passeio pelos reinos com Carlos Heitor Cony

Às vezes a biblioteca da firma, a mais próxima do escritório em que trabalho, é cheia na hora do almoço e digo cheia quando aqueles dois sofás fofinhos estão ocupados. Mas dou um pulinho lá quando dá, podendo ou não ser abraçada por aquele sofá, pra ler uma novidade, sentir aquele cheiro de livros e revistas e ouvir aquele silêncio. Silêncio que me encantou desde criança: aos sete anos, quando fui à minha primeira aula de leitura, perguntei pra professora da biblioteca se era pra fazer silêncio porque os livros iam falar. Mais tarde aprendi que é isso mesmo.

Encontrei na estante das aquisições recentes, o livro de crônicas de Carlos Heitor Cony – Para Ler na Escola, e o peguei porque gosto de lê-lo no jornal e por causa da turma de EJA da escola com quem faço as rodas de leitura mediada: encontraria mais prosas de cotidiano interessantes. Bibliotecas em geral me levam pra outra dimensão, como as árvores ou o mar, mas naquele dia em especial, ainda me senti pisando em terra firme, cansada e lutando contra a minha impaciência por esperar o momento certo pra fazer as mudanças que preciso. Impaciência que se percebe absolutamente vã quando observada pela minha consciência, como uma mãe impassível observaria sua filha que birra por um desejo inconveniente para o seu crescimento. Nessas horas, porém, meu silêncio tem um ar grave e taciturno e provavelmente, a menos que alguém me desarme completamente, qualquer sorriso meu faz meu rosto parecer uma carranca e há quem pense que estou sentindo dor. Desapego e visão do que há de bom para o momento é o que mais preciso aprender, em termos de lição de vida ultimamente, pois são só matéria dada. Não há melhor meio de fazer a lição de casa do que suportar certas coisas sem queixas e continuar caminhando, de preferência sorrindo com verdadeira confiança.

Naquele dia, poucas pessoas estavam ali e o sofá, livrezinho da silva. Quando sentei, esperei que tudo mais dentro de mim se acomodasse também, para um descanso que fosse além do corpo abraçado pelo assento: olhei a janela, respirei fundo, cheirei o livro novo, acariciei a capa, folheei e o deitei no meu colo novamente, olhando a capa. Tirei uma blusa, arregassei as mangas da camisa, prendi o cabelo e desapareci naquele sofá, de tão quieta. Dentro de mim, vi a moça de 16 anos correr do colégio para a biblioteca pública próxima, há trinta minutos de distância a pé. Correr de prazer e se sentindo tão leve, com cada vez mais fôlego, que parecia ser totalmente possível levantar vôo, ainda que com uma única barrinha de doce de leite no estômago de combustível. Tudo pra me encontrar com algum autor, sentar em uma daquelas mesas de madeira gigantes e ouvir o que ele tinha a dizer, anotando as ideias que poderiam me fazer correr ainda mais em direção ao futuro que eu sonhava.

A tosse de alguém me fez voltar para o presente e enxergar a capa no meu colo. Cony sorrindo pra mim com brilho no olho de quem está se divertindo com uma conversa. “Vamos ver o que você quer dizer”, pensei, correspondendo-lhe com outro sorriso, abrindo as orelhas do livro. Na segunda orelha, se dizia: “Nascido no Rio de Janeiro, Carlos Heitor Cony passou a juventude em um seminário, abandonou a vida religiosa para ingressar numa faculdade de filosofia e, em seguida, aos 20 anos, começou a trabalhar como jornalista.” Fechei o livro rapidamente na tentativa de não desmaiar de inveja e muito menos deixar a lembrança entrar, mas tarde demais, estava lúcida: ciente da inveja e banhada pela luz da consciência que a identificou, invadindo um espaço escuro – não se detém – e, mesmo que dure um piscar, mostra tudo o que há ali.

Aos 17 anos, devia arranjar um emprego e a mãe de uma das minhas amigas do colégio, que gostava das coisas que eu escrevia, perguntou a um amigo, que era jornalista, se sabia de alguma oportunidade, coisa modesta pra uma jovem estudante do ensino médio. Ele sabia sim: numa editora de revistas jurídicas havia. Em frente à Praça da Sé nos encontraíamos numa manhã da semana seguinte. Não lembro de nada mais, exceto que o editor chefe que me entrevistou era a cara do Luis Fernando Veríssimo e sem sorrir jamais, ia me perguntando coisas que só iam tornando maior a minha inexperiência para os serviços gerais do escritório. Não se interessou sobre essa capacidade de “escrever direitinho”, como ele disse, coisa de que me lembro. A outra lembrança era de que tinha saído de lá animada com a novidade de conversar com um editor – logo eu que queria tanto estudar produção editorial na faculdade – e a possibilidade de que as duas coisas acontecessem, pois se ele me empregasse à tarde, de manhã, estudaria. Mas ao contar para o jornalista como a conversa se deu, muito cuidadoso com a água fria que estava carregando, respondeu que pelo visto não me contrataria, mas era bom esperar pra ver. Ele estava certo: não aconteceu nada.

Tentando voltar ao Cony, na primeira página do seu livro li: “… havia solidão e silêncio, ninguém enchia o saco dela (…)”. Corri os olhos no índice e me detive, n’A Bela e a Fera, o trecho vinha de lá. Ao ler os trechos iniciais onde ele revisitava o palácio da Fera e fazia um próprio, “Eu imaginava um palácio mais modesto, seria minha própria casa, apenas um acréscimo: em todas as paredes  haveriam umas torneirinhas que despejariam guaraná no meu copo.”, voei à velocidade da luz e de novo para “os acontecidos”, encontrei a jovem de 15 anos, que no dia do aniversário foi acordada cedo pelo primo de outra cidade – um irmão queridíssimo. Ele estava de visita na casa da vó e passou ali pra me deixar um presente: um manual de redação e estilo da folha e outro do estado de são paulo, explicando como utilizá-lo, com todo aquele humor cínico que minha imaginação adorava.  É uma lembrança memorável pois ele vinha pra dizer, sem dizer, o quanto apreciava o que eu escrevia, num momento em que ninguém da família bateria na nossa porta e muito menos, se daria ao amor de estar conosco, inteiro e cheio de graças como ele, por algumas horas, de um jeito que pareceu uma vida. Ainda bem que ele é feliz, pois fez por merecer.

Continuei: “(…) bastava abri-las (as torneirinhas) e o guaraná geladinho jorraria para matar a minha sede e me tontear de prazer.  A injúria do tempo, somada aos desgates dos anos, sepultou o delírio, mas fui fiel a ele, não tive outros pela vida afora.” e parei aqui porque senti um arrepio de frio e baixei as mangas da camisa. Fiquei inquieta, preocupei-me com o horário, meu brinco caiu e quase tive que virar o sofá do avesso pra procurá-lo, o que nem precisava pois o meu adorável brinco estava debaixo do meu amável sapato, esmigalhado.

Decidi levar o Cony pra ler e encontrar material para os alunos do EJA e enquanto esperava a simpática e sussurante atendente preencher os meus dados na ficha de empréstimos, a menininha dentro de mim ficou tentando se equilibrar na ponta dos pés pra alcançar o baleiro cheio de Juquinhas do balcão, esticando os bracinhos de mãos gordinhas.

Peguei uma e saindo de lá para a próxima reunião, fui serena e gentil comigo mesma e com os outros: ainda havia tempo para o quer que quiséssemos, aquelas meninas que me visitaram e eu.

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