Pulso

Pela primeira vez fiquei de frente para o monitor e via claramente as imagens do coração batendo. Fiquei pensando se este seria o único coração que eu veria pulsar dentro de mim nesta vida, ainda com aquela réstia de esperança a entrar pelas frestas das portas fechadas de ouvir mais unzinho. O meu coração não parou de trabalhar ou desritmou por causa deste triste pensamento, o que me levou a simplesmente estar com ele, naqueles minutos em que a médica silenciosa e calma marcava suas medidas no aparelho. Pensei, que era aqui dentro onde residia todo pulso, força, confiança e presença de ser que eu buscava fora. 

Aqueles minutos de imagem reabriram o portal de dentro, que ora cruzo, ora miro, mas dificilmente caminho, sendo, estando. As mensagens orientando o caminho de dentro raramente me foram confortáveis, exceto nos momentos da infância, entegue eu aos desenhos e escritas em dias de verão ventilados por generosas brisas; houve outros, já adulta mas sempre manchados com relutâncias sem fim. Compreender o que era ter o coração aberto então, era-me arte dificílima, mesmo tentado várias metáforas pra sovar a compreensão, como : sorrir, abrir a janela, entregar ouro, desapegar do filho , etc .. caminhei novamente pela beira da entrada do portal. 

Caos, que se quer ordenar e classificar e essa maneira de ver já me causa o ímpeto de julgar tudo o que há dentro, como o-que-quer-que-seja-la-visto, como inútil, inominável, sujo, prolixo. Mas aquele esforço constante do bater do meu coração era tão belo que o caos, ganhou outra vontade, a de reconhecer suas partes, emaranhadas e entrelaçadas, graciosamente confundindo as bordas de cada parte como relevos e reentrâncias de uma parte só , até que isso não importasse mais e sim, sua presencia, fundida com outras ou não, mas cheia de propósito e riquezas em si mesmas. 

Ali estava a luz que minha vó me alertou um dia que eu tenho, Deus, bondades, jeitos, amores e graças de cores e formas nunca antes vistas, estranhas.

Virei-me para que a médica registrasse outras imagens dele, e o teto branco foi a pausa daquela viagem para dentro. Os sentimentos ficaram palpáveis, parecia ser possível perceber os lugares certos onde fincar atitudes como confiança, esperança, para colher todo aquele bem no meio do mal, único visto claramente por tanto tempo.

Pensei nos desafios dos relacionamentos e nas riquezas de que dispomos para criar os mundos que queremos, a aparente incompatibilidade entre o dito e não dito, o feito, o não feito e o desfeito, e o amor querendo ligar tudo à vida e aos corações. 

É só então eu percebi que neste reino sem palavras, só se entra de boa fé e temperança, gratuitas e generosas – que vão dando passagem ao caminhar para dentro , pois a vida cuida do merecimento, Deus da justiça e da misericórdia e nós, do amar, do criar e do recriar. 

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