pazeando em Jaguariúna: abraço no universo humano

Era a primeira vez que tinha ido a Jaguariúna, cidade do interior de São Paulo, do lado de Campinas. Fazia um dia lindo e quente e foi fácil chegar ao Colégio Integrado, perto da rodoviária  e da estação de trem, onde a Uniangatu estava dando o curso inaugural, Educação para o Meio Ambiente e para a Sociedade: Conceitos e Projetos, indicação do professor Carlos Brandão que falaria lá com o Marcos Sorrentino e Raquel Alves Pereira, ambos educadores e ele, especialista em educação ambiental, atual professor da Esalq-USP.

Cheguei quando já mostravam um vídeo sobre impactos do clima e do crescimento econômico, apresentado por Sandro Tonso, também professor de educação ambiental, da Unicamp. A pergunta mais estarrecedora não era: “Será que é tarde demais?” e sim “Por que o homo sapiens não pôde criar uma solução para deter as crises e no máximo cria paliativos para sobrevivência que também não ajudam a resolver?”, seguido de silêncio sobre a imagem de um menino africano que bebia uma água insalubre com um canudo desenvolvido para filtrá-la. Levando a atenção para a resposta esperada, uma das possíveis caía na falta de valores humanos que deforma cidadãos – sem valores humanos, quem se preocuparia em preservar a vida enquanto extrai e utiliza recursos, produzindo outros? Quantas vezes não vivemos os valores no núcleo familiar apesar de muitos considerarem que a solução para o mundo, a sociedade é ter mais amor em casa? Ou se temos esse amor, de que adianta tratar aos outros como coisas, recursos? Quantas vezes assistimos impassíveis, aos crimes violentos, aos desastres naturais e não nos abalamos? Quantas vezes passamos pelas pessoas numa rua movimentada e não notamos nada exceto obstáculos a transpor para chegar logo ao destino, seja de um caminho, seja de uma conversa intecionada?

Fiquei um pouco desapontada quando a próxima parte da construção do argumento, caiu na demonização do capitalismo, principalmente porque isso me remete à discussões dos anos 80 e porque há um mês estava convencida de que a crise ambiental tinha criado uma nova conscientização nas empresas, que a fez descobrir, também em função da escassez de talentos e de inovação, a necessidade de humanizar as relações, capaz de dialogar que pressupõe uma conexão horizontal e não vertical; assim como reconhecer o valor de cada contribuição, esteja ela na base ou no meio da escala hierárquica. Como atualmente, já não tenho mais essa certeza – o capitalismo é o que é e não há líder humano, ético ou da sustentabilidade que se mantenha numa posição diretora de uma multinacional, poderia pensar, afinal, que a crise ambiental e de inovação irá superar a dicotomia – não há bem para um público-alvo que não requeira um bem social -, mas posso estar errando por reduzir demais a questão, abrindo mão de elementos complexos e mutuamente importantes para a analisar de forma sensata e sei que a finalidade da política e do sistema produtivo de ambos – incluindo o socialismo – é diferente, pergunto:  já não era tempo de partirmos para uma conciliação? Ou, talvez melhor do que isso, de parar de separar o gênero humano entre capitalistas e socialistas, como categorias rivais lutando pelo título de quem faz o melhor para a sociedade, para o mundo? 

O capitalismo, claro, nesse meio foi causador do atentado de fazer as almas se perderem no ódio e na falta de valores causando mobilização única e exclusivamento pelo dinheiro, tratando pessoas como recursos produtivos, desumanizando as relações. E concordo que um dos grandes legados perversos da ética do trabalho que o concebeu foi esse mesmo. Considerado como responsável principal  pela deformação e pelo desequilíbrio ambiental e econômico, estariam todos, a partir disso, a se perguntarem: por que não partimos, como Paul Singer idealizou, para uma economia solidária pois somente ela favoreceria um mundo sem pobreza, de mais equilíbrio? E finalmente, olhando para as pessoas que mobilizam esses resultados que nascem com grandes débitos pois não são preparados para se sustentar, que tipo de conhecimento o poder educacional está produzindo agora?

