carta a uma Mocinha

Querida Mocinha,

por entender que é inato a um leitor, uma leitora dialogar com as personagens das estórias com as quais se encontra, quando não o faz com o autor ou a autora, escrevo pra você, em resposta ou em pergunta à sua mensagem.

Conheço algumas mocinhas que são mulheres. Faltam-lhe experiências, como a todo o ser vivente, mas as que tiveram, não bastariam para as qualificar como tal ? Pois bem, vamos fazer um acordo, chamamos-nos mutuamente de mulheres. Mulheres que tem universo interior – e não só um mundo, um continente, um país, uma cidade, quiçá um bairro ou canteiro – se maravilham com um pôr-do-sol, ainda que a atenção esteja dividida com preocupações ou outras maravilhas.

Por saber se maravilhar seus olhos brilham. Se assim é, é por que habita nesse interior uma força vital pulsando por dentro? Qual poderá ser seu principal elemento? Tenho o palpite que é uma esperança – ou várias – aquela que permanece de cabeça erguida contra toda a esperança, sobrevivendo às evidências em contrário. Não só sobrevivendo, mas vivendo a valer.

Tenho outros palpites, e escolho o que você acredita ser: olhos brilham quando há amor. Amor muito bom é quando se é par de alguém que te oferta o mesmo amor, os olhos brilham como a diamantes feitos pedras lúcidas – brilham-brilham-brilham sem parar, alegria vem junto. Boto reparo no olhar de quem acabou de encontrar, como disse Clarice Lispector uma vez, não lembro em que história, seu par neste mundo. Coisa mais linda. Pode acontecer de sermos atacados por uma inveja, daquelas que não fazem mal a ninguém, só a nós, pois nos azedam e nos faz desandar.

Pra voltarmos a andar, só batendo bem a ideia boa que conta: o amor não mata, ele faz viver. Maior maior é o amor em par, mas o amor em uno, não é menor. Chamando o Djavan nesta prosa contigo, menciono o seu pensamento sobre o amor, concordando com o seu: “Por ser exato/O amor não cabe em si/Por ser encantado/O amor revela-se/Por ser amor/Invade/E fim.” Coisa real, quando amamos quem está do lado, o amor aumenta de tamanho, invade os espaços, se espalha, especialmente quando não esperamos recíproca.

Mas este amor que se dá, embora cause mais amor e, muitas vezes, felicidade, não completa o vazio de não se ter um par. Mais ainda, um vazio maior, o de não estarmos nos amando. Uma vez, uma amiga muito querida me disse: “Antes de qualquer coisa, sou comprometida comigo mesma.” Faz todo o sentido, já que um par, é a soma de duas unidades. Inteiras, com história própria, felicidade própria, sobretudo amor próprio.  

Daí fui entendendo, pelo menos por agora, que não há erro pior do que não ser comprometido consigo mesmo. Erro totalmente corrigível, passando a estar unida àquela pessoa única que cria os universos lá dentro de nós, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza. Também quando errar e quando acertar, pra não se culpar ou se vangloriar e sim se desenvolver e ser feliz. Com quem nos comprometemos diante de Deus, do Universo, da Natureza, de nos mantermos unidas, em cuidado amoroso, até que a morte nos separe e nos lance a novas vidas por toda a eternidade. Você é sua e demais ninguém.

Já o Mocinho, assim como você, poderá também estar se sentindo um vilão porque ainda não conseguiu encontrá-la e talvez esteja achando, como você, que não merece essa felicidade. Mas ele é um herói, como você, pois luta todos os dias. Quando se encontrarem é bem provável que não seja o seu herói, pois não o será de mais ninguém, apenas de sua própria história. Acho até, que se ele a amar de verdade, a ajudará a ser cada vez mais heroína também de sua própria história.

Já a história de vocês dois, será outra história. Linda, apaixonante, extraordinária e única. Como não é banal, pode ser que seja por isso que vocês estejam por aí, lutando separados, à disposição da vida, em acordo com ela para fazerem-se cada vez mais lindos, mais apaixonantes, extraordinários e únicos, para o grande encontro.

Quem sabe, resta apenas descobrir que basta a cada um ser o que é. Com os defeitinhos e defeitões, erros, doenças, pobrezas e tristezas. Para então descobrir que, ainda assim, já são assim, lindos, únicos, apaixonantes e extraordinários e finalmente, parem de lutar e simplesmente passam a viver, encontrando-se enfim para a tão sonhada vida em par.

Como uma unidade, posso fazer o que me propuser, com dificuldade e tudo, mas posso fazer dar certo. Fácil não é, especialmente a quem não foi ensinado amorosamente que pode ser assim, que se pode confiar na vida, em si mesmo – aliás porque também não foi ensinado. Mas posso buscar aprender a confiar, não? Leve o tempo que levar. Caio, tropeço, mas não deixo de andar. Pode até parecer que não ando, mas permaneço em movimento, em rota de busca, até compreender, confiar e viver simplesmente.

Pode ser que ele esteja aí, ao lado, cantando aquela música do Frejat que me acordou esta manhã, de madrugada, alarme misteriosamente ativado. Música que me fez lembrar do seu sonho, e não por acaso, do meu e de milhares de pessoas maravilhadas e maravilhosas em busca do seu par neste mundo:

Querida, o sonho ainda não acabou e a vida começou há tempos. E quando encontrar o mocinho, por favor, o reconheça!

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2 respostas para carta a uma Mocinha

  1. Andrea disse:

    Ola cara e rara Flor:
    saudades de ti, espero que esteja melhor agora..separei umas coisas pra mandar uma cartinha pra ti! aliás, seu cartão de natal chegou por estes dias! fala a verdade: atrasado pro ultimo ano e mto cedo pra este..rsrs mas eu te li!
    beijos, se cuida

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