esforço de subida

Na última quinta, separei Passagem da Noite, de Carlos Drummond de Andrade para levar aos alunos de EJA, pensando em fazê-los refletir sobre o permanente anoitecer e amanhecer e assim, trazer algumas experiências que me dessem mais informações sobre como estimulá-los. O caminho até a escola não tem rota de fuga do trânsito, pelo menos até onde vi – fiquei com receio de chegar atrasada, já que a escola abria espaço durante as aulas para a roda – tínhamos 45 minutos. Mas me enchi de paciência não só com o trânsito; também com a quantidade de pessoas que passam na rua de escola beeeem devagar, sem falar nas que esgueiram pelos cantos escuros observando os forasteiros.

Quando cheguei, ainda tínhamos uns minutos e esperei pela outra voluntária na sala da coordenação. A voluntária que recebeu os alunos semanas antes, chegou, já contando-me que gostavam de poesia. Tentei evitar o pensamento, mas caiu: pode-se acabar a leitura na primeira rima, só a rima interessa e pronto, acabou a angústia de ler.  Mesmo assim, levei os panos coloridos para as carteiras de contingência, caso o clima de desinteresse fosse maior e difícil de superar em 15 minutos – podíamos fazer poesia com as carteiras da sala de aula.

Indo para a sala de aula encontrá-los e já combinado que faríamos um sorteio para dividir a sala, pensei que apesar do tom agradável entre a voluntária e eu, percebi que tivemos uma espécie de antipatia à primeira vista, nada grave: uma ausência de sintonia, uma leve intolerância que vem não sei de onde, infelizmente acontece. Sorridente e delicada, contava-me animada, entre os torpedos que respondia no celular com concentração, sobre alguns projetos de reciclagem, até bastante interessantes para trabalhar na roda, aproveitando que a escola iniciaria uma campanha sobre práticas de sustentabilidade. A primeira pergunta que me ocorreu foi saber se os alunos tinham trazido este assunto e por isso, gostariam de trabalhá-lo. “Não, mas gostam de poesia.”, disse se voltando para o celular, mas continuando a falar nos projetos que tinha encontrado. Assim como não se interessou em saber o que eu tinha trazido pra roda, não me interessei em ler a poesia escrita numa placa de papelão que mostrava com tanto entusiasmo, o que me fez sentir-me meio ranzinza e implicante. Sabia também que geralmente somos mais receptivos do que ativos sobre assuntos que nos propõem e estes alunos, são até mais receptivos em termos de leitura: já nada ainda interessa, o que “professora” trouxer, está razoável. Quis esclarecer logo o que me incomodava perguntando coisas como “Quantas vezes tinham se encontrado”, ” O que achava de adotar um tema proposto pela escola e não pelos alunos”, etc. Percebi que não era pra tanto, afinal, quantas vezes decidi um tema para as rodas de leitura quando os alunos nada traziam?

Ansiosa para formar minha roda, depois da divisão saí com os alunos para outra sala, dispus as carteiras em círculos. Os panos coloridos que os encantaram – que bom, tive medo de horrorizar e espantar. O grupo tinha 12 pessoas, alguns mais novos, entre 18 e 22 anos conversavam entre si e trocavam torpedos; outros, como os mais velhos entre 30 e 50 anos ficaram quietos observando até começarmos com as apresentações. Casados, solteiros, mães solteiras, alguns trabalhando, outros desempregados, uns com um objetivo de de vida, outros, passando o tempo e tudo bem.

Na primeira parte da leitura, Drummond anuncia que é noite, mas porque dentro de si é noite. Assim, alguns trouxeram histórias suas, de quando se sentiam assim: ao não entenderem um diagnóstico médico, correr pra Deus e achar a cura; ao serem presos; ao se descobrirem sozinhas para criar os filhos; outro, ao descobrir que “mexer com ouro” era uma carreira que não podia mais seguir pra realizar seus sonhos. Um deles, jovem de uns 25 anos, disse que havia passado um tempo preso por conta de envolvimento com  o crime organizado – agora, depois de cumprir pena e ter encontrado Jesus, trabalhava com o meio ambiente e estudava para ser engenheiro agrônomo. Sua postura ereta, seus gestos gentis e bom humor eram de quem realmente fez o esforço e agora começava a acessar com liberdade todas as possibilidades que vida oferece 

Como os demais não interagiram tanto com o texto, acredito que tenha sido pelo primeiro contato já que estavam concentrados ali, prestando atenção em tudo,  fui lendo, parando pra comentar e perguntar como era pra eles, caminhando pra segunda parte, mais vibrante – o dia em seu promissor amanhecer. Na primeira pausa depois do nascer do dia, o “Professora, já são 8 e meia, é melhor deixarmos pra próxima.”, dito por uma das jovens mães. Fiquei um pouco desconcertada, mas era mesmo hora de terminar. Achei que fossem sair correndo, mas me ajudaram a recolher os panos, os lápis e papéis coloridos para o que seria a próxima atividade. Tínhamos usado parte do tempo para dividir as turmas, mas era necessário encontrar uma atividade que coubesse nesse tempo, considerando um aumento constante no espaço deles de falarem, já que os mais velhos, especialmente os dois homens desta faixa dos 40-50, não tinham a menor dificuldade com isso.

Fui até o estacionamento conversando com a outra voluntária, que estava animada com suas possibilidades de adotar os programas que tinha sugerido. Considerando que três dos alunos da roda disseram que gostavam de escrever, talvez fosse mesmo uma boa idéia adotar o tema dos programas de reciclagem de materiais, incentivá-los a escrever poesias em placas de papelão para expô-las nas escola. Naquele momento eu precisava de mais informações e ver o quanto este programa dialogava com a escola, sem perder de vista o que os interessava mesmo e não respondi com a mesma empolgação. É tentador ver a atitude osmótica nos alunos e dar alguma atividade charmosa pra se entreterem e terem um pouco de orgulho de si mesmos. Mas é verdadeiramente desafiador provocar o movimento das pessoas de maneira que trouxessem o real de si, tivessem clareza de pelo menos um motivo pra viver e com ele ir reformando ou construindo o seu mundo, sair da inércia, dominar o medo – e partir disso, trazer os temas. Provocar movimento orientado nas pessoas custa tanto quanto subir uma escadaria – tão longa quanto for o objetivo: precisa de fôlego, coração em bom estado e não esquecer um só minuto pra onde leva e qual o valor de chegar lá, evitando descer. Sem falar no amor e na constante disponibilidade para se comunicar sem ser confundido com um messias a salvar de todas as ameaças.

Chego em casa leve, mas sem idéias. No entanto olhei pra cima, da minha própria escadaria e suspirei. Eu precisava manter com eles uma atitude encorajadora, afinal, estar na escola era improvável e fizeram o esforço, podia ajudá-los a ver mais possibilidades, ainda que isso não siginificasse muito. Quanto a mim, sob diversos aspectos, o mesmo.

Anúncios
Esse post foi publicado em voluntariado. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s