sim, é possível

Durante a semana, passei na escola de manhã com o coordenador da fundação e novo estagiário para verificar com os alunos da 8a. série se eles continuavam dispostos a vir nos encontros da roda de leitura aos sábados, especialmente porque tinham se dispersado nos últimos encontros do semestre passado. Queríamos também saber se queriam falar do motivo da dispersão para que pudéssemos melhorar, caso quisessem nos dar uma nova chance de interessá-los. Passamos pelas salas, chamamos para um bate-papo: houve quem participou que não saiu das salas e houve quem não participou e aproveitou a deixa pra gazetear. Poucos deram o recado, mas enfim combinamos mudar o horário e garantir que os alunos de outras séries seriam atendidos por outros voluntários. Saímos satisfeitos: imperdível o contato presencial. Os  abraços, as mãos que se tocam, o sorriso ou a bronca ao vivo, o ganho de consciência da realidade vivido com a inclusão dos corpos na interatividade.

Sábado de manhã nos encontramos na Fundação antes de ir para a escola, a fim de que o novo estagiário estivesse lá caso algum aluno de outras séries viesse. Fazendo um caminho novo, conversamos, o estagiário e eu, sobre a experiência que vivíamos e sua escolha pelo 3º setor, atendendo sua vontade em encontrar meios educativos que ajudassem as comunidades mais carentes a se responsabilizarem por si mesmas e saírem do assistencialismo. Economista de formação e vindo de uma família grande do interior – e nela se incluem não só os parentes, como os milhares de amigos de infância – tinha uma compaixão pelos solitários e desassistidos, que ainda germinava. Consciente de que esta inclinação tinha muito o que crescer,  não se preocupou em esconder as incertezas ou nomear sentimentos e motivações: escolheu as crianças para suas rodas de leituras pois eram mais autênticas, eram o que eram e por isso, lidar com elas era fácil. Não saberia lidar com a pretensão dos adolescentes; na primeira tensão, disse rindo, só saberia dizer uma coisa: “Vaza daqui!” E algumas vezes dá vontade mesmo. “Me falta sabedoria, sou muito novo.”, completou mais sério.

Preparamos a sala de aula: doze carteiras em círculo, os panos coloridos sobre elas com porta lápis, papel e canetas coloridas, tapete colorido ao centro com livros recomendados expostos, gravuras de paisagens brasileiras, dois textos de Manuel Bandeira e música no ar, Jason Marz e Bebel Gilberto.

Chegou o menino gentil – gentil porque sempre chegou cedo nos encontros, antes até do que nós, e nos ajudava a preparar a sala para receber os outros, quase nunca faltou aos encontros. Acompanhado dele, um novo menino, visitante pela segunda vez, de gorro cinza a emoldurar seus sorridentes olhos verdes que nos dissera que não vinha por falta de companhia; outro menino, ficou sentado a uma certa distância, olhando-nos. O estagiário foi lá se apresentar e perguntou se os outros o conheciam; dali a pouco enquanto terminávamos a preparar os textos, começaram a jogar “bola” com uma tampinha de garrafa pet, uns toquinhos daqui, outros de lá. Como tinha acabado de estimular a interação, pediu-me para lhes dar mais tempo juntos antes de os chamarmos. “Como não sabia lidar com adolescentes?”, pensei. Deixei que me avisasse quando chegaria o tempo bom de chamá-los e fui lá. “Cadê o gol?”, perguntei. “Não tem, só estamos nos divertindo.”, respondeu o menino gentil, continuando a tocar a pequenina bola com os meninos, mas os puxando em direção à sala.

Estávamos em 5, pedi que escolhessem a carteira onde sentir pela paisagem que mais se identificaram. O menino gentil escolheu uma visita diurna dos cânions do Parque Nacional da Chapada Diamantina, o menino do gorro, uma vista ao pôr-do-sol do litoral da estação ecológica da Juréia e o outro menino, uma vista diurna dos cânions do Parque Nacional de Aparados da Serra. Mediamos um pequeno poema do Manuel Bandeira, Poema de Beco:

“Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? O que vejo é o beco.”

