Brandão pela Cultura, Educação e Ambiente – primeiros instantes

Auto-Retrato de Evgen Bavcar, Memórias do Brasil

Mais do que a curiosidade, o anseio de conhecer e encontrar novos mundos, quem sabe uma terra onde seja possível ser cidadã e não estrangeira, leva-me, sem descanso, à procura, quase ininterrupta, quase silenciosa, pelo meu lar, formado também por gente para amar e querer bem, a quem fazer o amor bonito e o bem por toda a vida que restar.

Um dia, o Instituto Paulo Freire anunciou o curso sobre Cultura, Educação e Ambiente, com o Profº Carlos Rodrigues Brandão, com 3 finais de semana seguidos de duração e sujeito a confirmação para quando houvesse uma quantidade mínima de inscritos, cuja preferência para participação seria dada a quem fosse participante de algum projeto popular ou quisesse começar algum. Confirmado – apesar do meu vínculo com instituições privadas, no trabalho e no voluntariado -, comecei uma aventura para outro confim extremo de ideias, mas sobretudo de pessoas que foram alunas e companheiras de Paulo Freire enquanto vivia. Sabia muito bem de sua ligação com movimentos populares como o MST – que não entendo -, seus pensamentos a respeito da globalização e do capitalismo, seus adeptos radicais, mas sua lição de amor à vida e sua recomendação de jamais ser seguido e sim reinventado e, por fim, o fato do grupo ser conduzido por um educador freiriano, cuja prática dialógica, esperava eu, seria a mediação necessária para conciliar as diferenças, encorajaram-me a estar naquela sala, repleta de cartazes sobre o Fórum Social Mundial de 2003 em Porto Alegre, apontados com um gesto de mão pelo coordenador do curso como a indicar uma nova direção, enaltecendo também os atuais presidentes dos países latino-americanos, como protagonistas de um novo e melhor mundo.

18 pessoas, 18 mundos vibrantes: representantes de um projeto popular de educação ambiental de Campinas, Semear; uma caiçara de Peruíbe ligada a um projeto cultural-educativo voltado não para o turismo da Juréia, mas para a vida dos caiçaras; quatro funcionários públicos, alguns estudantes da Unicamp e especialistas em ambiente e educação, ligados às secretarias de políticas públicas do estado, trabalhando com projetos interessantes sobre questões agrárias, educação ambiental e de cultura indígena; três estudantes de psicologia e relações internacionais, interessadas em conhecimento para suas teses de conclusão da graduação ligados a movimentos imigratórios no Brasil; um arte-educador interessado em desenvolver um projeto cultural em Piracicaba; uma mestranda em Saúde Pública da Usp e por fim, duas interessantíssimas mulheres de 60 anos, douturandas na PUC, ex-alunas de Paulo Freire, uma dedicada ao combate do analfabetismo em regiões pobres no Nordeste e em estudos sobre os movimentos das escolas comunitárias, alfabetização em poupulações rurais, a comunidade quilombola Muquem e a outra, educadora responsável pela formação de professores de educação básica da Universidade do Alagoas, envolvida em movimentos sociais pró-consciência negra.

E Carlos Brandão, homem de prosa, 70 anos, mas jovem de grande vitalidade, jeito de menino quase, muito envolvido em pesquisas etnográficas e educação de populações rurais, entusiasta das festas populares, apaixonado por futebol, dono de um sítio de acolhida, a Rosa dos Ventos que fica no sul de Minas e não sendo hotel, hospeda pessoas a preços solidários, exclusivos de manutenção da casa, bebe toda a noite, na cabeceira de sua cama, as águas de Guimarães Rosa, cheias do sabor do sertanejo, daquela simplicidade encantadora que me arrebata. Talvez daí surja a inspiração para seus poemas cheios de musicalidade, que ouço enquanto escrevo, em canções – lindamente cantadas na viola e outros instrumentos sertanejos – do livro O Jardim de Todos, infanto-juvenil.

Como única participante do mundo das instuições privadas, não encontrei interessados nele, como era de se esperar. Encontros depois, a situação se tornou mais compreensível pra mim, ao considerar o vivido no universo quase que rigorosamente material do escritório onde atuo na firma, a dificuldade na gestão de pessoas e de clima, – uma das faces duras do capitalismo, sob a luz do escrito por Hannah Arendt, no seu livro A Condição Humana: “Contudo, no mercado de trocas os homens não entram em contato uns com os outros fundamentalmente como pessoas, mas como fabricantes de produtos, e o que nele se exibem não são suas individualidades, nem mesmo suas aptidões e qualidades(…), mas seus produtos. (…) Foi essa ausência de relacionamento humano e essa preocupação fundamental com mercadorias permutáveis, que Marx denunciou como a desumanização e auto-alienação da sociedade comercial que, de fato, exclui os homens enquanto homens, e numa surpreendente inversão da antiga relação entre público e privado, exige que eles se revelem somente no convívio familiar ou na intimidade de amigos.”

