educação sentimental no ônibus

No meio do caminho tinha uma nuvem carregada, no meio do caminho, de volta do escritório, choveu. Apesar de parecer adorável a ideia de caminhar tomando chuva, a de carregar bolsa e roupas molhadas e por isso, com peso extra depois de um dia duro, era terrrível. Então, subi correndo uma rua, para, na próxima esquina, pegar um ônibus. Também não estava afim de ouvir nem sentir o flush-flush de tênis-confortável-velhinho-com-meia-molhada.

Apesar de ser contra-fluxo, o ônibus estava todo ocupado, mas fiquei na entrada perto do motorista, atraída pelo debate que acontecia entre três pessoas, nordestinos, a julgar pelo sotaque.

Um homem de uns quarenta anos, óculos riscados, cheio de sacolas grandes, no colo, no chão, ao lado onde estava a mulher que ouvia a tudo com um meio sorriso, tentava convencer sobre a importância de usar camisinha, a uma senhora tímida, vestida numa enorme camiseta com uma imagem de uma santa que não identifiquei.

– Eu não sou desse mundo que o sinhô tá falando. Isso aí é safadeza. – disse virando o rosto pro lado com vergonha.

– Mas tem que usar senão a senhora pega doença, daquelas que quando a gente vê, já tá é morrendo!

– Sou casada, o sinhô fique despreocupado!

– A senhora confia no seu marido?

– Só confio em Deus!

– Mas então, mulé de Deus ! – gritou o homem batendo as mãos – Usa ! Vai morrer pra quê?

– Ué, é só não fazê…

– Ah! já entendi, – disse ele se dirigindo a todos colocando um ponto final à discussão: – Ela encerrou o facão!

O homem, agitado, voltou a provocar as pessoas a pensar sobre a AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis: “tem que dialogar pra saber direitinho onde vai essa ideia bonita de fidelidade, porque tem horas que a carne fraca assume o controle”, dizia ele, “o certo é se proteger e ao companheiro(a) também, não levando coisa ruim pra cama de casa”. Entrei na roda da conversa também, tentando o jeito simples de falar e ouvir. Outras pessoas participaram, outras assistiram.

Desci do ônibus ouvindo as risadas – realmente conversa muito avançada para aquelas pessoas simples e também para as complicadas que pensam que quando há paixão e sexo em casa, não pinta desejo ou vontade fora. Fazer ou não depende de compromisso, valores e acordos, e alguma diversão? Bom perguntar porque a vida é imprevisível, especialmente pra quem se dispõe a ela com interesse.

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