curativo: operações especiais

Sábado estava no escritório, quando poderia estar pulando em Salvador; ou meditando no ashram em Campos de Jordão; ou olhando o mar debaixo de uma árvore com os pés enterrados na areia em Paraty; ou comendo raízes medicinais numa tribo indígena e sarando das dores; ou comendo peixe fresco, desenhando e evoluindo em novos rumos em Santo Antonio de Lisboa; ou vendo o degelo da neve, ouvindo Jazz e evoluindo afetivamente em Lousianna; ou brincando de patati-patatá em Indaiatuba; ou escrevendo,  batendo papo e evoluindo como ser humano no Sul de Minas; ou comendo pizza e evoluindo espiritualmente pelo amor em Campinas; ou tomando café, pão quentinho com mussarela e rindo, mas com os pés no chão, em Santos.

Voltando para a base de trabalho e passando por um jardim, tendo como traseuntes além de mim, os pássaros locais, lembrei de uma história que ouvi na semana passada, numa dessas noites de trabalho: um colega tinha se mudado com a família para uma casa que tinha duas grandes árvores na calçada em frente; com o tempo, percebeu que o chão da varanda estava rachando, assim como os dos cômodos que começavam a ondular: as árvores estavam se expandindo e a força de suas raízes quebrariam tudo. Decidiram cortá-las e a maior parte do assunto foi a longa batalha com a prefeitura local para que o fizesse; cortá-las enfraqueceria as raízes até que morressem completamente e deixassem a calçada e a casa em paz.  Olhando aquela relva verde, cercada de árvores e pássaros que caminhavam por ali, senti vontade de estender o corpo e somente levantar depois que ele tivesse assimilado toda a sabedoria daquelas raízes e finalmente, voltasse a ficar de pé, em ânimo.

Para cada dia em que senti (ou me ressenti) de falta de devida atenção ao projeto que eu acabava tocando e entregando no escritório, nesta temporada tive o dobro de atenção. E claro que, como nada está livre de consequências, a falta da força de uma hierarquia alinhada e interessada, isto é, alinhada no seu devido tempo priorizada, causou transtornos e o prazo ficou curto, cutíssimo. Configurado o cenário de emergência, exigiu-se um estilo de liderança compatível, o que quer dizer, comandante e todos os sentidos. Report duas vezes ao dia, não havia espaço pra nada a não ser relato-ordem-obediência e qualquer tentativa de fugir ao esquema com explicações, dar tempo, era impedida com braço de ferro ou voz de comando. A ninguém se dava o benefício da dúvida ou o voto de confiança: todos, inclusive eu, eram rigorosamente acompanhados, duramente confrontados no menor desvio. Era fazer dar certo, ou fazer dar certo: “missão dada é missão cumprida”.

Como o tom era ruidoso e urgente, dava pra ser dura também, extravasando parte das dores que sentia no corpo, sem culpa e sem ser questionada pela atitude; se antes todos repousavam tranquilamente em suas zonas de conforto, tinham sido jogados sem piedade na zona de stress e o que eu chamava de operação rotweiler, tornou-se um nome amigável para algo muito mais denso, crítico e porque não dizer, violento. A quem restava algum humor, surgiu um nome muito mais apropriado: estávamos sob o comando do batalhão de operações especiais, o BOPE e éramos os policiais em treinamento numa ação perigosa, e quando não, os policiais corruptos que deviam ser afugentados com a pressão, que pela fraqueza de caráter e de resistência, além de falta de propósito e de eficácia, pediriam pra sair.

Praticamente todas as noites cheguei em casa me sentindo como um corpo sem alma, tendo como súbita e passageira paixão, a raiva de ter que passar por isso agora, quando poderia ser evitado, eu que passei dois anos avisando o que poderia acontecer. Perdia alguns minutos agonizando no sofá, pensando se deveria ter tido a audácia de me dirigir ao executivo que agora estava presente no comando e feito com que me ouvisse, por mim mesma ou por meio de algum gigante, onde estaria eu por sobre os ombros, carregada. Ou talvez nem isso surtisse efeito, pois o plano executável e normal para ele e sua gente era esse mesmo, de operações especiais.

A temporada do fazer e entregar chegou ao fim com alguns problemas remanescentes, mas chegamos ao resultado. Como também previ, surgiram outros problemas que serão tratados com o mesmo rigor nas próximas semanas – algo para o qual me entrego, na esperança, porém, de sofrer menos.

No fim, considerei a intervenção necessária, e no fundo agradecida, pensei que sem ela, teríamos problemas piores – resta-me o consolo de pensar: antes isso do que a mesma situação que enfrento todos os anos com este projeto, de trabalhar com o triplo de esforço pra garantir que ocorra bem e ainda ter ter o triplo de problemas por estarmos imersos num cenário organizacional diferente. 

Dormi quase vinte horas no dia seguinte, domingo e almocei com minha mãe. Tentando acessar a alma, passei a segunda-feira caminhando no parque do bairro, ouvindo a respiração e os barulhos que o vento nas árvores, os pássaros ou vozes de gente faziam. 

Pensei que não seria uma boa ideia voltar a ler e escrever sobre o trabalho de pesquisa que eu vinha desenvolvendo do curso com o Prof. Brandão, pois meu envolvimento apaixonado com o assunto, me faria viver os dias que me restavam do projeto no escritório como num inferno de privação e castigo, prolongando o uso do tilenol e fortalecendo minhas piores faces de comportamento. Mas um email do prof, muito acolhedor, reafirmando o convite para nos reunirmos em seu sítio no Sul de Minas a fim de conhecer o andamento dos nossos trabalhos, me fez reavaliar a questão pois me desafia a não me entregar inadequadamente a uma ação do tipo resultado a qualquer custo.

Tenho mais algumas semanas nesse projeto para aprender a ser alguém que não se perde de si sob nenhuma circunstância.

Anúncios
Esse post foi publicado em cotidiano. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s