Sem se deterem pelos aspectos econômicos além das contradições de se medir o progresso de um país pelo PIB, uma vez que, dito, a economia não faz nada de novo e apenas transforma matéria em energia, paramos para observar os atuais produtos da educação voltada a conteúdos: tecnicismo, materialismo, competição, pensamentos reducionistas e relações hierárquicas.

Pensando numa nova educação, que geraria mais igualdade – ao contrário do que esperei dada a crítica, não se falou em termos de socialismo ou comunismo, e sim de produção solidária e sustentável, de educação com valores humanos. Na educação, o desafio era não partir dos conteúdos e sim do humano em suas faculdades – o ouvir, o falar, o olhar, o tocar, o sentir, etc – e de si mesmo, do outro, levando a uma nova educação que constrói importância nas e pelas pessoas, sendo importância de “importar: o trazer pra dentro”, causar minhas transformações e me deixar transformar pelo outro. “Só descubro que sou único, quando percebo que há outros diferentes de mim.” Conhecimento a partir do qual todas as teias produtivas e criativas seriam tecidas. Lembrando-nos de Spinoza, enfatizou que é fundamental que nos conheçamos cada dia melhor, que sejamos mais íntimos de nós mesmos, as causas de nossos atos, pois assim aumentamos nossa potência de ação, uma ação mais humanizada e potencialmente mais eficaz.

Chegando às relações individuais e de grupo, citou o poeta Manuel de Barros, “a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produz em nós”, definiu que educar também é descobrir o que encanta as pessoas e nesse sentido, exortou a todos a sair do lugar comum das nossas verdades, tendo claro que o papel do educador é de incomodar, tirar a pessoa do lugar que está e descubra o novo: “O caminho para o novo é tão complexo como é o ambiente. O novo está no diferente e o que sustenta o caminhar é gente.” 

Citando Paulo Freire: “A educação não transforma o mundo. A educação transforma as pessoas e as pessoas transformam o mundo.”, passou a fala para Raquel Pereira Alves, arte-educadora que estuda e participa de projetos que implementam uma educação mais voltada para valores humanos, inspira-se não apenas na possibilidade de ver alegria e poesia na educação, como nas pessoas, citando João Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas:  

“O senhor… mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior.”

Tendo como principal influência, o indiano Sathya Sai Baba, apesar de algumas controvérsias que giram em torno de sua reputação, compartilhou conosco como constrói uma aula baseada em valores humanos, considerados por ele como sendo Verdade, Retidão, Paz, Amor e Não-violência, baseados também na Declaração e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz, definida pela ONU em 1999, que em resumo, pelo Manifesto da Unesco organizado em 2000, abrange 6 pontos: Respeitar a vida, Rejeitar a violência, Ser generoso, Ouvir para compreender, Preservar o planeta, Redescobrir a solidariedade.

Nas suas aulas, são ritualizados as chegadas e partidas, os encontros com as pessoas e com os conteúdos, a prática como apropriação do conteúdo em grupos e a reflexão sobre o que se aprendeu, buscando integrar o sentir, o pensar e o agir de cada um. As experiências e as expressões artísticas como produto das reflexões e dos rituais de encontro são privilegiadas, mas os indicadores de desempenho não são preteridos: desenvolveu ferramentas, como de índice de relacionamento, responsabilidade para com o grupo, nível de afetividade, transformações pessoais percebidas  por si e pelo grupo. Encerrou inspirando aos educadores, dizendo:

“Somos capazes de sair do centro de nós mesmos, ver-nos como co-criadores de mundo e por realidades capazes de construir uma ponte por onde caminhe o Eu em direção ao Nós.”

