Brandão pela Cultura, Educação e Ambiente – limiar de passagem

Cada onda de novas informações que emergiam das conversas, das leituras, que felizmente, estavam muito mais centradas nos valores humanos e seu processo de formação, causavam uma enchente nos meus pensamentos e emoções, tornados indescritíveis, que me faziam perder de vista o meu porto de chegada. Foi como uma reconfiguração mental, em parte por causa do maravilhamento de conhecer no detalhe alguns dos fundamentos daquilo que intuía ser verdade e me levava a acreditar no desenvolvimento das pessoas e dos seus talentos e na abertura multiplicada de possibilidades de estimular a atuação do universo de saberes de cada um. Como o Brandão mesmo diz, fundamentado não só em Paulo Freire, mas nos antropólogos, educadores, biólogos, cientistas sociais, que “Qualquer pessoa é sempre uma fonte única, original e irrepetível de conhecimento.”, portanto, olhando bem de perto, não é romantismo pensar que o capital intelectual individual é único e valioso e a soma de vários, o capital intelectual coletivo, tem um valor sempre multiplicado.

Falando ainda das diferenças culturais entre povos e das dimensões simbólicas, de sentido e de significado do indíviduo, do coletivo e seus rituais e celebrações, conversamos sobre o FIB – Felicidade Interna Bruta que traz a questão da humanização da economia, introduzindo a economia solidária através de Paul Singer e passando uma crítica à mensuração da importância de um pais pelo PIB e não pelo líquido, já que este último implica uma relação direta entre o que se produz e o que se resulta dele. Daí para as questões urbanas, destas para a educação, definida preliminarmente como um processo mediador, aquilo através do qual tomamos uma dimensão pragmática e integrativa de outras dimensões como arte, ciências. Desta para a produção cultural consequente e inevitavelmente, as considerações a respeito da evolução do homem a partir dos macacos, apreciando possíveis explicações para a sua evolução e as transformações culturais – quando, por exemplo, o acesso ao fogo que é o que, segundo o antropólogo Richard Wrangham, teria propiciado ao homem a evolução de suas inteligências – observação, contemplação, reflexão e ausência de medo ou tensão, já que este afastava os animais perigosos. A primordial evolução, teria surgido, de acordo com Levi-Strauss, dentro do processo biológico-cultural: hoje a principal e inata característica do homem, a reciprocidade, que ao romper com o incesto, instaurou alianças, complexos laços afetivos e trocas, expandindo a sociedade, passando pela cooperação e colaboração, à relação com natureza no sentido de que a sobreviência foi possível por termos sido flexíveis, transformando a relação com ela e não a destruindo. Permacultura, ecovilas, Escola da Ponte, Escola Yasnaia Poliana, a circularidade de culturas entre indíviduos e grupos sócios culturais.

Entre vídeos e canções folclóricas, a sobremesas típicas trazidas pelas mulheres, as cirandas de encerramento dos encontros, chegou a hora da definição do trabalho final. Poderiamos escolher entre uma pesquisa simples, um pequeno projeto ou uma pesquisa mais ampla e extensa que deveria ser feita e, por isso, avaliada como a uma monografia. Explicou cuidadosamente as dimensões do trabalho, os entremeios das tramas que teceríamos, os níveis de profundidade que poderíamos atingir, e que necessariamente deveriamos tomar cuidado em abranger as práticas do saber, as éticas do agir e as lógicas do pensar.

Embora pra mim fosse melhor trabalhar em grupo, dadas as limitações do meu conhecimento, meu interesse era específico, assim como dos demais. Acabaria não desenvolvendo a minha ideia e assistiria ao grupo. Havia três colegas trabalhando em temas correlatos ao meu e nos encontraríamos em algum campo, mas a finalidade entre nós era diferente. Passei algumas horas num dilema: serei humilde e feliz em me abster de um trabalho complexo ou fazê-lo, arcando com os custos de buscar mais conhecimento?

