por uma melhor autoestima eleitoral e cívica

Depois de duas semanas de encontros suspensos pela escola, voltei a me encontrar com os alunos do EJA, levando o tema eleições, útil para o 2º turno e para acompanhamento dos 4 anos de governos a seguir. Escolhi para a leitura, um artigo publicado pelo site Webcitizen: “Será que os nossos deputados e senadores estão realmente nos representando” e, para dinâmica, elaborei uma simulação de eleições para provocar discussão sobre as escolhas e a cidadania.

Antes de ir para a escola, participei de um encontro na firma que tratava sobre uma ação social específica para crianças e adolescentes, associada a outro projeto voltado para as escolas. Ambos eram até mais educativos do que sociais do meu ponto de vista, especialmente se lanço sobre as proposta um olhar mais atento e honesto: quando lemos o trecho da Constituição Brasileira de 1988 onde prescreve que a criança e o adolescente devem ser tratados com prioridade absoluta e vemos como os mecanismos estatais se engrenam com absurda dificuldade que despenca pra frouxidão ética, consumindo até o resultado esperado, não dá pra ficar à margem e cuidar somente do núcleo familiar e social.

Pensando no meu trabalho voluntário atual, o EJA sempre foi uma questão de ajudar pais e mães a deterem qualquer processo de deformação de seus filhos, uma vez que passam menos tempo na escola do que com suas famílias e estas, por sua vez, ao não receber nenhum tipo de orientação, não consegue evitar a violência doméstica, o abuso sexual, o trabalho infantil, nem promover continuamente o interesse em aprender.

A sala de aula estava meio vazia, talvez muitos tivessem faltado por causa da chuva que despencou às cinco da tarde e praticamente não havia parado até aquela hora. Levei os  alunos da roda para outra sala e começamos a conversar. Os jovens votaram na Marina e pelo menos um de seus pais também – a escolheram porque era legal, sentiam que era diferente; não disseram se havia alguma influência religiosa. Os mais velhos desconfiavam da sua inexperiência e do seu jeito de menina e não sabiam ou queriam discutir a questão de candidatos a deputados. Falando do Tiririca, disseram que quem tinha votado nele, votou porque era engraçado, alegre; três estavam indignadas porque votar nele era sinal de ignorância: o que ele faria lá? Tinham uma noção de que ocupar um cargo desses requer alguma competência necessária. Os outros ficaram ouvindo.

Representatividade política, parlamentares, projeto de lei, comissão, eram novidade pra eles. Imaginar-se integrantes deste cenário então, uma supresa. Como assim? eu votar pra dizer se eu concordo ou não?

A menina de 17 anos que teria votado na Marina se tivesse tirado o seu título de eleitor, disse que tinha passado um dia antes das eleições de hospital em hospital por causa de uma febre alta, não conseguindo ser atendida por faltar médico. Depois de horas, quando conseguiu atendimento, na saída recebeu um santinho do Serra e recusou pois sabia que era o atual governador do estado: “Professora, como eu ia votar nele pra Presidente se nem o pronto-socorro perto de casa ele conseguia fazer funcionar? Um monte de gente morrendo e eu quase ia junto? Passa amanhã, falei pro bocão. (o boca de urna).” O exemplo dela os ajudou a ter uma visão do que siginfica “assumir a responsabilidade do papel de cidadão e participar do processo democrático que acontece depois das eleições”, como dizia a autora do texto. A menina escolheria um candidato que se comprometesse melhor com suas necessidades e ficaria atenta aos seus passos.

Partimos para a dinâmica. Distribuí dois chocolates bis para cada um, dizendo que aquele era o seu salário bruto por mês e 1 deles, representava os impostos mensais. Embora tivessem sido comedidos pra falar em política, ficou implícito que não acreditavam em nada, questionando qual a serventia real de eleger alguém já que era pra fazer nada. Na hora de falar dos impostos, foi interessante a abertura que tiveram para enteder que os impostos recolhidos permitiam o retorno ao cidadão por meio de ações públicas como hospitais, escolas, policiamento, luz, água, esgoto, sem falar em inúmeras políticas públicas que nos atingiam, favorecendo ou não. E o nosso desafio como cidadãos, era escolher representantes competentes para coobrar o valor justo, não mais abusivamente e administrar os valores recolhidos de forma eficaz com projetos que correspondam as necessidades da realidade.

Pedi 3 voluntários e entreguei a cada um, um “pacote de governo” – um pacote de chocolate embrulhado para presente -, que representava o orçamento público para o cumprimento das metas, e um envelope, escolhido aleatoriamente por cada um, que continha o passado e o futuro do candidato. O envelope somente seria aberto depois das eleições, no início do governo e para escolherem o candidato, tudo o que teriam era o horário eleitoral ou um minuto para convencerem os eleitores a votarem neles. 

