se é verdadeiro, é simples

Admito que ainda tenho muito o que aprender sobre homens, mas uma coisa reconheço: em termos de relacionamento, eles são maravilhosamente simples. Quando ele quer você, não medirá esforços para achá-la e estar com você, que por sua vez, se (ainda) não estiver nem aí, vai se assustar com as vezes em que ele aparece subitamente, como um anjo da guarda a desviá-la de uma poça d’água que você não via nem de longe, a fim de não estragar seu vestido novo, nem os sapatos que você tanto ama, nem os molhar os delicados pezinhos – nem pensar em machucá-los numa fenda escondida sob a água! Ok, estou exagerando, nem eu suportaria tantos mimos: bastava segurar minha mão, confiando que eu saberia o que fazer. E se não soubesse, riria comigo.

Como dizer isso para uma amiga absolutamente fascinada com a história que ela estava criando pra si mesma com o seu dentista? Ali, num restaurante da cidade, jantando depois do expediente, ela derrama sua contação romântica sobre o mousse de limão. Tento ser objetiva fazendo perguntas diretas como: “Ele disse isso?” mas ela, respondendo “Não, mas quis dizer quando…” entra num transe que a cega diante da minha expressão: “Querida, cai na real…” Desisto porque assim não vai dar. Não vai me ouvir agora, nem quando ligar chorando, querendo conversar hoooras pra entender porque nada aconteceu. Talvez me ouça quando, um tempo depois, me convidar pra conhecer um novo restaurante vegetariano como um marco para sua nova empreitada contra os quatro quilinhos extras que a tornam, segundo ela, menos bonita. Aí sim, quando constatar, ainda que um tantinho hesitante, que se enganara, poderei perguntar, com toda a delicadeza: “Você ja viu o filme: “Ele simplesmente não está a fim de você.”?” Talvez ela ria e se liberte, se valorize e espere ou continue procurando sem ignorar os sinais do desinteresse.

Até daria pra colocar um humorzito na nossa conversa, envolver o garçom como cúmplice e já lançar a pergunta, mas não posso pois é tão delicado o seu sonhar e tão complicada a sua busca. Há coisas que nos acontecem – e que fazemos acontecer – que nos tornam vulneráveis: dependendo do que se viveu, qualquer migalha é bom e inteiro pão. Qualquer brisa é a abertura da primavera, qualquer sininho é presságio sinfônico de felicidade eterna. E iludir-se assim, traz um instante de felicidade que faz passar a dor de estar só ou ter sofrido um rompimento. Tive pena e preferi não dizer nada pra não revelar o embargo da minha voz; tudo o que eu poderia lhe dar era uma presença, uma companhia para suas histórias, que até serve para soprar algumas esperanças sobre ela, pois… quem sabe?

Tentei levá-la pra outras conversas, a fim de achar um caminho real que nos entretenha. Uma festa, um show, outro jantar, novos amigos, um curso, mas sua atenção está totalmente cativada e apenas ouço um sonoro, “boa!” para a ideia que, como diria Lulu Santos naquela canção, “não tem a menor intenção de acontecer”. Tento ter um pouco de fé, faço umas piadinhas de trânsito e nos despedimos. Chegando em casa, suspiro, pensando em quantas vezes me apaixonei por pistas falsas e pelas histórias que contei pra mim mesma. Sobrevivi a todas e fui me tornando alguém melhor para o real.

Com minha amiga há de acontecer o mesmo. Se não, estarei lá para lhe segurar as mãos, até rirmos por não saber o que fazer com esta vida.

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