o anjo do lado

Acho encantadoras as cores do comecinho da noite: o sol se põe e deixa um rastro de nuvens cor-de-rosa, vai tingindo o pedaço de céu do horizonte, onde se deita, de laranja. O breu vai caindo devagar, apagando a luz do dia e deixando uma penumbra sobre a cidade, as gentes, as árvores. Coisa mais linda.

Mas à medida em que a noite foi chegando, o encanto foi sumindo e os pensamentos do dia voltando, lutando entre si, provocando emoções que pensei estivessem esgotadas. Comecei a lutar também, tentando meditar, voltando a atenção para o que via através da janela, os sons. Alguém que passou por mim, tocou meu braço e esperou que eu me voltasse: era um colega do escritório com quem mantive contato após um projeto comum e encontrava eventualmente entre os escritórios. Não sei se foi a surpresa, ou a pausa entre o meu “Oi!” e o seu “Tudo bem?” de olhos fixos no meu e atentos, a investigar se estaria tudo bem mesmo apesar de qualquer resposta afirmativa da minha parte, que varreu da minha mente todos os pensamentos, como se a deixasse em branco. Só um mar de praias afastadas consegue me calar assim. Mantive-me nesse instante até vir à lembrança um desenho que vi na adolescência, ilustração de um livro esotérico – é eu lia muitas coisas assim.

Era uma figura desenhada em nanquim preto de dois anjos à beira de um penhasco. Um usava roupas em trapos, cabelos revoltos, expressão grave e carregada, escurecida pela tinta como a querer expressar sentimentos de raiva, rancor, ira, desequilíbrio; ele estava tentando avançar sobre um outro anjo, à sua frente, que o detinha com uma vara segura pelas duas mãos. Este outro anjo, de mesma estatura, feitio, trajes e asas, ao contrário, estava sereno, porém firmemente impedia o outro de avançar e empurrá-lo pra baixo. Então entendi que tinha desviado a minha atenção novamente e estava querendo lutar da maneira que sempre me faz perder: olho por olho simplesmente porque isso não é meu – nesse sentido sou mais do feitio cristão, dou a outra face. Mas percebi que ultimamente estou encontrando uma estranha facilidade em arquitetar planos assim.

De volta pra casa, passei no mercado para comprar açafrão a fim de preparar um arroz. Na fila do caixa, uma moça agitada, que falava ruidosamente ao telefone, estava tentando evitar que o saco de laranjas, a bolsa e saco de pães caísse. Quando caiu o de laranjas e elas se espalharam, a moça ficou perdida, olhando pro chão como quem tivesse deixado cair em pedaços outras coisas além das laranjas, – coisas de si – e não estava conseguindo encontrar. Em segundos empalideceu e eu, peguei o saco da sua mão devagar e sem dizer nada fui resgatando as laranjas; parecia que a moça tinha se partido e as emoções começaram a querer fluir, irromper por entre as rachaduras. Como ela tentou se conter, começou a soluçar forte, dizendo um “obrigada” num fio de voz, mas sem me olhar diretamente. Pagou e saiu depressa.

Não sei o que mais me doeu: vê-la procurando uma coisa perdida entre as laranjas ou dominar-se, pra não revelar a tristeza que sentiu de repente, sua vulnerabilidade, suas desesperanças. Fiquei emocionada e chorei em casa, não gosto de ver gente sofrendo. Fiz o meu arroz e me acalmei na frente da TV, já esquecida da cena, mas lembrando da moça, torcendo pra que ela encontrasse um anjo que lhe passasse a mão no braço e perguntasse: “Tudo bem?”, ou, como conta a história, que encontrasse um Cristo a lhe pedir, como teria pedido a uma viúva que acabara de perder o filho – o impossível pra se pedir numa hora dessas: “Não chore.”, fazendo, depois, um milagre. Ou, talvez melhor, ser tão gentil consigo mesma, que vai se acalmando aos poucos até reparar os danos de um dia ruim.

Muitas vezes, uma situação pede uma conduta espiritual. Não digo religiosa, pois embora a palavra religião signifique “re-união”, o que se entende mais comumente, remete a um conjunto de regras que, quando mal entendidas e aplicadas, fundam fariseísmos:  cegueira, hipocrisia e julgamento, miudezas doutrinárias. Uma conduta de atenção, de conexão com Deus e com o seu ser, onde está a fonte de todo o saber e nos faz andar com firmeza e atenção, sem guerra, sem raiva, rancor ou ira, que move amor – não a emoção, mas a atitude amorosa de fazer algum bem compartilhável, com compaixão – e nos diz o que fazer ou simplesmente nos abre os olhos para o que está feito de bom.

Levantei-me e rabisquei uma agenda para amanhã no escritório e um plano de aula para a escola à noite com os alunos. Com calma e com amor, sem perder a firmeza jamais.

Anúncios
Esse post foi publicado em cotidiano. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s