Tio Zeca

Depois que me ligaram neste domingo, senti apenas um calor forte que persistiu por um tempo enquanto me preparava pra sair e avisar pessoalmente a minha mãe, irmã do meu tio Zeca. Desconfiei que de minha parte não viesse muitas emoções, mas a tarde e a noite seriam longas e provavelmente emocionantes perto daqueles com quem estaríamos para nos despedirmos dele, que nos deixou subitamente ontem.

Velório com amigos, parte dos filhos, netos, irmãos e sobrinhos ficamos um tempo conversando entre nós e assistindo ao sofrimento de outras pessoas que ali, choravam a morte de jovens, perdidos em acidentes ou complicações com as drogas e por incrível que possa parecer, os convulsionados e desesperados eram os amigos ou primos da mesma idade, socorridos pelos mais velhos com água e abanos, ocupados somente em ampará-los. Um dos adolescentes gritava com raiva, que “sabia que a erva ia levá-lo para a pedra e de lá, ele não voltava mais. Se não morresse por elas, morreria pelas mãos daqueles f…”. Seus por quês ecoavam pelos salões e me faziam tremer. Eram por quês de por que ele me deixou? e por que ele não amava a própria vida?

O corpo chegara enfim e nos primeiros momentos ainda sob o efeito dessas mensagens, fiquei de olho em outro tio, que deliberamente havia decidido não tratar seus problemas de saúde. Meus primos já tinham desistido de convencê-lo pelo contrário, iniciando um processo de espera que oscilava entre a da morte e a de um milagre. Fiquei ouvindo o seu desalmado discurso e captando as emoções que lhe marejavam os olhos quando ouvia o nome do seu irmão, ou quando seus filhos se aproximavam, perguntando-me do por quê disso tudo, mas sem vontade de intervir.

No meu canto, só, comparei meus familiares a cavalos. Os familiares que ganhei da minha mãe, eram como cavalos selvagens e indomáveis, que viviam soltos, vagando pelas colinas gozando todas as liberdades que o mundo poderia oferecer. Os familiares que ganhei do meu pai, eram cavalos cativados e preparados para competir e ganhar todos os prêmios que o mundo poderia oferecer.

Em nenhum dos dois mundos quis me perder, pois vi a maioria perdida de si, com talentos disperdiçados, os primeiros por falta razões, os segundos por falta de paixões. Ambos submissos aos seus destinos, cercados de condições adversas as quais tem muita dificuldade de superar, seus passados sempre os vencem quando tentam olhar pra frente. Passei muito tempo os negando, querendo descobrir de que mundo eu era ou, onde estava o meu ninho, pois naquelas colinas e estábulos, sentia-me um mero patinho muito feio, errada, simplesmente errada, apesar de todos os bons momentos e do amor que recebi de cada qual, à sua maneira. Na visão deles, boa candidata para aprender a ser livre, boa candidata para aprender a ser vencedora. 

Por eles e por mim, embora houvesse um clima de irmandade em muitos momentos, jamais houve intimidade entre nós que nos fizesse criar amizade, convivência que nos permitisse crescer no amor, sempre aquela distância. Se eu quisesse criar uma proximidade com o meu tio Zeca, por exemplo, falando de mim e esperando que ele me respondesse ou que me ouvisse quando falasse dele, simplesmente me interromperia e tocaria em sua viola Maluco Beleza do Raul Seixas -, dizendo que eu tinha que viver a vida (como se não a vivesse), e beba uma cerveja. Da mesma forma, do outro lado, meus familiares me interromperiam para falar de regras a seguir (como se eu não as tivesse), dizendo que temos o dever fazer o que é certo e vamos comer. Até agora não aprendi a viver pra ser livre, tampouco reuni as regras certas para ser vencedora.

Passei muitos anos achando que um amor mais real nos faltava, tentando construir amizade que nos levasse a produzí-lo, mas os desencontros foram mais frequentes do que os encontros – posso não ter reconhecido suas próprias tentativas -, e então, penso, concluindo pra não posar nem de vítima, nem de heróina que uma vida em comum entre nós não faz sentido, devemos fazer o que todo mundo faz: sair pelo mundo em busca dos amigos e começar uma família com eles, e é isso que decidi me focalizar em fazer, mantendo sempre a possibilidade de continuar tendo bons momentos com os familiares.

Voltei pra casa antes do enterro e não chorei. Prefiro ficar com a lembrança de que meu tio era feliz na maioria das vezes que tentava, ganhava o coração das crianças e adolescentes com a sua paixão por viver, deixando-os cavalgar pelas colinas, presos às suas longas crinas.

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