fatalmente sobreviverá

Saí sob forte chuva pra uma reunião no final da tarde de sexta-feira, a fim de tratar um projeto entregue com muita paixão, ação educativa. Relutando não com o mau tempo ou o trânsito, mas com a dificuldade de aceitar a reação tosca de algumas pessoas chaves do escritório, resignei-me e fui, encontrando-me somente com parte do grupo e um dos mentores do plano para a sequência do projeto. O mentor que entende de gente, proporcionou estímulos relaxantes para descontrair e fomos passando suavemente a proposta, até que alguns relaxaram de vez, despejando suas frutrações e medos: hora de estabelecer uma espécie de contrato que não admitisse uma reação indigna a esta etapa, o que foi aceito nesta instância pra ser levado para as demais, já que o voluntariado não estava sendo valorizado de forma nenhuma.

Quando a reunião acabou e ficamos olhando algumas estatísticas de pesquisa com comentários do tipo hannn-humm, fui me entristecendo, desprendendo-me do momento e pairando no ar sobre o meu corpo, assistindo a cena e lembrando de outras situações complicadas pelas más vontades alheias às quais eu não tinha a menor influência, assim como lembrava da arrastada tarde, cheia de pessoas felizes com seus encontros entre amigos e amores em torno.  No passar da semana, estava sobre o efeito primavera: felicidade constante em estado gozoso nas profundezas do meu coração, onde nenhuma razão, quiçá de outrem, reina. Felicidade tão potente que ao tocar qualquer tristeza a fazia evaporar instantaneamente, cristalizando as mais pesadas e formando com elas, sapatinhos, daqueles que se deixa na escadaria de um fim de baile. Mas hoje, de “lutando contra a adversidade”, passei a lutar com a diversidade de emoções que me esvaziavam para se ocuparem em mim.

Fui embora com a minha felicidade gozosa exaurida e o coração pesadinho com a inveja que eu sentia das pessoas realizadas com seus parceiros de trabalho, seus amores, seus finais de semana, seus planos, sua carreira. As emoções começaram a entornar, empurrando as lágrimas pra fora, que por sorte de ser noite, não eram vistas por ninguém. Queria um final de semana diferente, daqueles pra animar as razões de modo a, com a tal felicidade primaveril, acelarar a construção da vontade para as mudanças e reforçar os fundamentos do que me move pra aguentar não só vento ou tempestade, mas também furacões e tsunamis. Mas aquela tristeza sem razão, tão incontrolável que me fez olhar o calendário e a agenda pra me situar biologicamente, precisava de uma mudança de planos pois vinha de males da alma mesmo, ansiando atenção, diagnóstico e curas que eu mal sabia se tinha condições de oferecer sem ajuda. Estava fragmentada e por isso cancelei a viagem. Para recolher certos pedaços e reconstituí-los rapidamente é melhor estar em local seguro e conhecido, vulgo: lar. 

Mas pensando numa distração antes da reconstrução e levando em conta que sendo sexta-feira à noite todos estavam ocupados em ir pra casa ou para algum lugar fora da cidade, fui num shopping próximo, esperar o trânsito sossegar, jantar, talvez ver um filme. Comprei um lanche e entre uma mordida e outra, as piores imagens que jamais vi foram escorrendo pelos cantos da boca, dos dedos, vindas da memória, impulsionadas pelas fissuras do coração cheio daquela emoção que torna tudo dramático. O que um pesquisador sobre o câncer diria para alguém que está morrendo agora? “Enquanto espero descobrir a cura antes que você morra, espere por um milagre?” E quanto aos soterrados do Haiti, remanescentes vivos debaixo dos escombros depois do terremoto? Como se sente alguém que sabe que morrerá se não for socorrido logo? Como se sente em não ser atendido ao gritar por socorro? Ou quando é respondido por quem está fora dos escombros, mas não consegue ajudar por não saber como, não ter as ferramentas adequadas ou… o amor necessário pra se importar e fazer algo? Por fim, lembrei dos mineiros chilenos: o mundo inteiro soube que eles estavam lá, mas eles não poderiam, mesmo assim, sair de lá em menos de 4 meses. Se morressem? Paciência. Mas não vamos ser negativos, toda a ajuda possível para sobreviverem está sendo providenciada, tenha fé. Espere o momento certo. Agüente firme.  

Sentindo o “impossível” se aproximar das emoções em conflito pra acabar de quebrar tudo, levantei-me, hora de ir para o meu lar. No entanto, lembrei-me de outro lar, o que estava passando no cinema, o Nosso Lar. Não foi a fé, mas o cinismo que me levou à bilheteria: já que parecia ser impossível ter esperança nesta vida, quem sabe tudo se realizasse na que ocorreria depois da morte, em outro mundo, outro lar? Hesitei por um instante em ver o filme, pois essa história de morrer e se reencontrar com os entes queridos sempre me mata de saudade-de-não-sei-quem e sinto uma dor de separação que parece que vai me desossar. Mas como muitos entendidos me disseram que a energia fluindo durante o filme era boa, a mensagem era linda, etc e tal, fui.

Entrando na sala de cinema, fui sentindo a tal energia, mas acho que como a minha não estava muito boa, senti uma enorme vontade de chorar. Valendo-me da escuridão e da minha habilidade de chorar em silêncio, sentei na minha cadeira, cercada de ocupantes em par ou em grupo, chorei, rezando para o filme começar logo. Meu rosto estava pegando fogo, o coração acelerado, meu peito parecia que ia explodir. O filme começou e a história não me consolou nem um pouco, só aumentou a minha, digamos, a minha saudade, se é que podia chamar de outro nome. Nas duas poltronas vazias ao meu lado, imaginei duas almas amigas dizendo: “Aguente firme.”, como a complementar uma das falas do filme: “Todas as respostas chegarão no momento certo”. E então, em casa, assim como se se deixa o estômago libertar a comida que não consegue digerir, deixei o meu coração liberar o pranto incompreensível até cansar e dormir.

O sábado chegou e trouxe o velho humor de sempre, sem mandar embora a gravidade, que como boa conselheira traz a sensatez para colegiar os assuntos de importância. A chuva passa e desanuvia as possibilidades novamente.

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