sob a direção, sobre a cerca

Em sábado próximo a feriado, não se pode esperar muito dos alunos. Na fundação tínhamos nos desencontrado e acabamos sem material para uma roda sobre esportes de luta. Com a atenção totalmente rendida ao escritório, também esqueci de verificar e tive que arranjar um tema de última hora, aproveitando o gancho que eles deram sobre o conflito entre lidar com a diversão e o objetivo: versos sobre o tempo pra todas as coisas de eclesiastes e elaboração de painéis sobre como é sua vida hoje, como seria daqui a 5 anos. Texto não muito convidativo pra eles, mas esperava fazer um momento mais descontraído com as músicas de Jay-Z.

Quando cheguei, uma menina e um menino de 13 anos com seu irmão menor estavam nos esperando. Depois de enfrentar as duras de críticas de dois alunos da 8a. série por perderem seu espaço para as “crianças” das outras séries, não tive como incluí-los e lhes disse a real: se tivessem mantido frequência na participação, não precisavam voltar somente no próximo sábado, quando haveria sua roda, caso se comprometessem em voltar. Entenderam, mas pediram pra ficar, pelo menos até a hora de começar a roda de hoje.

Muito falantes, especialmente a menina, contavam os dramas de incompreensão na escola: professores e coordenadores que não conseguem mediar um conflito e mandam todos para a diretoria, ou a partir do momento que tiram notas vermelhas se tornam pessoas incapazes de fazer alguma coisa certa, sentem-se estigmatizados: ela achou um celular perdido e foi entregar, foi questionada como a responsável pelo sumiço. Muito articulada, mostrava que percebia o que era justo ou injusto, reinvidicava mais espaço para que sua opinião fosse, ao menos considerada. Perguntei quando ela tentava se manifestar ou quando eles tomavam a decisão. Sendo sempre na hora do estress, disse que achava uma boa idéia se os procurasse em outra hora pra dizer o que sentia e pensava sobre tal situação e que gostaria de entender o seu ponto de vista, aprender – poderia ser um bom começo. Eles ficaram pensando por alguns minutos, estavam dispostos a fazer alguma coisa e depois, desandaram a contar outros causos de família  – a eterna briga em casa para que desliguem o computador às 2h da manhã – e se interessaram pela minha: “Você tem filhos? Tem filhas? Gostaria de ser sua filha.”

Lá pelas 9h30 chegou o menino dj, bastante assíduo na roda e um dos críticos contra a presença dos mais novos. Sentou-se numa das carteiras e tolerou a nossa animada conversa; tentei incluí-lo, mas ele só se dirigia a mim, então deixei pra lá. Duro foi constatar que chegada a hora, não vinha mais ninguém e estavam eles ali: os três mais novos animados em fazer alguma coisa e o menino dj, entediado e praticamente incomunicável, mas perseverante. Ao invés de mediar, fiz leitura compartilhada e então fomos para a atividade: o menino dj faria o exercício e os mais novos um desenho ou uma redação de como gostariam que seu Natal fosse. Deixei a música no ar e montei umas pastas com papéis coloridos para que a utilizassem para sonhar com um futuro.

Ao final, disse para o menino dj que este sábado foi diferente provavelmente pelo feriado, e por isso era bem possível o próximo haveria mais colegas, especialmente porque o pessoal da fundação visitaria as turmas novamente e ele mesmo poderia convidar seus colegas mais chegados.

Em casa, lembrei-me da fundação alertando que estes movimentos de ausência são normais. Tá. Fazemos o quê? Deixamos acabar?, pensei. Anotei na agenda que lhes escreveria pedindo ajuda para montar a aula de esportes de luta e visitar as turmas dizendo o que vai haver. Quem sabe, pelo assunto, mobilize mais interesse? Precisava voltar a pesquisar mais, mas naquele instante, tudo o que eu queria era me recolher um pouco e meditar, lendo um livro sobre a jornada de uma mulher que estava começando uma nova vida quando a maioria dá sequência: Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert.

Pensar onde estaria daqui a 5 anos? Pra começar, continuar olhando pra luz, ainda que tenha de dar uma esticadinha no pescoço por sobre as cercas.

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