conto de encontros

pastis_s345x230Nova York, num dia feliz de setembro, ela estava no Pastis para o café da manhã. A camisa verde-água de tecido leve sobre a camiseta pérola rendada, caía sobre a calça cáqui e o scarpin azul, dando-lhe um frescor que se harmonizava com os cabelos acastanhados presos num coque displicente no alto da cabeça, maquiagem leve, brincos vintage com pedras em rosa antigo e a alegria de estar no mundo, ainda que na maioria das vezes, não lhe fosse acolhedor.

Às vésperas do outono, retocava o plano daquela semana de férias: os museus, as escolas de projetos inovadores, os restaurantes e os encontros da vida. Tinha dispensado todas as ilusões e colocava toda a atenção no presente, espiando de vez em quando o futuro ou levantando o olhar além, a fim de checar se as luzes que sonhava ver de perto, ainda tremulavam ao longe, em amigo aceno que dizia: “Vem!” ou “Viene qui” já que na semana seguinte, partiria para Toscana restaurar as cores da alma e da mente.

Suas esperanças, eram somente as imediatas: será que o croissant viria crocante e ao mesmo tempo macio como ouvira falar? ou veria uma gostosa chuva dali a pouco, naquela manhã cinza e delas se protegeria com o seu guarda-chuva vermelho, levando, de lembrança imediata, a paixão que a risada das pessoas desta manhã lhe despertava? Nada mais faltava, apesar de todas as ausências. Sorria, reescrevendo suas notas, espalhando os mapas na pequena mesa e sobre o casaco e a echarpe de tons pastéis que descansavam na cadeira vazia ao lado. Check-in no Pastis e festa virtual com as amigas eram outras alegrias, daquelas que acrescentam brilho no olhar, rosa nas bochechas. Clara manhã, feita só de luz, do dia, da vida, das pessoas, estava confortável dentro dela mesma, sorria fazendo parte do momento, doando a sua beleza, aquela mesma que, depois de anos de repúdio e descuido, se aceita, depois se reconhece, cuida-se e dela se admira; olhava o lá fora das janelas.

Ele entrou acompanhado de dois outros homens, talvez amigos. Ela o viu somente depois que sentiu seu par de olhos a observando: alegria serena, admiração terna, um estar com ela, encontro afinal. Ela, talvez preparada pelos anos de desencontros, não se amedrontou daquela força, nem se sentiu indigna daquela beleza ou duvidou daquela oferta, que era a companhia que, conforme se passavam os segundos, se revelava mais e mais querida. Sentado perto da janela, com jeans, camisa branca e suéter azul marinho iluminado pelas contas azuis que enfeitavam os seus olhos, seu sorriso franco e generoso e pelas demais luzes que ela via, parecia tão belo. Que felicidade foi brotando ao se ver também bela e refletida naquele olhar, beleza que se constata perfeita ao nascer por pais orgulhosos para quem, nenhuma outra a supera. Sorriram um para o outro, nenhum clichê ou tem-que os distraía daquela animada e silenciosa conversa.

Levantou-se e caminhou até ela, convidado, os olhares os seguravam e asseguravam aquele contínuo querer pela companhia um do outro. Naquele momento, também nenhuma urgência ou saudade, ansiedade ou desejo os perturbava, tudo ao redor se fez lugar para cada um, fazendo-os serem dois. O som da conversa saiu, formaram-se palavras gentis, frases brincalhonas, sabiam-se em encontro no instante em que não há tempo, pois parecia que tinham se conhecido há eternidades, quando tempo nenhum os tinha separado. Compartilharam experiências, congratularam-se pelas descobertas, vontades e planos, riram-se dos tropeços. Pediram mais café e ele se despediu dos amigos, voltando para a mesa dela, onde passariam o primeiro dia do resto de suas vidas.

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Aos poucos, o tempo os foi resgatando da conversa imersa na eternidade, criando espaços, onde couberam suas constatações: histórias, emoções e corpos também quiseram falar um outro. Rubor nas faces, escurecer do olhar, inebriando-se dos demais encantos da amizade antiga, silêncios que pronunciavam um “minha vida recomeça aqui”. Como uma dança, de dois para lá, dois para cá, cuidadosamente, cometiam fortuitos gestos de desapego e sorriam, espantando as importâncias, facilitando o respirar, o falar, temerosos de que a intensidade que ia se enaltecendo, espantasse aquele amor, meio-recém nascido, meio reencontrado, meio sempre-vivido.

