a visão do coração

Foi como um empurrão para uma via movimentada de carros, seguido de uma batida fatal que recebi a notícia de um reencontro. Ré. Retro. Retrocesso. Ré. Seis meses depois de ter tido a coragem de assumir minha inabilidade em lidar com o desafio de conciliar nossos gatilhos de munições destrutivas no meio dos turbilhões das rotinas e propor a separação dos caminhos, a vida insiste e traz de volta.

Poucos dias antes de saber, me vi  confusa em sentimentos nostálgicos pelos raros momentos de bondade, indulgência, harmonia, criação e riso, misturado com  gratidão aos cidadãos dos céus pelos seus progressos que foram o tornando alguém melhor.

À batida fatal se seguiu uma paz, talvez comparável à das almas que se vêm soltas de seu corpo inerte, leves outra vez, em sobrevôo a uma realidade que as aprisionava. Uma paz silenciosa começou a dar lugar a um estado de alerta que dialogou com este passado conturbado que por sua vez, foi contido pela consciência de que de nada adiantava negar, a aceitação evitaria o desespero e promoveria coisas que eu só compreenderia depois.

O primeiro encontro, misturado a outras pautas e compartilhado com outras presenças e suas histórias e prioridades, foi discretamente desconcertante. Fiquei impaciente pelo término daquela sessão que já não me criava nenhuma expectativa de novas realizações e empreendimentos, todas as minhas idealizações de experiências enriquecedoras estavam, a um só golpe, comprimidas numa caixa em preto e branco, destinada a prateleiras, no limbo.

Ao término, saí às pressas e sem brutalidade, falando suavemente, um sinal da minha rendição e meu consentimento ao destino, ainda que no íntimo houvesse um tímida e pequenina esperança de ressuscitar ou reencarnar em outros lugares, outras relações.

Procurada minutos depois, fui questionada sobre a minha felicidade sobre a decisão, minha máscara bem feita não o enganava, e conversamos.

Hesitação, seguida de raiva contida, não o poupei de pensamentos ressentidos, nem ele me poupou. Desperta pelo aviso de que as coisas não deveriam ser conversadas do mesmo jeito de sempre, respirei fundo e flanei sobre nós, observando o diálogo que começou a se encaminhar para regras de negociação de convivência, abandonando qualquer gesto de reparação e reconciliação verdadeiros.

Foi então que observei o quanto éramos parecidos. Diferentes nos caminhos da vida, mas parecidos na expressão do ser e em muitas de suas realizações. Tão parecidos nas intencionalidades que andamos sintonizados pelas diferenças e indisposições, onde o atrito se manifesta e o conflito se instala. Nossas atitudes se alternavam mantendo as afinidades. Sua agressividade, minha agressividade. Sua desconfiança, minha desconfiança. Sua insegurança, minha insegurança. Sua inveja, minha inveja. Seu jeito de decidir e de fazer, meu jeito de decidir e fazer. Sua conduta abusiva, minha conduta abusiva. Culpar-me pelos atritos, culpá-lo pelos atritos. Inocentar-se e vitimizar-se, inocentar-me e vitimizar-me. O desejo de separação e o desejo de reparação se alternavam, assim como as indulgências e castigos. Tudo isso se manifestando ao mesmo tempo, bico com bico.

Conscientizando-me disso, comecei a compreender-me e talvez compreendê-lo naquele instante, observando suas manifestações como uma matriz mais complexa de características que reagem ou ensejam reações às minhas características. Além do que nos concerne como seres humanos, que nos qualifica como pouco divinos, também havia os ganhos de uma espiritualidade atenta com a nossa evolução e assim, comecei a vê-lo como alguém que agride para sobreviver à sua própria bondade, desconfia para moderar a generosidade, sente-se inseguro pela ausência de compreensão e consequentemente, diálogo e união. Inveja a minha desenvoltura no trabalho e eu invejo sua prosperidade  nos relacionamentos. Agora não mais me parecia que estávamos presos a uma inabalável incompreensão, parecia que estávamos … não, pensei de repente, só eu estava. Ele continuava ali, ouvindo-me e respondendo, o mesmo, em tantas partes de si mesmo que jamais vou perceber, sequer compreender. Mas havia uma mudança importante acontecendo ali, algo que eu compreendia inteiramente, e era o meu olhar: eu estava livre à possibilidade de sintonizar o nosso melhor e com eles, dialogar, empreender e unir.

O encontro com Prem Baba e a sua prescrição espiritual para tratar o nosso corpo psicológico – que encantando com o passado, persegue o presente o deformando -, ficar em silêncio, tem operado muita perspicácia de escuta e eloquência ao meu coração, comecei a aprender a colocar minha mente no seu devido lugar, a de centro de suporte e não centro de comando. Humildade e coragem para perceber os imensos enganos cometidos e fazer com que o enfrentamento com as realidades que eu criei, seja mais uma presença acolhedora e disposta para o que há para aprender e viver do que um ataque às cegas a tudo o que se move na minha direção sem bem saber se o que vem é bênção ou maldição. Perdi muitas bênçãos e desperdicei as aprendizagens de muitas maldições.

A semana seguinte foi pacífica como jamais havia sido e até a alegria teve o seu lugar entre nós. O silêncio revela muito mais o essencial e disso a mente não sabe pois ela só entende o que é visível.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s