fácil, infelizmente fácil

No último sábado, na fundação, visando encontrar oportunidades de melhoria do aproveitamento das rodas de leitura nas escolas, discutiríamos, no grupo de trabalho, o comportamento adequado em conflitos, com a consultora pedagoga, através do texto Os Conflitos entre as crianças e as sanções, do livro O Educador e a Moralidade Infantil, de Telma Pileggi Vinha, bastante orientado pela educação construtivista.

A maioria dos colegas que se comprometeram em voltar com o texto lido, não compareceu e maioria que veio, não tinha conhecimento do texto – não era técnico, mas tinha muitas informações conceituais ricamente ilustradas com exemplos do cotidiano nas escolas, nas suas 110 páginas a serem lidas em um mês.

O que se seguiu foi uma tentativa da pedagoga de dar continuidade ao tema, que como mediadora, se propôs a trabalhar com o repertório de cada um, inclusive o dela mesma, sem fazer referências diretas ao texto e suas propostas de soluções. Fiquei indignada com os colegas que tinham concordado em ler e ali, ocupavam o espaço com suas questões, esperando ganhar as respostas, que foram dadas – fácil. Frustrada, tentei lidar com aquela realidade participando conforme a condução da mediação – tentei levar as minhas questões do texto e acabei levando repostas para as questões da minha roda. No fim, uma 2ª. chance foi dada aos voluntários, de ler para o próximo encontro dentro de um mês.

Onde estou estudando agora, com jovens bem graduados em sua maioria e empregados em grandes empresas,  está havendo um drama com um professor que resolveu aplicar exercícios desafiadores: estão se sentindo lesados, atribuindo a responsabilidade do baixo desempenho exclusivamente ao professor:  quem reclama, não tenta superar o desafio, estudar ou buscar ajuda de quem está se saindo bem.

Saindo da fundação, fiquei desolada. É cada vez mais evidente pra mim como carecemos de uma educação que nos forme para sermos construtores da realidade, co-autores e colaboradores e não meros executores de ordens de outros, que por sua vez se retroalimentam de ordens. Parece mesmo uma cadeia sem fim – o tal do sistema social – que depende do rompimento com uma atitude nova, aplicada com esforço, já que só a conscientização não resolve pois embora com ela passemos a ter uma mente livre, temos ainda um corpo a habituar com a nova decisão.

Enquanto as novas consciências se condicionam a agir conforme o entendimento,  a maioria, imersa no sistema, segue ansiosa por obedecer alguém que lhes facilite a vida, sem perceber que ao escolher o fácil, estão escolhendo o que é descartável, efêmero, de baixo ou nenhum valor. Ou se recebem algo de grande valor, dificilmente saberão manter, muito menos multiplicar ou renovar.

Pela ramificação deste sistema correndo em paralelo à necessidade de melhorar a educação, temo que venha um modelo que interne, transmita conhecimento de forma militar, e exija uma reprodução com altíssimo grau de fidelidade ao conteúdo transmitido. Que coloque gente com personalidade forte que mantenha as pessoas caladas e obrigadas a apresentar resultado é fácil,tanto como será obter os resultados delas. Quanto ao valor disso e as perdas, e como se sustenta, ninguém discute. Ainda.

No texto, a pedagoga esclarece que a criança é naturalmente heterônoma, isto é, obediente a regras e seus conceitos de justiça nos primeiros anos, são bem rudimentares: elas entendem que erro se trata com castigo. Bem fácil resolver comportamentos inadequados às regras instaladas.

Entendi que quando Piaget aborda o conflito não se refere tão somente à infração de regras, mas a assimilação de novas regras ou novos conhecimentos. Então, faz com que todos reflitam na oportunidade que é enfrentar um desafio proporcionado por uma questão ou por uma divergência – seja de interesses, seja de nível de conhecimento entre as partes envolvidas.

Os conflitos se deparam com o processo interno inerente às pessoas de equilibração ou auto-regulação, que promove o crescimento coordenado com outros fatores de desenvolvimento (maturação, influências do meio social e experiências do meio físico). Os conflitos levam o sujeito a buscar uma nova ordem, o reequilíbrio entre as partes e os ambientes (externos e internos) envolvidos.

Então, em resumo, o máximo proveito de um conflito dentro das relações sociais se obtém quando:  se houver um líder envolvido, que seja mediador, focado no processo e no desenvolvimento da autonomia dos envolvidos, a quem, muitas vezes descreverá a situação afim de equiparar as perspectivas iniciais, assim promovendo o reconhecimento dos pontos de vistas/conhecimentos do outro, verbalizar os sentimentos envolvidos e a busca de acordos mútuos. Resultado final: empatia, respeito mútuo, relações fortalecidas, colaboração, auto-conhecimento, senso de comprometimento e de responsabilidade pelos atos ampliada e soluções. O procedimento favorece uma resolução baseada no valor intrínseco da solução pretendida, preservando o respeito, promovendo também autenticidade, já que ao promover conversa e reflexão, evita punições e recompensas que criam adesões fáceis ou artificiais e enganosas que geram consequências negativas a longo prazo não só tangíveis, mas também na formação do caráter e da competência no agir e fazer.

Educar assim não é fácil e justamente por isso, o valor do seu resultado merece o esforço. Quem se candidata a se dar ao trabalho? Felizmente há quem o esteja fazendo.

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