Marcos Sorrentino, em curta palestra tomou a palavra já recomendando que a Uniangatu não seja pautada pela transmissão de conteúdos, devendo comprometer-se com uma sustentável construção coletiva na gestão, no ensino e na pesquisa. Ilustrando que vivemos um momento de narcotização dos sentidos, de crise ambiental, entende que surge nestas gerações um sentimento de futuro roubado, matando a esperança e contra a desesperança devemos  nos opor e construir a cada dia o mundo que queremos. Utilizou as sementes que desprezamos dos frutos como símbolo do nosso desperdício e insustentabilidade: não nos damos ao trabalho de plantar e cuidar, não respeitamos o tempo dos seres, seus ciclos de nascimento e amadurecimento, não nos interessa as sementes, não nos damos ao trabalho de notar quantas vidas, universos desprezamos com o seu descarte. Não respondeu à pergunta sobre o que é educação ambiental, pois espera construir a resposta com os grupos pequenos que se constituirão na universidade, nas comunidades, elaboradas e pronunciadas a partir das mudanças do indivíduo, por meio do diálogo, exercitando as ideias: da autenticidade vivida nas ações locais, haverá comprometimento para as questões mais amplas.

Carlos Brandão, em seguida, iniciou sua fala radical ilustrando o cenário da nossa contradição de formação, na qual fomos moldados para um mundo egoísta, competitivo, depositário de conhecimento e não para aquele que queremos, mais solidário, colaborativo e inovador. Com sua veia poética foi pintando imagens dos professores alfabetizadores, do Pequeno Príncipe falando da volatilidade dos encontros até chegar no começo de uma nova sociedade: o encontrar-se consigo mesmo e com o outro, totalmente presente, no agora, para criar, promover vida e ser feliz.

Ele começou o seu discurso de conversão ideológica e militante, enaltecendo a disciplina e pragmatismo dos empresários claramente visto na execução de ideias para geração de bens, persistentes na radicalidade da transformação do indivíduo, muito mais praticantes dos preceitos de Fritjof Capra, – físico, autor do Tao da Física e Ponto de Mutação -, do que todos ali, os não-capitalistas, ambientalistas, educadores. Um crítica à quem sobram ideias, muitas ideias como jamais houve.

Ser agente de transformação não é problema, o problema é ser produto criado para a competição e a busca do lucro, coisificando as pessoas como um recurso, assim como o é uma cadeira de escritório ou um cartão de crédito. Pra ele a questão da sustentabilidade não é um problema apenas ambiental, é entre pessoas: acredita que a distribuição de terra e de rendas gera paz e harmonia. Falando sobre as possíveis extensões do conceito de lugar, cita que nos locais de encontro, devemos criar verdadeiros espaços humanos. Alerta, porém que isso somente será possível, quando passarmos por uma conversão radical de nós mesmos: “Somos muito egoístas e solitários, muito ‘auto-ajuda’. Devemos ser mais ‘alter-ajuda’, solidários”, e provoca: “Sua vida é um testemunho vivo e encarnado das suas ideias. Como você tem vivido?” Outro problema: queremos produzir vencedores – é a cultura da desigualdade, pois a sociedade descarta os demais. Devemos nos munir de emoção – não o sentimento, que nos faz rir ou chorar – e sim emoção, que é o impulso que nos move e agir independente da categoria de vencedores ou não, pois, citando a antropóloga Margareth Mead: “Nunca duvide da capacidade de um pequeno grupo de dedicados cidadãos para mudar os rumos do planeta. Na verdade, eles são a única esperança de que isso aconteça.”

Incomodada com o discurso extremista, mas admirada com sua paixão, comecei o processo de auto-questionamento pois me proponho sempre à conciliação e à sinergia para criar algo ainda melhor: sou mais da turma da evolução do que da revolução – e penso que uma revolução quando é necessária, é porque poucos estão seguindo o ritmo de sua própria evolução e assim, quando a revolução poderia ser uma ruptura de salto maior, acaba se tornando uma guerra que até pode culminar no salto ao outro lado, mas ocorre com muitas perdas ou ao abismo. Dissipei meus pensamentos ao lembrar de coisas que li e ouvi sobre como estariamos em 2014, 2016, relembrei do conceito de capitalismo social até chegar no Prout, teoria nascida do filósofo indiano Prabhat Rainjan Sarkar, a Teoria de Utilização Progressiva, como alternativa para os paradigmas sócio-econômicos do capitalismo e do comunismo, tema interessante que talvez responda a muitas destas questões, a estudar.

