastaram-se e os olhares se buscaram. Sim, é você.

Zdzisław BeksińskIEntrosados entre si e com a vida que novamente os chamava de volta para a sua corrente, saíram do restaurante. Ele a tranquilizou, podia tirar aquela manhã de folga; e com a ideia de passar a tarde sem ela, um suplício, apressou-se em dizer que queria encontrá-la para jantar. Ela, embebida naquele tonel de doçura, apressou-se em dizer sim, encontrariam-se naquele mesmo dia. Ao se despedirem, a gravidade das importâncias de tudo o que lhes acontecera naquela manhã lhes encheu de seriedade; olharam-se como a ver suas nudezas e carências, não eram mais tão jovens, tantas oportunidades perdidas, muitas injustamente, por ignorância ou impiedade, enganados, e, outras tantas, por medos e noções injustificados. Compadeceram-se um do outro, beijaram-se novamente, plenamente encaixados poro a poro, mergulho na alma, como se prometessem um ao outro cuidados e proteção sobrenatural para que nada nem ninguém lhes faltassem, lhes encarassem como dura carne somente, lhes consumissem ou matassem tanto outra vez.

Ela, já a sós consigo mesma, entrou no Central Park e trêmula de felicidade, sentou-se sob uma árvore, minutos passados do encontro, pensando, pela primeira vez, se tudo não acabaria dali a instantes, de tão perfeito. “Tudo bem?” lhe perguntou ele, enviando uma mensagem para o seu telefone. Uma onda de amor a enterneceu novamente, queria dizer que o amava, já, tão cedo e ao mesmo tempo, há anos. O que dizer? “Estou aqui”, continuou ele. Ela soube que sempre estaria, neste linguajear de quem viveu o que viveu e ainda assim, honrava o respirar com gratidão, oferecendo uma presença amorosa a quem quer que se sentisse só. “Estou com você”, respondeu ela, livre novamente de temores.

À noite, festa. Ela no seu vestido preto, ele na sua camisa italiana, jantaram, riram, dançaram e ouviram com adoração suas histórias, as tristes e as felizes. Tantas afinidades, tantas particularidades, admiraram-se de suas fortalezas e compadeceram-se de suas fraquezas, trocando perdões e bênçãos para o futuro. Mais tarde, o desejo os dominou e se amaram, com prazer e com saudades, mãos entrelaçadas, e de par se tornaram um só.

Dias se passaram até a despedida dela, que partia para a Itália. Ele a levou ao aeroporto, belo, terno e confiante companheiro como no primeiro dia, pois se encontrariam lá dentro de alguns dias.

O vôo foi chamado. Caminharam mais um pouco de mãos dadas, cheios das lembranças dos dias que se passaram. As mãos, assim como os corações eram como uma só, cheias do prazer e da alegria de serem um par novamente e sem medo nenhum de que a vida os separe.

Alicia S Marco

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