encontro com Fernando e pessoas

Quando pensei em Fernando Pessoa para a roda de EJA desta última quinta, tinha acabado de sair de outra reunião de trabalho na firma no começo da semana. Lutava contra o pessimismo e apesar de reverter determinada situação para o momento, o desgate foi enorme. Consegui uma dor de cabeça que me maltratou o resto da semana e a constatação de que não sou tão paciente quanto pareço, pois ser verdadeiramente paciente é suportar sem sofrer. Pra certas coisas, sofro em suportar e em controlar a mim mesma pra não sair derrubando tudo porque já se é bem grandinha e sabe conversar pra chegar num acordo.

Cheguei à poesia de seu heterônimo Alberto Caieiro, escrita no Guardador de Rebanhos e diz assim:

Meu olhar é nítido como o girassol/Tenho o costume de andar pelas estradas/olhando para a direita e para a esquerda,/E de vez em quando olhando pra trás.//E o que vejo a cada momento/É aquilo que nunca antes eu tinha visto,/e eu sei dar por isso muito bem…/Sei ter o pasmo essencial/Que tem uma criança ao nascer/Se reparasse que nasceu de verdade…/Sinto-me nascido a cada momento/Para a eterna novidade do mundo//Creio no mundo como um malmequer,/Porque o vejo. Mas não penso nele/Porque pensar é não compreender…/O mundo não se faz para pensarmos nele/(pensar, é estar doente dos olhos)/ Mas olhamos para ele e estamos de acordo…

Levar Fernando Pessoa pra mediar, significaria um convite ao encontro com a natureza que,  ensinaria a melhorar o olhar, o maravilhar-se, o movimento, e também a calar a mente, especialmente aquela parte que parece nos jogar contra nós mesmos o tempo todo. Alberto Caieiro era o poeta da natureza  já previa espaço para uma reflexão meditativa, sem pensamento, algo que precisamos praticar mais. Também significava ganhar com as suas releituras, surgindo de suas co-autorias, a formar diversos significados e quem sabe, revelar ou fortalecer propósitos.

Com a ajuda dos treze alunos, dispus as cadeiras em círculos. Levei também uma caixa de presentes com um espelho no fundo para depois da mediação, quando os alunos estivessem pensando em si como alguém com possibilidades, que portanto, tem condições de estabalecer um acordo com o mundo e não se tornar refém dele. Muitos não conheciam o girassol, especialmente sua história de permanecer sempre voltada para o sol, o que os fez demorar um pouco pra que o movimento do flor e do olhar do autor fizessem sentido. Mas depois, até associações do olhar pra trás como olhar para o passado, surgiram: podemos ficar presos no passado ou aprender com ele.

A partir daí as opiniões foram fluindo deles, a ponto de não ser difícil conciliar as conversas parelelas, – que alvoroço bom! – especialmente entre as mulheres: eleições, candidatos que prometem, fazem obras de época – os causos daqueles que visitaram suas casas -, a obrigatoriedade do voto, percebendo-os como direito e entender o voto como a seleção dos candidatos que vão trabalhar pra nós, o que pressupõe os analisarmos com cuidado. Também opiniões sobre poder encontrar o novo naquilo que fazemos todos os dias e nas pessoas com que nos encontramos quase sempre ou na imagem refletida no espelho. O rapaz que queria ser engenheiro agrônomo achou “forte” o poeta dizer que acredita no mundo como um malmequer, não soube explicar ao certo o que sentia, mas pareceu-nos que o jogo de palavras era perfeito para descrever o “mundo cão”.  A hora de falar do acordo com o mundo, surgiu uma animada conversa sobre pessoas diferentes com suas visões, opiniões e histórias a entrarem em acordo, como? que confusão! “Pelo respeito”, diz o mais velho, e o mais religioso se cala, pois respeitar, na opinião geral é discordar e tudo bem, deixar o outro pensar diferente pois é bom pra ele; o importante é enxergar o valor de cada um. Lindo.

Na hora de usar a caixa de presentes, perguntei se estávamos no horário. Já tínhamos passado, mas poderiam ficar mais um pouco e ver logo o que tinha ali dentro. Expliquei que no fundo da caixa havia a imagem de alguém muito importante e podia até ser que alguém achasse o contrário. Olhariam quem era, e então, se tivessem plenos poderes, declarariam o que faria pela pessoa; ninguém poderia contar para o outro quem era ou dar dicas. Havendo um espelho no fundo da caixa, a diversão foi maior do que eu imaginei: muita surpresa em ver a própria imagem, se imaginar com poderes para fazer o que aquela pessoa precisasse, sem falar na curiosidade inquieta e risonha de quem ainda não tinha aberto a caixa. Entre as ordens gerais de vida melhor e coisas boas, três falaram em dar de presente uma biografia em livro e em teatro – que pra mim foi um gancho para as noções de autonomia, protagonismo a mediarmos no próximo encontro. Uma delas, que chorou de rir, disse que ficou sem palavras e realmente não disse nada, só riu.

Já invadindo a aula seguinte, saíram animados, o que me deixou satisfeita: se envolveram com o texto e se divertiram. Não seria tão complicado instigar o senso de autonomia e de comprometimento com seu desenvolvimento, afinal, muitos tinham tomado a decisão de estudar pois tinham vontade de crescer, de ter uma vida melhor. Falantes e tão cheios de assunto, não me deram mais atenção que eu precisava pra avisar daexposição sobre Fernando Pessoa no Museu da Língua Portuguesa, que está linda e cheia de recursos tecnológicos de interatividade, fica pra próxima.

Eu mesma, completamente relaxada, queria também prosear os meus assuntos e havia muito o que fazer pela pessoa que eu via no fundo da caixa. Sem falar que, naquela noite, eles foram um presente pra mim e o Fernando foi um presente pra nós.

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