Por fim, cessaram as estórias e a vida começou a anunciar seus movimentos rompantes; veio o garçom retirando a louça com as comidas mal tocadas. O olhar dela se desviou por um instante como se lembrasse de si mesma. Ele conteve o ímpeto de pegar sua mão para tê-la de volta, e confiante de que tudo que a fizesse feliz a manteria ao seu lado, esperou-a sorrindo. Quando ela se voltou, aquele sorriso franco outra vez, o olhar atento banhado daquela luz que sai do coração de quem ama e foi amado por sábios amigos, sentiu o coração disparar, atingido por aquela alegria febril que dá, todas as vezes em que a vida nos prega uma peça: nos engana que nunca viveremos, martelando uma sentença, que dia após dia, se prova irrevogável, mas porém, volta, entregando um presente maior, mais colorido e surpreendente que sequer imaginávamos merecer. Ele a resgatou deste desnorteio ao segurar uma de suas mãos com suavidade; seu toque despertou nele memórias estranhas, conhecia aquele corpo? aquele corpo era o seu próprio corpo? sentia a si mesmo? a sentia? Aproximou-se mais dela, ele também desnorteado; a sede, a fome, a falta de chão se apoderaram e, encorajado pela sua saborosa alma e o mistério daquele encontro, atraído pelos seus rubores, sua pele, seu calor, a beijou.

Era ela, era ele. Afastaram-se e os olhares se buscaram. Sim, é você.

Zdzisław BeksińskIEntrosados entre si e com a vida que novamente os chamava de volta para a sua corrente, saíram do restaurante. Ele a tranquilizou, podia tirar aquela manhã de folga; e com a ideia de passar a tarde sem ela, um suplício, apressou-se em dizer que queria encontrá-la para jantar. Ela, embebida naquele tonel de doçura, apressou-se em dizer sim, encontrariam-se naquele mesmo dia. Ao se despedirem, a gravidade das importâncias de tudo o que lhes acontecera naquela manhã lhes encheu de seriedade; olharam-se como a ver suas nudezas e carências, não eram mais tão jovens, tantas oportunidades perdidas, muitas injustamente, por ignorância ou impiedade, enganados, e, outras tantas, por medos e noções injustificados. Compadeceram-se um do outro, beijaram-se novamente, plenamente encaixados poro a poro, mergulho na alma, como se prometessem um ao outro cuidados e proteção sobrenatural para que nada nem ninguém lhes faltassem, lhes encarassem como dura carne somente, lhes consumissem ou matassem tanto outra vez.

Ela, já a sós consigo mesma, entrou no Central Park e trêmula de felicidade, sentou-se sob uma árvore, minutos passados do encontro, pensando, pela primeira vez, se tudo não acabaria dali a instantes, de tão perfeito. “Tudo bem?” lhe perguntou ele, enviando uma mensagem para o seu telefone. Uma onda de amor a enterneceu novamente, queria dizer que o amava, já, tão cedo e ao mesmo tempo, há anos. O que dizer? “Estou aqui”, continuou ele. Ela soube que sempre estaria, neste linguajear de quem viveu o que viveu e ainda assim, honrava o respirar com gratidão, oferecendo uma presença amorosa a quem quer que se sentisse só. “Estou com você”, respondeu ela, livre novamente de temores.

À noite, festa. Ela no seu vestido preto, ele na sua camisa italiana, jantaram, riram, dançaram e ouviram com adoração suas histórias, as tristes e as felizes. Tantas afinidades, tantas particularidades, admiraram-se de suas fortalezas e compadeceram-se de suas fraquezas, trocando perdões e bênçãos para o futuro. Mais tarde, o desejo os dominou e se amaram, com prazer e com saudades, mãos entrelaçadas, e de par se tornaram um só.

Dias se passaram até a despedida dela, que partia para a Itália. Ele a levou ao aeroporto, belo, terno e confiante companheiro como no primeiro dia, pois se encontrariam lá dentro de alguns dias.

O vôo foi chamado. Caminharam mais um pouco de mãos dadas, cheios das lembranças dos dias que se passaram. As mãos, assim como os corações eram como uma só, cheias do prazer e da alegria de serem um par novamente e sem medo nenhum de que a vida os separe.

Alicia S Marco

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