Rodas de leitura: cativos no pancadão

Há 13 semanas me encontro com cerca de 10 meninos e meninas, entre 16 e 21 anos do EJA de uma escola pública municipal do Jardim São Luis, na zona sul de São Paulo para as rodas de leitura mediada como voluntária do Programa 1 milhão de rodas, Brasil Campeão, da Fundação Dixtal. Foram necessários 12 encontros para chegarmos ao ponto de transformação, atravessando resistências, comportamentos de abandono, incompreensões e desencontros, mas finalmente, víamos uma entrada para o gosto pela leitura, pelo aprender. Terra à vista. Havia ainda uma incerteza: iríamos desembarcar numa ilha deserta ou numa costa com caminhos para uma nova cidade? Restavam-nos 10 encontros para corrigir a rota ou prepará-los para sobreviver ao deserto até que cada um, encontre a sua própria rota depois.

Nos encontros com eles, o maior bloqueio à participação era uma apatia enorme, maior do que desinteresse declarado em ler ou a dispersão que os levava a conversas paralelas sobre qualquer assunto que passava na cabeça e nada a ver os assuntos que circulavam na roda. Como o padrão de desinteresse geral se repete nas turmas, sempre lanço mão de montar um ambiente colorido nos espaços e levo, conectados sempre que possível pela mediação, isto é, pelos interesses e preocupações que revelam no processo, temas que os levem a refletir sobre quem são, o que é bom neles, o que gostam ou os fazem felizes, para, partindo de si, tenham curiosidade sobre práticas do viver que os levariam a ler o mundo, as pessoas e dialogar com elas, construindo uma vida saudável.

Aos poucos foram ficando à vontade – no fundo, também queriam saber quem eu era e onde eu chegaria, a desconfiança silenciosa aprendida no seu meio, era a sua defesa. Acolhimento e espaço de expressão, pequenos cuidados, são as primeiras condições do desabrochar: nos últimos encontros já liam frases com interesse e comentavam o que entendiam de forma crítica sem ter vergonha do quão mal liam em público ou de pedir ajuda para interpretar. Receber a atenção da equipe de filmagem que registrava mais uma fase das rodas e dos repórteres de uma revista da região, lhes deu uma noção maior de sua importância para o outro e os influenciou, como estímulo extra e relevante, a, nas rodas seguintes, disputarem uns com os outros quem leriam os pequenos textos ou a fala de um dos personagens de um conto para uma leitura compartilhada.

Na última roda, dando sequência à construção de um agir que resgatasse emoções positivas de forma imaginativa, através do conto “Para contar estrelas” de André de Martini,da edição especial da revista Nova Escola, de Contos – Seleção de 27 textos para ler com Crianças e Adolescentes, falamos sobre as possibilidades que o saber de pessoas diferentes podem nos dar: poderíamos contar as estrelas pelo telescópio Hubble, com os dedos ou ainda, como a avó do menino Lelê ensinou, passando a palma da mão no céu estrelado como a varrê-lo e fechando em punho, depois de um chacoalhar, guardar todas no coração como a capturar também o seu brilho. Iríamos a seguir, ver as fotos do projeto MILK, de Geoff Blackwell, e observar juntos emoções fotografadas de pessoas do mundo todo dentro do contexto tratado em seus álbuns Amor e Amizade para fazer o exercício de escolher imagens e emoções interpretadas para pegar de punhado e pôr no coração, compartilhando o que este exercício lhes despertava, colocando-os também em contato mais possbilidades de emoções positivas que talvez pouco experimentavam.

Então, ao contextualizá-los sobre o possibilidade de leitura que uma imagem dá, aproveitando a introdução de um dos livros feita pela menina do Vietnam, Phan Thi Kim Phuc, imortalizada pela fotografia tirada por Huynh Cong em 8 de junho de 1972 depois do bombardeio americano com napalm, mostrei a foto em tamanho grande contando a história. Num primeiro momento, a reação foi espanto pelo horror da imagem e muita curiosidade sobre a história da guerra e da menina, o que tinha lhe acontecido depois, como vivia hoje.

O horror da imagem os levou a associar ao horror da violência que assistiam diariamente nos pancadões de fim de semana que passavam pelo bairro. Num primeiro momento, me perguntei: era assim que se sentiam, em guerra, assustados, querendo fugir? Ou eram assim que viam algumas pessoas se sentirem, como as crianças do bairro, que eram levadas pelas violências da turba?

Alguns riam ao contar as histórias como espectadores de um jornal com notícias de morte, outros assustados e constrangidos, e outros pareciam se policiar ao falar. Talvez não estivessem conscientes do que passavam e assim, como as vítimas de abuso sexual na infância, o contato que parece prazeiroso no primeiro momento, aos poucos as destrói por dentro até se darem conta de que estão mortas em vida. Perguntei-me mais uma vez, é possível reverter os efeitos dessa exposição diária?

