É saudade então, Renato Russo

 
 
 

Querido, como vai você?

Gostaria de ter escrito no dia do seu aniversário, mas o que dizer só chegou agora, quando fazem 14 anos que partiu.

Quem sou eu? Ninguém. Também diria alguém entre seus fãs de pequena paixão. Paixão nascida relutante por não gostar da sua voz, mas depois  cativada pra sempre pelos sentimentos e significados das canções, que foram esclarecendo parte dos meus.

O “Desde pequenos nós comemos lixo / Comercial e industrial / Mas agora chegou nossa vez / Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês” da canção Geração Coca-Cola, tirava-me o peso de soar estranho me preocupar com o que hoje chamo de sustentabilidade e engajamento cívico. Foi com esta canção que comecei a ter mais coragem de pensar no mundo além do meu próprio. Mal sabia também que a alegria de cantar a estrofe seguinte vinha não de pensar no socialismo como remédio contra o capitalismo ou antes até, na república contra a monarquia, mas na democracia como remédio contra a ignorância, a desigualdade de direitos e a intolerância às diferenças: “Vamos fazer nosso dever de casa / E aí então, vocês vão ver / Suas crianças derrubando reis”.

“Será” me fez finalmente sentir: que cara legal! Pois era o que sentíamos, meus amigos do colégio e eu, e até mesmo alguns dos meus primos, em relação aqueles que queriam continuar comandando nossas vidas, fazendo-nos exigências sem fim: “Tire suas mãos de mim / eu não pertenço a você / não é me dominando assim / que você vai me entender” – que adolescente não passa por isso ao se ver no mundo, carecendo de andar nele com autonomia e identidade própria e ao dar os primeiros passos por si, perguntar-se “Será que é imaginação? / Será que nada vai acontecer? / Será que é tudo isso em vão? / Será que vamos conseguir vencer”?

E falando em questionamento, Dois foi o meu álbum favorito pois falava de tudo o que éramos e de tudo o que queríamos ser, como em Daniel na Cova dos Leões, livrando-nos de todo o mal de ter medo de tentar: “A insegurança não me ataca quando erro” e ser como um barco a motor e bastar tomar ciência pra deixar de se sentir um erro: “Mas, tão certo quanto o erro de ser barco a motor e insistir em usar os remos” e ver um mundo a disposição de aventuras para nelas mergulhar, certos de que não estaríamos sozinhos se precisássemos de resgate: “É o mal que a água faz quando se afoga / E o salva-vidas não esta lá porque não vemos”.

De como a vontade por verdade nos governava com gana: “Que mentir pra si mesmo / É sempre a pior mentira” em Quase sem Querer, que também nos trazia o recado da infância recém-deixada, de quando éramos mais autênticos e de mais atitude: “Quantas chances desperdicei / Quando o que eu mais queria / Era provar pra todo o mundo / Que eu não precisava / Provar nada pra ninguém.”

Sou da turma de Eduardo e Mônica e não de Faroeste Caboclo, mas Acrilic on Canvas, pra mim, foi uma das suas canções mais românticas e me inspirava nas aulas de desenho artístico, ao pintar retratos de rostos desconhecidos com lápis crayon e aquarela: “Os traços copiei / Do que não aconteceu /As cores que escolhi / Dentre as tintas que inventei / Misturei com a promessa / Que nós dois nunca fizemos / De um dia sermos três / Trabalhei você / Em luz e sombra”.

E para os acampanhamentos do colégio, Tempo Perdido no violão e dezenas de vozes em torno da lanterna: “Todos os dias antes de dormir, / Lembro e esqueço como foi o dia: / Sempre em frente, / Não temos tempo a perder.” e para o apoio comunitário urrado com solidariedade: “Temos nosso próprio tempo!”. Entusiasmo muitas vezes seguido por um minuto de silêncio pelas desilusões que achavamos insuportáveis e mal sabíamos que as piores estariam por vir, em Andrea Doria: “Às vezes parecia que, de tanto acreditar / Em tudo que achávamos tão certo / Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais: / Faríamos floresta do deserto /E diamantes de pedaços de vidro / Mas percebo agora / Que o teu sorriso / Vem diferente, / Quase parecendo te ferir. / Não queria te ver assim / Quero a tua força como era antes.”

Já éramos uma geração verde ou que pressentia a necessidade que viria a ser emergencial de mais preservação não só do meio ambiente, mas da humanidade e suas relações, como em Índios: “Quem me dera, ao menos uma vez,/ Provar que quem tem mais do que precisa ter / Quase sempre se convence que não tem o bastante / E fala demais, por não ter nada a dizer / Quem me dera, ao menos uma vez, / Que o mais simples fosse visto como o mais importante, / Mas nos deram espelhos / E vimos um mundo doente.” Também que aparece em Há Tempos: “Muitos temores nascem
Do cansaço e da solidão / Descompasso, desperdício / Herdeiros são agora /
Da virtude que perdemos” com uma dica final de como sermos firmes apesar dos sonhos que vem e vão, sendo o resto tão imperfeito: “Disciplina é liberdade / Compaixão é fortaleza / Ter bondade é ter coragem.”

Ainda havia a gravação que você fez de On the Way Home: “When the dream came /
I held my breath with my eyes closed / (…) In a strange game / I saw myself as you knew me / When the change came, /And you had a Chance to see through me”. Inspirava-me  uma força de caminhada, especialmente para encontrar as pessoas “da minha turma”, e quando se fazia necessário um esforço de subida com uma esperança contra todas as evidências em contrário. E sempre com o entendimento que nada é totalmente realizado sozinho, desde a hora do sonho.

Talvez ouví-lo de novo nessas canções fosse mais que um balanço do que foi sonhado naquele momento e realizado neste, fosse uma recuperação daquele gosto pela aventura que nos faz abrir mão de mundos, em busca de outros, fazendo questão de colher os possíveis frutos das consequências, mais vitais do que os riscos. Mas como as coisas não são tão duais e se a ” tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos”, ainda é cedo pra cantar: “nosso dia vai chegar / teremos nossa vez.”, da canção Fábrica

Não tenho nenhum boa estória pra contar exceto as das suas canções. Não fui propriamente hábil para manejar sonho e realidades e por isso, para coisas fundamentais, ainda canto: “Será que vamos conseguir vencer?” Vou continuar tentando fazer dar certo e espero voltar a escrever no dia do seu aniversário, comemorando também os frutos das suas canções na minha terra.

Sei que você não tem medo do escuro, mas me despeço, deixando as luzes acesas agora. Pois temos nosso próprio tempo. Somos tão jovens…

P.S. e graças a você temos uma estrofe para cantar todas as manhãs precedidas de longas e tumultuadas noites, da canção Metal contra as Nuvens que nos diz: “Tudo passa, tudo passará / E nossa estória, não estará / Pelo avesso assim / Sem final feliz. / Teremos coisas bonitas pra contar. / E até lá, vamos viver / Temos muito ainda por fazer. / Não olhe para trás / Apenas começamos /O mundo começa agora.”

 

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