curativo: convivendo com as estrelinhas

Desde criança, minha imaginação vai às alturas pra entender tudo, todo o possível de uma idéia. Quando lia os os gibis da turma da Mônica, tentava entender porque, umas estrelinhas tão bonitas, do bem, apareciam ao redor do machucado do Cebolinha quando levava coelhadas: vai ver, pensava eu sozinha, ou com meu primo que também gostava de imaginar, que as estrelas vinham do mais profundo lugar do machucado, rasgando a carne com suas cinco pontas e atravessando a pele, pairava no ar sinalizando: doeu pra valer.

Foi disso que me lembrei quando cheguei do escritório ontem e tentava tirar a blusa de  linho, justa nos ombros e braços, sem botões ou ziper para folgar a saída: custou-me quase dez minutos e algumas estrelinhas a mais pra tirar, saídas das mãos e do pescoço. Chorei de raiva e suspeitei que o tal doutor na verdade fosse um desses que passam o dia se admirando em frente aos diplomas e honrarias, deitado no berço esplêndido do título e do status de ser associado a importantes hospitais, e parasitando na sua auto-importância, teria deixado de se atualizar, não dando a mínima para uma dor que só lhe fazia sentido pelo meu relato e portanto, totalmente passível de engano dado o excesso de peso, a boa saúde, o stress, o estado emocional e a ausência de filhos e namorado: que sujeito! uma mulher pode ser feliz pelo que é e tem o direito de não aguentar dor !! A raiva me deu o impulso pra finalmente tirar a blusa, então, serena mas ainda mais estrelada, passei pelo chuveiro e por outra dose de tilenol, um jantar a base de frutas iorgurte e pão, e silêncio.

Na cama, tentava relaxar com as estrelinhas rodeando-me, menores, saindo inclusive das pernas, onde começaram. Tive que obstinar o meu pensamento em seguir as prescrições do doutor: tinha a caminhada e a alimentação por fazer, além de tomar regularmente as doses de tilenol e de otimismo que talvez, ajudassem a trazer tudo o mais, inclusive as mudanças de atitude e paradigmas. Apoiei-me nos travesseiros fofos e dormi com as janelas abertas, refrescando-me com a brisa da madrugada, com temor do amanhecer ou de evento na madrugada.

Dia seguinte. Acordei com as estrelinhas pairando, mas com mobilidade. Fiquei um tempo olhando para o céu azul, sem pensar em nada, só tentando esquecer a constelação. Resolvi fazer um alongamento massageado e notei inchaço bem aparente em um dos meus joelhos. Encontrei um meio de levantar sem fazer tantas estrelinhas: as mãos e os cotovelos não eram mais ponto de apoio, achei o antebraço e pra usá-lo, bastava deslizar até o espaldar da cama. Com velocidade de namoro para caminhar – aliás, não é possível nenhuma outra -, voltei do mercado com chuchus, sardinhas e rúculas, encontrando uma farmácia humana há duas quadras de casa: um atendimento acolhedor, tinham tudo e faziam a medição da pressão, alta por causa da medicação anterior e normal hoje, um papo suave sobre pescaria – é lá que tem um velhinho que fica na porta recebendo os clientes com um sorriso e acompanha a gente até a porta do carro ou até a esquina, sempre dá um bonito bom dia/boa tarde, de coração, pra quem passa por ali.

Descobri que a parte mais difícil da prescrição, não é conviver com as estrelinhas, a lentidão do mover ou a futura melhora que afrouxa e faz voltar aos maus hábitos. É tomar as doses de otimismo: é fácil mudar o pensamento, mas o sentimento não. Como o sentimento nasce do pensamento, descobri também que o pessimismo é o que está encarnado em mim, alimentado por pensamentos cuja voz não escuto.

Uma das maneiras que encontrei de tomar as doses de otimismo é escrevendo pois assim, volto a ficar atenta a me manter comprometida em sarar e, ganhando confiança na vida, em mim, cessam as estrelas da carne e volto a me guiar pelas estrelas do céu.

Com esse pensamento, entendi que faz sentido sofrer isso agora: baixei a cabeça e não vi mais as estrelas do céu. Como não havia estrelas em volta, foi preciso que houvesse as outras, de dentro, me cutucando pra mudar de postura a fim de, olhando pra frente, para os lados e, às vezes, pra cima, apreciar todo o bem que faz parte da minha vida e então encontrar os outros, que farão parte realmente.

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Uma resposta para curativo: convivendo com as estrelinhas

  1. Cla Ros Bar disse:

    Prima,
    Você deve lembrar também de o quanto nos divertíamos lendo a Turma da Mônica… Apesar das estrelinhas. Quando não, tantas vezes, por causa delas.
    Pois bem, vai aqui minha “drágea de otimismo” (perceba que cavei essa do fundo do baú, só para gastar mesmo meu português): que tal pensar na possibilidade de que essas estrelinhas que a tem incomodado tanto, são na verdade lembretes de Deus para que nunca se esqueça de brilhar? Olhe para o céu, que no momento, pode estar apenas em seu corpo e liberte sua Luz! Brilhe!
    E, se der na louca, faça como eu e comece a colecionar estrelas. Mesmo que sejam aquelas das coelhadas que por ventura leve. Um dia, elas brilharão tanto juntas, que não teremos outra alternativa senão trilhar um caminho iluminado.
    Beijo da prima, que embora mude o linguajar, continua calçando os frutos da “Artocarpus heterophyllus”.

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