curativo: providências

Na semana seguinte à consulta médica, cumpri à risca suas recomendações: caminhada, nutrição e tilenol só quando sentisse dor. Como a dor era constante, com picos de piora, ao invés de tomar duas doses ao dia, às vezes tomei três, não para não sentir nada e sim para tornar a dor suportável ao pegar as coisas, levantar ou abaixar, apoiar em algum lugar ou simplesmente tocar o chão com os pés. Embora a caminhada e a dieta tenham aumentado a disposição física, foi a semana que mais dissimulei emoções pois me sentia apática, sem apetite, sem calor, sem paixão – na melhor das hipóteses, um começo de noite ainda claro, mas sem a presença do sol pois já se pôs . Foi a semana de ter mais pesadelos angustiantes e acordar como se as dores viessem deles: pesadelos em que estou em lugares escuros e trancados, esconderijos de onde eu não podia sair e ninguém deveria entrar. Beco total.

Foi a semana também de receber súbitas e bem-vindas ajudas no escritório, de pessoas cuja palavra é uma ordem, artigo desejável em horas de crise e baixa mobilidade. Também de receber presente – ganhei o livro que li para uma ação interna, do chefe, com direito a uma inesperada e carinhosa dedicatória. Também demonstrações de respeito e sobretudo interesse. A paixão e a presença que me faltavam era suprida pelas de outras pessoas que trabalhavam colaborativamente, emprestando sua voz e sua ordem, porque, finalmente, entendiam a importância do trabalho em questão. E poucas coisas me fazem mais feliz profissionalmente do que trabalhar com colaboração.

Foi a semana também de receber mensagens de incentivos de primos queridos, amigos, inclusive dos novos contatos de Jaguariúna e do Instituto Paulo Freire, animando com notícias, planos e idéias; notícias da Fundação, pois mais uma temporada estava prestes a começar em março. O bem-estar foi voltando, tanto que deu energia para um sábado de trabalho no escritório, leitura no domingo e uma tentativa de tomar o remédio somente uma vez por dia até suspender de vez – não deu certo, apesar do satisfação de ficar 1 hora no telefone com um novo amigo do Instituto que mora em Campinas e também está fazendo um projeto para o Prof. Brandão, com verba do estado, conversando sobre meditação indiana e a política na educação.

 Semana seguinte, de mais atenção, reconhecimento e também trabalho duro. Semana de voltar a apreciar o gosto das coisas, o gosto de uma gelatina me fez sentir tanta alegria que queria compartilhar com mundo. O melhor de tudo foi conseguir resolver muito dos pesos que me consomem e me impedem de mudar; talvez a dor tenha me fortalecido tanto o espírito que acabei resolvendo impossíveis por perceber que ainda tentava controlar o que não podia ser controlado e reter, o que já tinha ido embora. Entreguei, creditei a outros, deixei ir, soltei o laço que só havia na minha memória e na minha imaginação: ao me sentir leve novamente, não fazia sentido esperar por algo ou alguém.

Estou há 28 horas sem o remédio, ainda com dores menores e cansaços, acordando de sonhos com gente nova, histórias completas, à luz do dia. Ainda há três semanas de trabalho duro pela frente do projeto do momento, mas vai acabar. Tenho a pesquisa, super atrasada para retomar, e os contatos com os familiares e amigos mais chegados mais pra frente.

Tem uma palavra inglesa que ficou tinindo nos meus sonhos: surrender, não no sentido de desistir de algo , mas de deixar de resistir, o que pra mim é mandatório em tudo o que diz respeito a mim mesma, meu ser verdadeiro. Com o espaço aberto e o eco da minha própria voz, sinto que aqui dentro está se reorganizando – as ideias para escrever, mal se conectam. Dá uma sensação de vazio, mas não de solidão ou abandono, mas de uma calma abertura, talvez a que precede à vida.

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