Os pancadões eram carros de capô abertos com sons muito potentes, tocando funk de conteúdo erótico e violento, levando não só festa e multidões inclusive de outros bairros, como atraindo atividades de tráfico (ao redor da escola, segundo eles, existem “4 bocas de fumo”) de crack, maconha, cocaína e lança perfume, prostituição, sexo ao ar livro, brigas, atropelamento com motos e carros que saíam em disparada todas as vezes em que a polícia resolvia “moiar” o pancadão para dispersá-los com bombas de pimenta e balas de borracha,  sem comentar os mais policiais mais violentos que partiam para a agressão física. Relatos de debandadas desesperadas e participação de crianças de 4 a 12 anos entre os viciados e que também serviam de atração sexual para prostituição. Histórias contatadas com medo, nervosismo, mas também de forma engraçada – entendiam que o pancadão em si não tinha problema (apesar da frequencia, do “altíssimo” volume do som, das músicas mais “fortes”); o problema, constatavam, era o confronto com a polícia, o tráfico, a prostituição e todas as brigas e acidentes decorrentes das correrias e excesso de bebida – parentes, amigos tinham sido feridos, presos pela polícia ou até sido vítimas de acidentes ou mortos, alguns me mostraram as cicatrizes de outro tipo de balas usadas pelos policiais que “grudam na pele e deixa marca”.

Como se ensina matemática, português, geografia de modo que aprendam e se interessem a saber mais com um cotidiano assim? Como incentivar professores que se deparam com alunos violentados que ou se expressam com a mais profunda apatia até evadirem da escola ou explodem em atos de violência na escola, entre si e com professores? Como ajudá-los a conviver com isso, ao mesmo tempo lhes ampliar a visão, ao desperar a vontade de que o futuro ser diferente? Como lhes ensinar a sair disso? Como lhes convencer de que ainda assim, sua vida é importante?

Ali, no espaço da roda, que colorimos não somente com recursos materiais mas com nossas histórias e dos autores e compositores, nossos desejos e personalidades, sentíam-se refugiados, em segurança – diziam alguns, que mantinham uma razoável frequência, espaço de felicidade em que podiam falar do que lhes acontecia, do que sentiam e ao mesmo tempo se entreter. Mas ouvindo seus relatos, que não cessavam de cada um deles, senti uma urgência de ensiná-los a enfrentar a realidade em busca de um novo futuro, ao invés de criar ali experiências positivas, de identidade, pertencimento, acolhimento, fortalecendo talvez um comportamento de fuga, apesar de querer criar uma memória de um passado positivo a lhes servir de referência na busca de uma vida melhor em seu dia-a-dia fora da roda, com mais dignidade, esperança e por isso, determinação para aprender mais e realizar sonhos.

Ainda penso, e lembrando do professor Bob Hirsh que encontrei num curso, que me ouvia falar sobre as emoções com as quais eu lidava neste trabalho, e sua recomendação de ajudá-los a enfrentar suas realidades, usando como referência simbólica, a história verídica cinematografada em Escritores da Liberdade – adolescentes também expostos à violência no cotidiano e tinham mais um agravante que era o preconceito ~que tinham entre si, (negros, asiáticos e latinos) criando uma rivalidade de gangues. A professora, estabelece um diálogo (essa foi a diferença principal) com eles, procurando tratar da realidade que viviam, trazendo-as para a sala de aula; criou rituais de conversa e união de pontos em comum entre as gangues representadas na sala e arranjou livros que tratavam da violência entre gangues.Quando vi o filme pela primeira vez, usei as práticas e mensagens de esperança para construir uma roda com alunos de 8a. série que apresentavam problemas de baixo rendimento: consegui criar o espaço, o clima, o respeito e admiração mútuos, socializá-los tratando de alguns problemas que traziam, mas não fui a fundo para enfrentar suas realidades e com experiências mais diretas e ricas, instrumentalizá-los pela leitura e as oficinas de arte. Como poderia ser feito agora?Rever a mensagem da história era como um reforço na ideia de ir mais a fundo pra que falem mais abertamente sobre o que os afeta nesta realidade.

Sugestões são bem-vindas.

Esta situação é bastante complicada, mas se observarmos bem, todos nós estivemos ou estamos expostos a um grau de violência  e desamor que arruína ou enfraquece o  engajamento pelo progresso de nossas próprias vidas, para ser franca. Prestar atenção e dedicação com um olhar que amplia as possibilidades do outro, acrescenta muito a quem recebe, é puro resgate de dignidade, respeito e esperança ativa por um futuro melhor, ocorrendo também e especialmente pra quem se doa.

Voluntariado é benefício de valor inestimável e essencial de mão dupla, grupo de pressão e de redenção para uma sociedade melhor. Participe.

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