Com um gostoso lanche feito com produtos naturais e orgânicos – jamais vou me esquecer daquela torta de banana! -, ouvimos Ana Person ao vivo e sua doce voz, lindas canções carregadas de amor pela natureza e pelo humano, como, Amigo de Verdade, Amazônia, O Planeta:

“(…)
água límpida
alimento, vida
espelho da beleza íntima
É preciso reciclar
todo sentimento
transformá-los em ações
que ficarão muito além do tempo 
o planeta pede
pede não jogares
lixo mental
onde passares.”

Iniciamos o segundo bloco, então, na contextualização da concepção de projetos eco-político-pedagógicos para então, finalizar com um exercício. A concepção de projeto baseada na pedagogia de Paulo Freire abordou a sua importância com muita similaridade a um curso que introduz o desenvolvimento de projetos, sem limitações que rebaixam o potencial de uma ideia. Citando Paulo Roberto Padilha, educador e um dos diretores do Instituto Paulo Freire:

“Um projeto é um sonho. Como tratamos nossos sonhos? Muitas vezes rebaixamos o sonho, não nos permitimos realizar até que não nos permitimos sonhar. Para projetar é preciso sonho de mudança, decisão de transformar e a esperança, impregnada de ação.”

Tudo isso, tanto como é preciso valores de quem sonha, combinados aos valores da sociedade em questão para quem concebemos o sonho. Gandhi citado, teria dito que sem projeto, não há caminho, é como se deixássemos a vida acontecendo, até que num certo momento não descobríssemos com clareza, o que fizemos, quanto evoluímos. Projetar, então, segundo Padilha, “é planejar dialogicamente – significa pensar o futuro com base nas experiências do passado e nas vivências do presente: um pé na realidade e outro no sonho.”

Projetar para uma educação ambiental é conceber um projeto eco-político-pedagógico, que tem como finalidades primeiras: formar sujeitos com valores menos predatórios e mais sustentáveis, proporcionando uma educação mais problematizadora, baseada no diálogo, no exercício diário da democracia, que provoca uma reflexão sobre a realidade e motiva a sua transformação, estimulando o senso crítico , evitando uma aceitação passiva da realidade.

Formamos grupos, recebemos mais conceitos sobre os componentes de um projeto, debatemos ideias, elaboramos possíveis projetos, praticamos o ouvir, reescrevemos Margareth Mead: “Não se preocupe com os pequenos grupos, ocupados e comprometidos em mudar o mundo. Pois eles mudarão.” Trocamos telefones, sentimentos, abraços, recebemos um certificado e um cd com muito da bibliografia citada, especialmente as cartilhas sobre educação ambiental, assim como as políticas concebidas pelos ministérios do meio ambiente e educação em parceria, (Marina Silva e Fernando Haddad) sob a direção do Marcos Sorrentino, muito embasamento de tudo o que foi aprendido e ensinado ali, leituras “pra mais de mês”.

Saí muito inspirada, pois um curso de 36 horas no Instituto Paulo Freire estava me levando não apenas a mundos novos, mas a galáxias inteiras de um uuniverso mais admirável e mais humano, enchendo de uma maravilha maior ainda do que a que tive quando me encontrei com minha vocação na Fundação onde sou voluntária em ações educacionais.

Meu mundo ficou maior, virou um mundão e a volta ao de antes, cada vez mais impossível.

Escrevo sobre o encontro depois de semanas, mas seguindo o meu planejamento para a pesquisa que me propus fazer ao Brandão. Rumo à segunda parte, ao planejamento não só do trabalho de pesquisa, mas das leituras obrigatórias, sinto imensos amor e paz.

Vontade de abraçar todas as pessoas do mundo todo….

 
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