emboscada ou beco de passagem

Quando estudava administração no Mackenzie, tínhamos muitos colegas de outras faculdades. Um deles, que estudava economia na USP, tinha um modo muito peculiar de dizer que seria seu melhor amigo pra sempre: dava de presente, anotado com letra caprichada num simples papel, a última escalação do time da Portuguesa. Há pessoas que demonstram de outras maneiras.

No escritório, quem não tinha ganho da firma um ingresso para assistir o treino da corrida de fórmula 1, ficou para trabalhar ou para descontar a frustração nos outros. Fazendo alguns ajustes para o fim da campanha pela ação social do momento, uma confusão se instalou: o sistema para as adesões estava falhando e precisávamos saber se haveria prorrogação ou não. Enquanto a resposta não vinha, entre um telefonema e outro sobre outro projeto, fui esclarecendo dúvidas, e para umas duas equipes de outra área, resolvi conversar com o gestor e combinar uma parada de dez minutos para um esclarecimento geral, com espaço para dúvidas.

“Não, prefiro que fale individualmente.”

“Falar individualmente leva mais tempo e pode constranger as pessoas, que podem se ver obrigadas a aderir ao programa.”, insisti, exemplificando como em outra área o plano caiu melhor. 

“Não é esse o objetivo? Quanto mais adesão melhor? Um a um.”, insistiu cínico e impaciente

Olhei bem pra ele. Sei que todos do nível dele estão passando por um intenso programa de treinamento sobre gestão de pessoas e liderança, com progressos – muitos chegarão lá – e mesmo quem não acredita em nada do que experimenta nestes encontros, toma o cuidado de não causar a impressão do contrário e arranhar a imagem. Estou acostumada a me sentir um pouco Alice no País das (faltas) de Maravilhas e procuro relevar as grosserias e não confrontar ignorância, ceticismo ou falta de visão, mas não sei por quê, aquilo me incomodou de tal maneira, que estava preparada para cuspir o sapo de volta, quando uma de suas funcionárias, uma bem cuidada e bonita senhora de quase cinquenta anos, muito delicada nas maneiras, de belo sorriso, aproximou-se de nós para defender a minha ideia pois assim, também ninguém de uma das áreas, correria o risco de perder os ônibus fretados que saíriam dali uma hora.

“É mesmo?”, perguntou ele num tom de quem posiciona o pé delicadamente em uma das faces do inimigo e aguarda uns segundos antes de chutar.

Ela, sorrindo com o tom macio do chefe, ficou aguardando um comentário, quiçá, elogioso pela inciativa. Tentei falar alguma coisa pra desviar a atenção, mas o chute veio antes.

“Alguém te chamou pra dar alguma opinião?” – disse dando um riso nervoso “Já mandou aqueles documentos atrasados ou vai deixar pra amanhã pra não perder o fretado?

Como uma menina ofendida se sentou novamente em sua mesa e percebi que continha o choro. Ele, obviamente com remorsos, suspirou, cheio de auto-comiseração e pôs-se a falar que não aguentava mais as cobranças, incompreensões e problemas e aquela semana tinha sido cascuda. Achei a brecha para dizer que se reuníssimos as pessoas em turmas, sobraria mais tempo para a equipe e também era uma ótima ocasião para, tendo formado um grupo, as pessoas se ajudarem entre si sobre o programa e certamente, sobre os desafios que tinham ali. Pediu desculpas, deixou-nos à vontade e saiu.

Fiz o meu trabalho e olhei para a senhora, que secava as lágrimas. Sentei ao seu lado e disse que me orgulhava dela por ter dado a sua opinião. Contente com o reconhecimento, desarmou-se e fez um pequeno desabafo sobre a vida em geral, comentando depois de como achava bonito o meu falar, pois entendia tudo e bem. Fiquei com muita pena e segurei suas mãos, agradecendo e a encorajando naquilo que ela desabafou serem seus desafios.

Levantei-me para sair, mas ela queria me mostrar uma coisa. Tirou um papel amassado de sua bolsa, era um boletim de ocorrência. “Aqui,” – disse apontando um trecho onde descrevia uma pessoa fisicamente, o que vestia e o que portava – “é o meu irmão. E aqui,” – disse virando a página e apontando outro trecho – “conta como ele morreu.”

Descrição detalhada de um assassinato brutal: entrou num bar para comprar cigarros, bêbados cismaram com ele e o provocaram, devolveu ofensas, foi pêgo na rua, levado para um local deserto e aí… dentre outros detalhes trágicos, teve a cabeça decepada e encontrada pela irmã e a polícia num bueiro. “É por isso que sou assim,” disse guardando o papel devagar, “choro à toa quando levo bronca, tenho medo do que pode vir depois.” E contou sobre sua recente liberação da licença médica por síndrome do pânico, mostrando as dezenas de comprimidos diferentes que tomava por dia. E de como sua confiança desapareceu completamente quando sua mãe morreu no mesmo ano por erro médico. Trocamos palavras de encorajamento, falei que minha vida também não era fácil, mas não sei se saiu crível pois eu não tinha vivido nada parecido com aquilo. “Contei essa parte da minha história, porque gostei de você e te considero uma amiga.”, disse por fim.

Ficamos de marcar um almoço na próxima semana e saí um tempo depois de mais um pouco de conversa, ela mais animada e eu, ligeiramente atordoada. Agradeci por tudo, exceto por ter feito a intromissão na horinha em que ia cometer um desatino, despejando a minha frustração de lidar com alguém como ele. Não pude agradecê-la, pois ainda me sentia sem confiança, impotente e tão ignorante como.

Quanta coisa pode haver por trás de um sorriso, quanto medo há por trás de gentilezas e mesuras ou teimosias e grosseirias. Quanto a nossa ignorância parece ser invencível, pois, fiquei me perguntando como lidar com pessoas que carregam tamanha dor – qual era a daquele homem e será que eu sabia mesmo o tamanho da minha, para lidar com ela e viver bem ? Quase perguntei pra ela porque andava com aquele boletim de ocorrência e se realmente isso faria bem, mas achei melhor não, pois faltava-me competência para resgatá-la, caso a pergunta a fizesse cair em algum buraco da sua já frágil mente. 

Voltei a me entreter com outro projeto. Embora toda a ocasião traga conhecimentos úteis e seja muito bom poder ajudar as pessoas, chega uma hora em que aquilo que deveria contribuir com a sua formação, deforma. Valeria a pena experimentar isso? Não sei, talvez dependa de atitude. Será que realmente estou fazendo a coisa certa no meu plano ? Vi o email de um dos meus pares avisando que o chefe estaria de volta de sua licença e que devíamos nos preparar para despachar com ele. A palavra “despachar” me deu calafrios, senti-me trabalhando numa fábrica do século 19. Aliás, do século 19, só arte, literatura e arquitetura me interessam.

Peguei minhas coisas e saí para o fim de semana, perguntando-me se realmente é bom o que estou fazendo pra este momento, se a hora que escolhi para o próximo, é realmente a acertada. Estou por minha conta e risco e a onda sou eu quem segura, ninguém mais. Depois de hoje, tive mais dúvidas.

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2 respostas para emboscada ou beco de passagem

  1. Andrea disse:

    Ola minha querida menina:
    saudades impertinentes de vc!

    beijos e um excelente final de semana..indo embora amanhã, mas levando sua pessoa comigo

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