Procurei as dissertações de tese da Unicamp e da Usp em suas bibliotecas digitais e li o mais que pude na sua bibliografia recomendada, a fim de saber se caberia uma proposta mais complexa ou se meu interesse no momento era questão de buscar resposta nos materiais existentes, pra só então, achar a pergunta que valeria uma pesquisa daquele tamanho e com a orientação do professor daquela estatura. Achei inúmeras oportunidades de angariar informação, mas nenhuma defesa definitiva que respondesse à minha questão e então, com coragem e humildade – já que se eu quiser fazer alguma coisa razoável terei que dar duro -, optei pela pesquisa prolongada, mesmo avisada com os demais que fizeram a mesma opção, que a orientação dele não seria similar ao que dispensava aos seus alunos de pós graduação, mestrado ou doutorado, já que se tratava de um curso – faríamos um encontro na Rosa dos Ventos em março para a orientação e em abril, a entrega propriamente dita. Deveriamos nos valer de ajuda mútua no grupo, nas bibliotecas e entre os próprios sujeitos da pesquisa, e oportunamente transformar o trabalho num projeto auto-sustentável ou numa proposta de tese para um futuro mestrado e doutorado.

Então, no último dia, sob o assentimento atento do Brandão – que na verdade tanto poderia ser “sim, estou ouvindo”, como “sim, concordo com a proposta” -, a balançar afirmativamente sua cabeça, enquanto lhe falava, disse, que sob o título provisório: O papel do educador no cultivo do desenvolvimento humano – a descoberta do modo de estar no mundo do educando, pesquisaria o agricultor como metáfora ao educador. O agricultor orgânico que identifica e valoriza as sementes, criando condições para que germinem e os brotos se desenvolvam plenamente, até produzir os frutos de modo que sejam plenos de nutrientes, de sabor e compartilhados com a população. De como ele muda do cultivo tradicional para o orgânico, sua descoberta, sua escolha e consequências, suas novas relações consigo mesmo, com os outros, com a terra. Indo, na pesquisa e união de argumentos, ao encontro do educador das escolas públicas e de periferia de ensino fundamental e médio, que cumpre o ensino tradicional escolar; de como se ele relaciona com as vocações e talentos dos educandos dentro da sala de aula, e se se relaciona com suas outras opções educativas como família, internet, e também de como se relaciona com ongs que levam um ensino dialógico e especializado que busca dar condições para as potencialidades do ser, diginificando o viver e obtendo produção cultural. Meu problema para a monografia eram as fronteiras da intencionalidade do educador, até que ponto a transição total do estilo educacional é eficaz, considerando a constante dinâmica de interações e locais, assim como de bases de formação de cada indivíduo – ele não é um planta fincada num conceito, mas estabelece raízes em algum chão –  e as possbilidades de sincretismo ideológico e metodológico – nem tanto à terra: transmissão de conhecimento, nem tanto ao mar: produção diálogica de conhecimento. No final teria clareza a que chegaria: uma proposta de projeto, mestrado ou doutorado em desenvolvimento humano. Ou nenhuma das alternativas.

Sabendo que o educador pode ser uma dimensão de outras profissões, como o médico que se preocupa em prevenir, por exemplo, entendo que a proposta é ampla e complexa e tenho o risco de fazer uma grande bobagem se não souber discernir muito bem as tramas de cada processo, seguindo sua metodologia. Selecionei os livros, estou desenhando o plano de execução após as leituras de referência, pra ir a campo em fevereiro e março.

Sinto-me não só com a preocupação de fazer bem feito, mas como heroína de uma aventura mitológica: antes de encontrar o mestre que me conduziria a uma missão, passei pelo deserto – o nada e o vazio. O mestre surgiu do nada – ou talvez, em outro paralelo, do trabalho que fiz nessa direção dentro do voluntariado e alguns projetos da firma – e me convidou ao desafio, para no final, reencontrá-lo para um embate final e saber se estarei no momento digna de encontrar e vivenciar o santo graal, meu cálice sagrado ou mais adiante, num próximo desafio da jornada, sob suas bênçãos.

Ao final de tudo, por causa de um auxílio que deie de um amigo secreto improvisado, Brandão me deu dois dos seus livros disponíveis ali e sentou-se para autografar a pilha que eu lhe trouxe, a maioria de reflexão sobre cultura, meio ambiente e educação ambiental. No livro Encantar o Mundo pela palavra, que concebeu com seu amigo Rubem Alves, escreveu: “Leia com carinho a parte do Carlos e com solene respeito a parte do Rubem.” Abraço amoroso, de quem tem um genuíno amor pela vida, que jamais vou esquecer.

Lápis colorido e papéis à mão, é hora de montar um plano para uma história nova, amorosa e cheia de vida. No mínimo, vai ser divertido.

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