Apesar de sutil repugnância a tudo o que tivesse origem no capitalismo selvagem emanada de quase todos, a primeira pronúncia do Brandão foi em favor da consideração de que somos diferentes, mas não desiguais e que tolerância não é boa prática porque inferioriza o outro como tolerado. Mesmo assim, e por sentir ainda a incompreensão no ar, não me entreguei por completo ao momento. Ao invés de participante maravilhada, fiquei no limiar entre ser participante e observadora, entre o espanto da maravilha daqueles mundões, do vir-a-conhecer, da aprendizagem e o espanto pela recusa à mediação, o ligeiro temor de domínio do gigante capital, a veia grossa e visivelmente pulsante, que se pretende escondida nos colarinhos, do lado militante-partidário de suas manifestações políticas. Não bastasse minhas relações com o mundo capitalista, tinha ainda a minha ignorância, não só daquele universo, mas da própria educação, da sustentabilidade e da antropologia – minha bagagem, em comparação a de todos juntos, era uma malinha de mão. Não foi à toa que, depois de achar o meu lado “humano” e ficar à vontade para provocações brincalhonas mas comedidas, o Brandão me caracterizou como a “moça quieta mas muuuito sensível.”

Longe de mim reproduzir o conteúdo das conversas que se seguiram, das falas do Brandão, senão, vou reduzir grosseira e injustamente. Dá, porém pra contar algumas descobertas e como elas entraram em simbiose com algum dos meus saberes e as questões que me suscitaram.

Fiquei por exemplo, perplexa em saber que a Pedagogia da Autonomia nasceu de uma fala de hora e meia de Paulo Freire, numa conferência expositiva. Em tom de denúncia jocosa, Brandão ainda dizia que nem ele, nem Rubem Alves, educador e amigo-irmão, não gostavam de ser contrariados. Daí vi que era uma ilusão romântica minha achar que o educador (não o tão somente professor das disciplinas curriculares de escola), tinha uma habilidade tão grande e por isso, de prática tão frequente e já inconsciente, de dialogar e gerar conciliação, sinergia, senso de próposito – que eram políticos, mas imparciais como alguns cientistas, pois se interessam única e exclusivamente pela vida. Eles gostavam mesmo, como ocorre a qualquer líder, de influenciar a algo, sua intencionalidade ao educar parecia muito mais diretora para um fim do que libertadora para um propósito mais amplo. Pareceu-me muito atrasado, apesar do conhecimento da minha malinha de mão, dicotomizar os mundos, reproduzir discussões que interessavam mais aos anos 60, 70, 80 como coisa da atualidade, andando pra frente olhando pra trás, apesar de ser um olhar crítico, cuja importância relativa era muito necessária para qualquer leitura do mundo, e para quem ousa olhar o futuro.

Ainda vivemos um tempo de muitas desigualdades e por isso, certos posicionamentos são necessários, como por exemplo estudar a comunidade quilombola Muquém como um ato político de valorização da importância cultural do negro e da preservação de sua dignidade humana, sua igualdade perante outras etnias, assim como trabalhar numa aldeia indígena tupi-guarani, alfabetizar comunidades ribeirinhas do rio São Francisco e dos sertões. Da minha parte, meu auto-questionamento diante dessas novidades, não me roubou a conviccção de que era necessário transformar caminhando, olhando para o agora, sempre que possível, pra frente, lutando pela vida e não por ideologias político-partidárias (ainda que as questões de divisão de poder que trazem sejam mais uma questão cultural do que política, como o Brandão ensinou) , e que, por exemplo, a crise climática trouxe a necessidade vital de unirmos as diferenças pra lutar juntos por um mundo melhor pra todos, respeitando a diversidade, ou o modo de cada um estar no mundo. Diante da necessidade de aprender mais e lidar com a minha inocência, pouco debati sobre esse desejo, como medo de matarem o meu “ingênio” ao invés de nutrí-lo e ajudar-me a encaminhá-lo para o amadurecimento.

