alfabetização emocional e moral

No auditório do Masp, as pessoas chegavam para o 88º Fórum do Comitê de Cultura de Paz, organizado por uma parceria entre a UNESCO e a organização  Palas Athena, que trataria da Arte de Viver e conviver – Escola do Perdão e Reconciliação.

Quinze minutos antes, as outras pessoas chegavam aos poucos, o auditório estava meio vazio. Não conseguia pensar em nada, só fiz esperar pelo que as mestras Petronella Boonem e Joanne Blaney diriam sobre o trabalho que estavam desenvolvendo no CDEHP de Campo Limpo (Centro de Direitos Humanos e Educação Popular). Talvez o clima ali, ajudasse a dissipar as remanescências do dia.

Mas em poucos minutos o auditório lotou e a multidão silenciosa, escutou as primeiras falas da doutora em Educação pela USP, Petronella, que recentemente defendeu sua tese sobre Justiça Restaurativa (tem arquivos para downloud sobre o tema no site da CDEHP). O trabalho da escola nasceu na Colômbia, pois visava restaurar os vínculos sociais das comunidades perdidos para o narcotráfico, lidando com as relações a partir do problema da violência que se desdobra de conflitos e sentimentos mal canalizados e elaborados. Partindo da violência, o primeiro conceito ensinado é o perdão, que segundo Hannah Arendt é uma possibilidade de se liberar do passado:

“Trabalhar o perdão na educação significa dar a dimensão certa e justa para a uma situação, e  não ignorar, diminuir ou mesmo esquecer, mas ensinar a elaborar os acontecimentos a fim de curar a memória, libertar o passado, firmar-se no presente e ser capaz de imaginar e criar o futuro.”

Inteligência emocional e práticas restaurativas, conceituadas levando em conta as chamadas 4 dimensões do ser humano: pensar (aspecto cognitivo), sentir (aspecto emocional), transcender (aspecto espiritual) e agir (aspecto comportamental) eram adotadas para atender à necessidade do nosso tempo:

“A maior necessidade do nosso tempo é limpar a enorme massa do lixo mental e emocional que entope as nossas mentes e converte toda a vida política e social em uma enfermidade. Sem essa limpeza doméstica, não podemos começar a ver. E se não vemos, não podemos pensar.” – Thomas Merton.

O trabalho desenvolvido nestas escolas alcança crianças, jovens e adultos para que sejam capazes de lidar com seus sentimentos e canalizá-los, refletir sobre as situções, transformando conflito em justiça que restaura, através de ferramentas que visam “alfabetizar emocionalmente” – o que consiste em esclarecer como o indivíduo se sente para decidir o que fazer com o sentimento.

Abordou como entendemos a justiça, fazendo um pequeno esclarecimento de que a justiça juridica não leva à reconciliação, não restaura relacionamentos, não gera perdão. Sendo punitiva, sua lógica mantém a submissão e não desenvolve a autonomia, senso de solidariedade e corresponsabilidade.

Tudo muito parecido com o texto (Os conflitos entre as crianças e as sanções, do livro O Educador e a Moralidade Infantil: uma visão construtivista, de Telma P. Vinha) e a discussão que estamos travando na Fundação Dixtal , onde sou voluntária, a respeito de conflitos entre as crianças e como a educação construtivista auxilia na formação de crianças autônomas, protagonistas e colaborativas. Lá, não se chegou a tratar a questão do conflito como divergências de interesses e por isso oportunidades de desenvolvimento, já que a maior ocupação da proposta é lidar com as consequências da violência, partindo do pressuposto que geram uma cadeia delas que se tornam cíclicas. Mas a estrutura que a ameniza rompendo os ciclos é semelhante aos dos conflitos do cotidiano de menores consequências: reconhecer os sentimentos, lidar com eles, entender o do outro, entrar em acordo, reparar e restaurar o relacionamento ferido com o conflito.

Minha questão ao me deparar com as soluções de encaminhamento nos conflitos entre as crianças, era saber como lidar com os ocorridos entre adultos que, por falta desta educação, mantinham a heteromia, isto é a dependência e submissão que muitas vezes o coloca numa posição de vítima mesmo quando agressor, pouco capaz de ter empatia e compaixão e assim, dar encaminhamento aos seus sentimentos, coordenar perspectivas e ser responsável por si mesmo, por seus atos e se desenvolver de forma feliz. Este fórum me respondeu que a educação de adultos neste sentido – lidar com emoções e conflitos, é semelhante ao das crianças: a ambos se ensina a refletir, reconhecer as emoções e verdades dos envolvidos, mas o adulto tem problemas mais complexos e sua abertura para o aprendizado em geral é menor – os paradigmas são mais densos e enraizados.

