sem razões pra tanta graça

Abrindo a terceira semana de caminhada até o escritório, tive que fazer umas concessões, como descomplicar a troca de roupas: camisas e camisetas que não amassam, calças escuras para o dia que não fiquem estranhas com tênis e nem amarrotadas com os sapatos. Mas ainda reluto em caminhar, embora me sinta muitíssimo bem durante e depois. Especialmente depois de chegar em casa minutos antes da chuva.

Foi tanta água e vento que, assistindo a tudo pelas janelas, no escuro da queda de energia, tive a sensação de estar submersa num mar em depressão – barulhento pra quem está na superfície sendo jogado de um lado ao outro pelas ondas, e silencioso nas profundezas. Tudo isso depois de uma manhã cinematograficamente linda.

Não fiquei muito tempo submersa, pois o mar virou noite outra vez, muito embora os relâmpagos e trovões continuassem, assim como a escuridão. Apesar de ser um pouco desolador, interessante fazer de conta que nada mais existe além de nós e uma estória.

Outro encontro de voluntários aconteceu na Fundação no último sábado para uma troca de experiências e sentimentos de como vai indo o trabalho. Desde que deixamos o processo morrer no colégio onde eu aplicava uma roda de leitura, deixei de ter epifanias por lá, alíás posso dizer que até um pouco antes, quando eles quiseram partir para uma linha mais psicológica do que pedagógica. Fui e sentei no banco, ouvindo alguns depoimentos emocionados, sentindo-me uma natureza morta.

Uma mulher que se fantasiava de palhaço e dava uns shows nas rodas e por aí, contou, depois de uns gracejos, a triste notícia de que tinha perdido recentemente um tio. Seu choro repentino e curto, mas tão intenso que parecia rasgá-la por dentro, foi como uma descarga elétrica em mim: era palpável a importância daquela vida pra ela e o que sua partida tinha lhe levado: ele era a razão de sua graça e agora, estava perdida entre os pancakes e as fantasias.

O minuto de silêncio que se seguiu em sinal de respeito à sua perda e ao seu tempo de se recuperar, foi uma pausa no tempo do universo e no fôlego do espírito de todos. Era como se todos tivéssemos mergulhado naquele túmulo, querendo, sem fazer barulho para não espantá-la, encontrá-la e a trazer de volta. Senti uma tristeza sem fim, como buraco negro engolindo tudo o que orbitasse em torno e ao mesmo tempo, um desejo de ter plenos poderes para ajudá-la, também num curto espaço de tempo, a encontrar outra razão que a tornasse cheia de graça outra vez. Quando conseguiu dizer alguma coisa, foi um pedido de desculpas pela emoção e de volta ao depoimento, acabou logo e se despediu de todos pois tinha um compromisso em seguida.

Custei para voltar a ouvir o que os outros falavam, pois caíra eu novamente no nada. A hora da minha vez de falar só foi possível por que antes, um dos homens falou de sua experiência com crianças difíceis e briguentas, como quem fala de algo sinceramente divertido, público para o qual partiu quando deixou com os adultos comigo. “Tô louco pra ouvir ela contar o que está acontecendo lá.”, disse ele se ajeitando na cadeira e me endereçando aquele sorriso franco e cheio de perdão.

Relutei por segundos, mas, dei uma declaração inesperadamente leve e madura do que foi meu encontro com os meninos da 8a. série e como estava acontecendo com os homens e mulheres do EJA. A alegria foi voltando, mas não em medida transbordante: a emoção e o prazer da psicológa com os depoimentos, ao não me dizerem nada, fizeram-me lembrar do vazio que foi ganhando espaço nas últimas semanas.

Não sei se foi o almoço da dona Josefa, o homem do sorriso franco que também tinha risada contagiante, a indignação do jovem design com as eleições, o entusiasmo pueril da jornalista com o seu tcc sobre a exclusão social dos doentes mentais presos em manicômios ou a agitação do estagiário em acompanhar as idéias e risadas da nossa mesa, fui sentindo um gosto bom por tudo e quase vivi de tanto rir, porque do nada, tudo tinha ficado muito engraçado.

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