Procuramos identificar na paisagem o que seria uma situação de beco. O que era o beco? Surgiu o beco sem saída, brincaram com as alternativas: voltar ou pular; falamos sobre outras possibilidades, como os becos com saída, sentimentos de que estamos encurrulados mas não vemos a saída, o que fazer? O que fazer para entrar quando se trata de lugar para onde queremos ir, alguém que sonhamos em ser e achamos ou nos convencem que não é pra nós? Pedi que desenhassem ou escrevessem como entrariam ou saíram do lugar que estavam vendo na paisagem escolhida; fizeram o trabalho em silêncio, imersos na música, na imaginação. O menino gentil desenhou um cão bravo cercado por um muro baixo de pedras, uma árvore e um pato do lado de fora e explicou como sair do perigo: poderia pular o muro, subir a árvore ou colocar o pato na boca do cão para distraí-lo. Não somente uma saída, mas várias eram possíveis. O menino do gorro desenhou uma lancha, batizou-a com as iniciais do seu nome – poderia visitar a Jureia quantas vezes quisesse pois entraria e sairia rápido. O outro menino, desenhou os cânions e a si mesmo numa asa delta, flanando. Uma vez em roda, fazíamos as atividades com eles a fim de também compartilhar experiências: desenhamos barcos a vela para entrar e sair das paisagens que havíamos escolhido.

Estudar, passar de ano e arranjar um bom emprego eram ideias vivenciadas como beco sem saída. Diversão, fazer novas amizades, conhecer novos lugares era a paisagem. Conversamos que poderiamos fazer as duas coisas com prazer, assim como trabalho duro faz parte. Era possível olhar em torno e descobrir caminhos, sem nos paralisarmos, abandonando a andança. A resiliência era baixa, assim como a motivação, como ajudar ?

Demos a dica com outro poema de Manuel Bandeira:

“Ser como rio que deflui / Silencioso dentro da noite / Não temer as trevas da noite / Se há estrelas no céu, refletí-las. / E se os seus se pejam de de nuvens, / Como o rio as nuvens são água, / refletí-los também sem mágoa / nas profundidades tranquilas.”

Ver as possibilidades, encontrar razões e motivações poderia se dar através do auto-conhecimento. Da atenção à paisagem, o autor viu suas características no rio e poderia aprender mais com ele, desenvolver algumas de suas virtudes. Que características tinham eles ? Que parte da paisagem viam que poderia melhor descrevê-los? Deixamos como reflexão, encerrando. Levaram um susto “Já?” e, recuperados, deram-nos uma pista do que queriam ver na próxima roda: desenho com lápis crayon, do menino do gorro e um ler um livro sobre boxe, do menino calado.

Como não saíram do lugar, continuamos conversando e recolhendo as coisas com calma, eles foram ajudando e assim que organizamos tudo, ficaram entretidos com o baú de livros, olhando os títulos, paginando e exceto o menino gentil, escolheram livros para levar. Repararam no desenho da minha camiseta, apontando: “Olha, a árvore achou uma saída.” O desenho era de uma árvore completamente cortada com o machado enterrado no toco. Mas outro pequeno tronco crescia ao lado, ramificando folhas e galhos sobre a mensagem: “Oui, c’est possibile”. Sim,  é possível.  Acompanharam-nos até o portão, pararam conosco no jardim onde procurávamos as margaridas; o menino do gorro nos mostrou a pequena árvore ao centro: “É um pau-brasil. Daqui uns vinte, vinte e cinco anos, suas raízes vão arrebentar o chão e vai crescer muito!”, ensinou. Fiquei olhando pra ele, maravilhada, imaginando que sua estatura fosse como a do pau-brasil e naquele momento, crescia em silêncio por baixo do gorro.

Terminamos o encontro de volta na fundação, com o almoço da dona Josefa. De volta em casa, vi o longo caminho a percorrer: será que voltariam nos próximos encontros? o que poderíamos fazer com a sua motivação? O que precisávamos fazer para aguçar a sua curiosidade por boa informação e formação? Lembrei da bibilioteca fechada e da desorientação de alguns professores no meio da agitação dos alunos e talvez outras coisas devessem ser feitas por lá, com outros programas. Sim, ainda era possível.

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