A menina de 17 anos se candidatou, uma mulher e um rapaz. Mostrei a “urna eletrônica”, um papel dividido em três blocos – candidato A, B e C, onde os eleitores iriam assinalar sua escolha. O rapaz que não sabia bem o que prometer, queria desistir da brincadeira e tinha aproveitado somente 40 segundos do tempo, foi o menos votado. As duas mulheres ficaram empatadas e assim, fizemos o “2º turno”, com horário, ou melhor “minuto eleitoral” e nova votação.

A mulher prometeu melhorias na escola, para os professores, para o bairro (tratamento de esgoto, recolhimento do lixo a céu aberto, asfaltamento). A menina prometeu formar mais e melhor professores e médicos, faria também melhorias nas escolas, nos bairros, aumentaria os empregos e abriria “muitas clínicas de recuperação de drogados para adultos e crianças.” Na apuração, a menina ganhou e assim, pela regra do jogo, escolheria alguém no grupo que representaria um grupo de afinidade do candidato, o amigo a quem protegeria. Então abriu o envelope que escolheria e lá estariam as ações a tomar que revelariam seu caráter: 1. cumprir parte do que prometeu, 2. favorecer o grupo de afinidade. Em termos de chocolates, significou que ela abriria o seu pacote e ao invés de distribuir 2 chocolates a cada cidadão, distribuiria 1, que seria recolhido mais tarde com o outro, pra fins de impostos. E todos os chocolates que não tinha distribuído, ficaram com ela e a amiga escolhida.

Os alunos ficaram entre chocados e divertidos com a situação. Comentários do tipo, se eu soubesse que faria isso não teria votado em você, disse a maioria. Então, desvendamos o que os outros candidatos teriam feito, abrindo os envelopes: a 2a. mais votada: 1. não cumpriria o que prometera, 2. roubaria o dinheiro público, 3. favoreceria os grupos de afinidade, o que, em termos de chocolates, significaria que recolheria os chocolates de todos e daria metade para o amigo, ficando todo o resto do pacote só pra si. O candidato menos votado, teria cumprido o que prometeu, melhorando a sociedade, o que significaria a distribuição de 3 chocolates do seu pacote e o recolhimento de 1 a cada 4.

Pedi que colocassem como se sentiam como eleitores. Enganados, bobos, sem saída, como se estivessem jogando na loteria até acertar o candidato. Comentei que é assim que nos comportamos quando não nos informamos o suficiente sobre os candidatos e não acompanhamos seus trabalhos e participamos deles de alguma forma. Começaram a ficar indignados com a má qualidade do ensino que recebiam, pois se soubessem disso, teriam votado melhor, teriam participado mais. Como resolver? “Pagar um professor particular”, sugeriu um deles. “Mas não tenho dinheiro”, respondeu outro. 

Como não achavam saída, sugeri: estudando por si, fazer a lição de casa da escola e leituras de complemento ao que está sendo dado na sala de aula ajudam muito, também participar das aulas fazendo perguntas quando há dúvidas, pedindo para o professor explicar quando não se entende, utilizar a biblioteca da escola ou uma biblioteca pública que possui não só livros como acesso a internet grátis. Pela internet, poderíamos acompanhar os candidatos eleitos pelos sites relacionados no final do texto: Votenaweb, Eu lembro, Repolitica, Eleitor 2010, Promessas de Políticos, Às claras, TransparênciaExcelências, Educar para Crescer/Eleições, Câmara e Senado. “Por isso que eu gosto de me informar”, disse a menina com remorsos por não ter votado nestas eleições, mas animada em saber que não ter sido eleitora, não diminui a importância da sua participação como cidadã, “Vivem dizendo que sou uma pirralha e não sei de nada. Sei sim. Todo mundo pode saber, é só se informar.”

Embora tivéssemos esgotado o tempo, eles não se importaram em tomar uma parte da próxima aula e tive que finalizar, pois do contrário ficaríamos a noite toda, o que me deixou satisfeita e esperançosa. A “jovem democracia brasileira”, como diz Arnaldo Jabor, tem uma longa e proveitosa vida pela frente, vale a pena o empenho de fazer diferente. Naquela sala, um mais um somaram oito, imagine quanto poderão somar fora dali. Cheguei em casa, fiz o relatório para a Fundação, mandei o texto e a dinâmica aplicada para que pudessem ser multiplicados. 

Fica aqui um agradecimento especial a todos os “uns” citados aqui, que criaram meios para possibilitar e fomentar o voto consciente e a participação na política como atos de bom proveito e de valor.

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