presença que preenche

Dias desses, notei que aprendi a achar o silêncio no barulho, a calma na crise, o espaço na ocupação, soltura no cativeiro. Apresentam-se como saídas impensáveis para uma outra dimensão que assegura o bem-estar, sobretudo a integridade – seja ela qual for – saídas, que aprendi a reconhecer e acessar sem sair de cena. O que não sei bem ainda, é conviver com o silêncio, a calma, o espaço e a soltura sem sentir, minutos ou no máximo horas depois, uma inquietação nervosa de quem está perdendo tempo e algo ainda mais valioso: experiências únicas.

Agitações à parte – saí do escritório imersa em gravidade, pensando num desafio gigantesco de fusão pela frente – nada mais. Nada, nem mesmo encontro com amigos ou familiares. A Fundação se perdeu do dia-a-dia das rodas de leitura desde o 2º turno das eleições e como não consegui criar vínculo com a coordenadora pedagógica da escola, passei a depender da fundação para fazer os encontros. Resultado: não voltei a ver a alunos do EJA; deixa-que-eu-deixo, falta de conclusão e consideração com o trabalho iniciado e com os alunos.

Também fez mais mal do que bem deixar um projeto educacional da firma para depois de um outro projeto; Paraty, Santo Antonio de Lisboa, Santos e Campinas para janeiro-março; TedxAmazônia para uma possível próxima edição (se é que eu seria selecionada para participar, diga-se de passagem). Ou deixar de responder ao convite daquele cara incrível, que apesar disso, faz pensar: será que é mesmo comigo?

Espaço, silêncio, nem linha de horizonte havia, cenário perfeito para quem estava se sentindo nada incrível. Resolvi não esperar a resposta do Instituto Paulo Freire onde me inscrevi para o curso de Cultura, Educação, Meio Ambiente com o prof. Carlos Brandão e liguei para a secretaria. Depois de dois dias que pareciam dois séculos, o Alencar da coordenação me avisou que sim, estava confirmado.

Maravilhada, fiz a caminhada de saída do escritório mais longa da semana, indo para a livraria próxima de casa, a fim de sentar num dos sofás, em companhia do café, do pão de queijo e de uma pilha de livros. Saboreei tudo, deliciosamente coberto pela boa notícia, sensação de entrar num oásis mineiro, depois de um semestre desértico: cair nas graças de um educador relevante, companheiro de Paulo Freire e assim, com ele e outras pessoas incríveis que estariam lá, reinventar suas belíssimas teorias e a realidade.

Folheando o útimo livro, depois da densidade de Humberto Maturana em seu A Árvore do Conhecimento, As bases biológicas da compreensão humana -, fui de saideira meditativa, O poder do silêncio de Eckhart Tolle, espiritualista alemão, entendi uma possibilidade sobre o estado de calma – algo que muitas vezes recupero quando reencosto numa árvore ou as contemplo de longe, vendo-as falar com o vento ou com os passarinhos visitantes.

“A calma é a nossa natureza essencial. (…) É o espaço interior ou a consciência onde as palavras desta página são assimiladas. (…) Quando você perde contato com sua calma interior, perde contato com você mesmo. (…) Sua mais íntima noção de si mesmo, de quem você é, não pode ser separada da calma. Ela é o Eu Sou, mais profundo do que seu nome e sua forma externa.”

Compreendi também que o pensamento ininterrupto e ensurdecedor, só comparável a uma maritaca agitada, uma britadeira, uma voz estridente, vazia e tagarela, pode ser simplesmente observado ao invés de assumido como uma identidade sua e por estas características, ruim e dominante.

“A mente pensante é uma ferramenta muito útil e poderosa, mas torna-se muito limitadora quando invade completamente a sua vida, impedindo você de perceber que a mente é apenas um pequeno aspecto da consciência que você é.(…) Sempre que você mergulha em pensamentos compulsivos está impedindo o que existe. Você não quer estar onde está. Aqui. Agora.”

E por fim, que no vazio, onde não há som, luz ou vida, há paz e sabedoria. Parece, lendo bem de perto, a sentença mais clichê do mundo, quando não aterradora se a imaginação nos levar para um túmulo. Mas ao me lembrar das últimas semanas, percebi que não tolero o vazio que se forma pela perda, ausência ou insatisfação. Corro para preenchê-lo com coisas ou experiências que muitas vezes parecem satisfatórias, mas na verdade são nada ou no máximo, um prazer que dura pouco tempo e não deixa nada exceto descartes, na maioria, impossíveis de reciclar. 

Ao decidir ser disciplinada e decidida com tantas coisas ao mesmo e não seguir o curso do rio que passava ao lado, tive que encarar o vazio que precede as dúvidas. Será que está realmente tudo certo? Ou estou me desviando mais? 

Do meu lado, dois casais conversavam animadamente e pareciam esperar alguém. Pelo visto, pelos gritinhos, era a mulher que chegava sorridente, emocionada. Cheios de saudades, totalmente presentes ao reencontro – isto é, ninguém com um riso de plástico, ningupem absorto em pensamentos outros, ninguém atento a nada além da sua chegada -, abraçaram-se, beijaram-se, checando se ela tinha chegado bem daquela viagem louca, mas de importância respeitada e falavam ao mesmo tempo e a mesma coisa: como era bom estar ali, agora, juntos. Parecia que tinham todos sido resgatados e festejavam sinceramente o fato de que não tinham se perdido um do outro e dali em diante, a história seria nova e mais feliz, pois, teriam uns ao outros.

Imaginei como a vida seria boa entre eles a partir daquele reencontro, sensação quase palpável de que o amor tornaria tudo risível e contável em jantares regados a vinho, além de suportável quando mau e excitante, quando bom.  Observei aquela alegria, aquele amor por alguns segundos, certa de que não me notariam. Mas os cinco, ainda falando, olharam-me e senti uma emoção sufocante, vergonha pela indiscrição.

Fui embora e aliviada por retomar o meu caminho, orientada a lidar com a vazio que se evidenciava dias antes de parte dele ser ocupado com o encontro com o profº Brandão e os demais: assumindo minha presença no mundo.

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