Pelas perguntas que se seguiram, tive a sensação que pouca gente está preparada para viver um educação que leve à formação de sujeitos colaborativos, é uma prática muito desconhecida ainda e muito associada à ruptura de poder, com uma impressão de ineficácia para se resolver injustiças, quebra de controle e domínio. Alguns fizeram comentários “bem-feitos”, outros “se apresentaram”, outros quiseram saber “como é mesmo esse negócio de perdoar pois você ensina o sujeito e ele vai lá e faz errado de novo”, outros, “que o Governo é o maior culpado”. `

Pelas respostas, pareceu-me que aquelas mulheres, apesar do trabalho, da militância, da fé e da esperança, também achavam que a proposta levaria séculos (literalmente) para trazer os resultados esperados, pois a adesão era tímida, apesar de 2 mil crianças já terem passado pelo programa. Isso ficou claro pra mim pelo descuido (intencional ou não) em não responder à pergunta feita por um médico da platéia: como estes procedimentos podem se estender à educação de hoje nas escolas? Tive a impressão que ficou no ar um “não se estende e é por isso que estamos nos organizando em projetos e tentando instituir políticas públicas locais, buscando adesão das comunidades e escolas.” Corri os olhos nos panfletos sobre o programa  Escola Participativa e lá estava a escola onde sou voluntária para as rodas de leituras; aparentemente, implementar o programa resolve necessidades estruturais da escola e não aborda o conduta dos alunos e seus elos sociais – vou procurar conhecer suas dificuldades e sucessos para saber mais.

Tive a sensação que são pouquíssimas as pessoas que compreendem de verdade, no sentir, no pensar e no agir, o que significa uma educação que forma pessoas autônomas e interdependentes. Para quem não entende nada, é só teoria ou uma ameaça, pois o que dá resultado “seguro” é controlar, punir ou recompensar. Pra quem entende algo, é uma ideia charmosa, boa para posar de interessante nas mesas de bate-papo.

 Pra quem entende algo mais (não sei se diria tudo ou muito), parece haver uma certa esperança e uma certa angústia pois são poucos os provocados que decidem de boa vontade sair da inércia. Como também é o tipo de educação que demanda muito empenho, quanto maior a exigência e menor repertório, maior a resistência e o ódio. Daqueles que tem pequeno repertório, só enfrenta as provocações como desafios quem tem sonhos, vontade e persistência. Minha pergunta, que direciona minhas ações no trabalho voluntário e de pesquisa é: como direcionar todas as reações e transmutá-las para algo construtivo que provoque a paixão por evoluir e se renovar, que provoque sonhos e vontade para realizar? Pois como o caminho natural do ser humano é o desenvolvimento (biologicamente provamos isso), quem não desenvolve seus potenciais e produz, desvia o sentido da superação, da expansão e produção para violências de todos os níveis, expandindo hábitos que provocam um movimento contrário e destrutivo: atrofia, involução ou explosão.

Alguém disse que estávamos saindo da Era do Conhecimento e entrando na Era da Colaboração (vou tentar me lembrar – se você souber, deixe um comentário e fico agradecida) e é possível que a abertura da globalização e das redes sociais tenham trazido isso, por isso que tanto se fala em educação – não é só uma questão de qualificar mão-de obra, mas também de desenvolvimento para uma vida realmente proveitosa para o máximo de pessoas do seu meio afinal, não dá pra ser feliz e realizado sozinho. Tenho dúvida se é coisa da nova geração, a Y, pois com o seu peculiar imediatismo, como pode se aprofundar, refletir e esperar o tempo que os processos de maturação demandam?

Tomara que o tema educação construtiva pra todos pegue força; enquato isso, vou me preparando para os tempos que virão.

Será que no CDHEP precisam de voluntária? Afinal, ensinando se aprende também.

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Uma resposta para alfabetização emocional e moral

  1. walkyria giordani disse:

    Parabéns, muito bom seu texto.

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