Ao introduzir as noções de cultura, levando-nos a Clifford Geertz, à Dança de Congos em Goiás, à Briga de Galo em Bali, em tom de conversa ainda, Brandão nos levou a nos pensar como universos culturais e assim, descrever quais os mundos culturais que nos habitam, a fim de tomarmos consciência das dimensões que o estudo da cultura atinge e ao mesmo tempo, valorizar aquilo que em nós é brasileiro ou simplesmente é o que é, muitas vezes somas de muitas nacionalidades.

Citou Evgen Bavcar, um fotógrafo cego romeno – que foi perdendo a visão aos poucos – e querendo conhecer o Brasil, por aqui se apaixonou ao olhá-lo com o olhar dos que o recebiam, com sua imaginação e memória, também a cheirá-lo, a tateá-lo. Produziu o livro Memórias do Brasil, com fotos e textos seus, como um negativo: capas e folhas pretas, letras brancas; suas fotos são imersas no escuro, muitas em preto e branco, com registro de halos de energia, feito luzes ao redor das pessoas e lugares. Sua obra proporcionou pra nós uma parte da sua experiência de ser cego: pouco se vê, e o que se vê está no escuro, mas se ainda se vê, com outros olhos, beleza maior. Em nossa primeira tarefa, escrever sobre nós mesmos como ser de cultura, não revelei nomes ou referências de quem fez ou faz a minha cabeça, meu coração; descrevi somente uma busca cheia de dimensões, profundidades – lampejos de luz no breu, mensagem que foi recebida com respeito, aliás, fruto de uma das atitudes lindas e por demais autênticas de educadores freirianos, que é: todo o ouvir nasce intencionado a uma resposta – fala jamais desamparada ou abandonada -, resposta que ainda que seja sem palavras, de alguma forma e entre outras bondades, diz: vi você, vida. 

Quando depois, o Brandão passou a obra de Evgen, tive exata noção do meu tatear no escuro e o chamado para abrir os outros olhos meus, amor meu:

“Lembro ter ouvido pela primeira vez este nome mágico, Brasil, associado ao café que minha mãe esmagava num moedor ainda manual. Havia pouco café naquela época e seu cheiro pertencia às coisas de minha infância relacionadas a experiências únicas, cheias de riqueza e de atenção. Para nós, o café era quase uma espécie de néctar dos pobres, uma ambrosia destinada aos que de vez em quando queriam transformar o cotidiano num dia de festa. (…).

Nas inúmeráveis jazidas lingüísticas presentes na língua brasileira, senti a criação permanente de um imenso mosaico que permite a esse país dar mais do que possui, e ser tão generoso com as matérias-primas da diferença e da beleza. É no Brasil que encontro novamente esta regra: amor é dar o que não se tem, e é verdade que esse gesto generoso tornou-se aqui o princípio do cotidiano. Com minhas breves visitas a este país, a frase de Dostoiévski – a beleza salvará o mundo – ficou sendo pra mim a senha que usarei quando quiser seguir de novo o deslocamento do sol, apesar do reflexo distante que ele põe entre o país verde e meus humildes e não obstante infinitos desejos.”

Enquanto eu terminava de ouvir Evgen, com ele em minhas mãos, Brandão encorajava a nossa visão antropológica sobre nós mesmos: somos polissêmicos, muito mais densos e cheios de tramas do que imaginamos ou nos propormos a ver. Ver somente seria possível à medida em que, segundo Manoel de Barros, nosso poeta brasileiro da Geração 45 do Modernismo, conhecido também como Guimarães Rosa da poesia, resgatássemos o valor do simples, do essencial:

“O maior apetite do homem é desejar ser.
Se os olhos vêem com amor o que não é, tem ser.”

“O mundo não foi feito em alfabeto. / Senão que primeiro em água e luz. /Depois árvore.”

Constatando estas questões nas primeiras falas, conversas de café e almoço, de pausas paulistas (curtas) e não amazônicas (longas, muito longas) como gostariam, fui baixando a guarda, tateando aqueles mundos para andar por eles e voltando a abrir o meu coração para tudo o que ele pudesse orientar, assim como as pessoas ali, dentro do seu amor pela vida, especialmente a humana e seu desejo de que esta se desenvolvesse plenamente.

Saí do encontro, e ainda mais de todos os outros, com mais amor pela educação e mais paixão por diplomacia do que por militância que ao meu ver, fomenta mais guerra do que paz. Então, iniciei um período de mais escuta do que fala, de mais leituras do que escrevinhações, de mais admiração do que constatação.

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