das dores

Saí do hospital de queixo caído.

Sentindo-me enrolada pelos ortopedistas pelos quais passei decidi escolher um médico melhor, especialista indicado de acordo com a variação de um dos itens do exame que poderia explicar, diagnosticar e tratar, as dores que ando sentindo. Dores que me acordam de madrugada ou que alertam do esforço, como centenas de agulhas grossas furando de uma vez só; que aparecem num movimento simples e ás vezes me roubam folêgo por um segundo ou vários ou fazem as coisas caírem, os movimentos ficarem mais lentos ou desarmoniosos como o de velhinhos que vão perdendo a flexibilidade; que cansam ou dão náuseas e muitas vezes me deixam sem posição física onde ela não se manifesta e daí, é aguentar ou medicar – o que quase sempre não significa alívio; que às vezes causam inchaços, desfigurando sutilmente causando tudo, enfim, uma agonia.

Em minha defesa, tenho a dizer que sou tolerante e paciente, só em último caso tomo remédios, geralmente sofro sem ressentimento e com uma calma controlada ou silenciosa. Ainda não sou uma daquelas pessoas sensacionais que sublimam a dor de tal maneira que continuam sorridentes, entusiasmadas com a vida, quem sabe me torno assim um dia.

O fato é que queria sará-las, pois estava me tornando mais triste e mais auto-centrada, improdutiva. Reuniões de escritório, somente por telefone, perdi o prazer do convívio e do desafio do momento – a pressão é grande, todo mundo descansa quando me preocupo e se descanso, mesmo por causa dela, a dor, ninguém se preocupa, ao contrário se perde, na esperança que eu volte logo. E volto, porque ninguém quer me suceder nessa missão e isso está mal conversado, mesmo depois de inúmeras tentativas de solução. Não é queixa, pois não se resolve agora, no meio da tempestade, ainda que surja Jesus andando sobre as águas, acalmando tudo, concedendo-me a vontade de ir pra outro lugar.

O médico, simpático, começou a consulta. Só falo pelos cotovelos quando estou sentindo muito prazer e o assunto é leve, no mais e com quem mais, sou comedida e ouvinte, até de mais. E pra ele percebi logo de cara, ou devo dizer pela mão espalmada de repente para me calar, que era melhor que eu desse boas (sucintas) respostas às suas perguntas, senão, ficaria sem dizer o que eu achava que devia ser dito. Examinou-me com as mãos, com os olhos assitia o meu caminhar – aliás, meu corpo me traiu – dores só nos apertões, tinha força nas mãos – para quando ele me deu as suas dizendo, “Pode se vingar à vontade”, e inchaços, só os que eu percebia porque me conheço e o médico não sentia ao apalpar “pois é difícil examinar mãos e pés gordinhos”. Leu os exames e chegou ao veredito: a maioria dos exames indicava saúde, invejada por ele pois era um Médico!, de uma garota de 18 anos e aquele um, alterado só serviu pra lhe indicar que minhas dores eram reais mas cuja causa não poderia ser descoberta naquele momento. “Faça caminhada de namorados meia hora por dia, sete dias por semana”, disse, “tome tilenol quando sentir dor. Se comprometa comigo e com você, coma direito e volte aqui daqui a um mês pra examinarmos melhor. Seja mais otimista e tenha 3 filhos.” Maluco.

Esperando o táxi, espiada pelos seguranças do governador que passou por ali também, estava confusa, chocada. Não esperava uma inconclusão: não havia diagnóstico! Os sintomas então foram considerados irrelevantes do ponto de vista clínico? Desviei o pensamento para outro lado: toda aquela dor, intensa pra mim, fui eu que criei, junto com todo o mal-estar que parecia eminência de coisa ruim, que me fazia sair da cama para um PS em alguns dias, coisa inédita, pois odeio hospitais e remédios. Que poder, hein, garota?, pensei num momento “posso fazer qualquer coisa, qualquer coisa mesmo”, inclusive aquele sinalzinho com o dedo indicador de “vem cá” para qualquer sujeito transeunte das minhas caminhadas a fim de ter os tais 3 filhos. Mas depois da pequena e ligeira viagem às alturas, bateu aquela vertigem que me fez cair na canção: “I don’t know what to do with myself…”, que me trouxe a lembrança do cego que encontrei outro dia e me perguntou, por causa da dor, se estava difícil andar por onde andava.

Poderia buscar uma segunda opinião ou encarar o adiamento do médico pelo diagnóstico como uma oportunidade para me incomodar com a dor e resolver maus hábitos, como passar a ter uma conduta mais saudável na alimentação e na prática de atividades físicas. Resolvi dar um voto de confiança por causa da sua competência e não procurar outro doutor que me ouvisse pacientemente e mandasse fazer uma ressonância ou uma tomografia. 

Saindo do escritório no horário hoje, passei no mercado, comprei frutas, e na farmácia peguei o tilenol – coisa que sinceramente não me anima a ter esperança de alívio -, para seguir a prescrição de emagrecer, namorar e ter 3 filhos em um mês, do doutor – não por costume popular, mas de fato e de direito -, professor e membro do John’s Hopkins University, que se despediu de mim como Albert Einstein daquele fotográfo, mostrando uma língua grande e genial.

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