pedra lúcida

Arranjei com a fundação o início das atividades na próxima semana para não perder duas das palestras do Conarh 2010 – Congresso Nacional sobre Gestão de Pessoas ocorrido nesta semana, pois haveria debates interessantes sobre um possível esgotamento de talentos nas empresas, chamado em uma das palestras de apagão e explicado na outra como um dos efeitos da falta de competividade no país. Que visão me ajudariam a formar pra lidar com os anseios e contradições do cotidiano de modo que eu pudesse continuar me desenvolvendo e colaborar com as pessoas com quem me encontro?

Naquela que discutia diretamente o tema, havia representantes de setores diferentes. “Não”, responde a representante do setor financeiro, Lilian Guimarães e explica que há uma espécie de desencontro de interesses: há muita gente disponível – que devem ser encontradas e muitas preparadas -, assim como as vagas, mas as empresas preferem tomar profissionais uns dos outros causando outro transtorno além de ignorar a situação e não colaborar para mudá-la, que é inflacionar o mercado oferecendo sempre mais dinheiro, sem falar em responsabilidade, mesmo que o escolhido não esteja pronto. Para os outros, Livia Santana – construção pesada – e Carlos Lubus – produtos agrícolas, ocorre e reclamaram muito da falta de plano de governo na educação para suprir o mercado. Desperdício de esforços, falta de cursos profissionalizantes que não só formem técnicos e os mantenham atraídos pela carreira, como preparem os recém-formados. Os representantes das empresas continuam fazendo esforços entre si para sobreviver às deficientes – quase ausentes políticas públicas, esperando articular com força suficiente a cobrança pra cima do próximo governo.  Aliás, dois dos presidenciáveis – Marina Silva e José Serra estiveram lá pra falar, dentre outras coisas, destes temas, mas infelizmente não pude ir e o blog do evento não relatou as opiniões (?).

A outra palestra trouxe o ousado economista Gustavo Ioschpe e o físico Paulo Barone que abordaram em separado sobre sua visão da competitividade brasileira. O primeiro lamentou o fato do país ser exportador de commodities e entende que isso não ocorre somente por falta de desenvolvimento educacional, ocorre por sina: países ricos na produção de matéria-prima por condições geológicas, territoriais e/ou climáticas favoráveis, têm dificuldade de diversificar por causa da demanda – não sobra interesse, nem esforços para diversificar e oferecer mais valor agregado. Entrou na questão da Educação baseado nas pesquisas feitas e divulgadas em 2006, – um dos dados diz que 75% da população não entende um texto simples – utilizando os dados de 2005 da Unesco como fonte e reclamando da sua lentidão para atualizá-los.  O segundo, na tentativa, talvez de não deixar um clima de final dos tempos, já que o primeiro disse que o sonho de sermos um país desenvolvido é tão imenso e complexo e dados os tímidos passos e despreparo das gerações atuais fica claro que só a próxima geração conseguiria fazer algo – louvou os pontos do fortes do país, especialmente na exportação de commodities, num tom entusiástico que disfarçava um “melhor que nada” e concordou com as questões de deficiência da educação.

Àquela altura, fiquei bastante admirada pelo Gustavo Ioschpe. Quando entrou aquele menino no palco, mesmo sendo eu, provavelmente, da mesma faixa etária, desdenhei: “Muito assunto pra pouco tamanho.” Mas , claro que a princípio e mais tarde ficou mais evidente ainda, que pequena era eu: sua formação acadêmica, suas realizações, seu tom de quem não parece ser mero ativista ou demagogo pois trataría-se de alguém que procura ser pragmático buscando permanente consciência dos problemas que afetam a realidade, investigando as fontes de informação que mais fazem juz a eles. Sua simplicidade no falar, rigor na análise e escolha das fontes e de crítica sem amargura, pareceram-me a têmpera que faltava para o quadro que se pinta na educação do Brasil. 

Quando cheguei em casa fui urgente registrar as informações que tinha colhido e o procurei nas redes depois. Opiniões diversas sobre o seu pensamento, algumas o acusam de ser de extrema direita, falacioso, mero burocrata – não visita a realidade que critica. Cheias de razão, expuseram as fraquezas dos seus argumentos. Lembrei-me de alguns desconfortos que senti durante a palestra e que achei insignificantes diante de tudo o mais: nos comentários e perguntas do público, vi sua impaciência em responder, sua contradição de que nada pode ser feito porque as pessoas não vêem necessidade versus ninguém desta geração tem condições de fazer as mudanças necessárias. Quando ouvi dele que as ideologias atrapalham a implementação de soluções simples, achei ótimo que alguém não faça defesas partidárias antes das necessidades, o que costuma tirar seu foco até caírem no abandono (um puxa pra lá, outro pra cá); mas quando disse que as idéias de que as pessoas são oprimidas são uma ingenuidade, fiquei alarmada. Parecia ser uma crítica direta a Paulo Freire. Pensei em esclarecer, muito provavelmente a equivocada era eu, mas de qualquer modo, pra quem pensou que a ideologia atrapalha, era fácil deduzir que, o poupar-se de saber mais sobre, o impediu de entender que a questão da opressão se tomada como uma problemática pedagógica e não ideológica, pode  resolver muitos conflitos, basta notar a democratização que a internet traz e como soluciona as necessidades de inovação nas empresas ao criar meios para promover diálogo entre as bases e os executivos. É claro que até Paulo Freire fala que a mudança no tratamento entre massas e líderes deve ser tratada também de forma ideológica; naquela época, éramos recém saídos do mundo bipolar e a “direita” sempre ganhava todas, já que sempre foi a mais rica e poderosa. Ele via o mundo globalizado com temor, pois a “elite” continuaria ganhando. Ele não pôde ver, penso eu, que as questões de sustentabilidade começariam a esgotar a importância dos embates ideológicos e levantar os espíritos de forma apartidária e assim, formar um coletivo bastante diverso em pensamentos e talentos, realmente interessado na preservação da vida.

Bom, tenho muito o que estudar sobre o assunto pra formar uma opinião definitiva e bem mais consistente, mas o que me alarma de tudo é não fazermos nada porque nos detemos nos conflitos ideológicos. Parece-me que as coisas do jeito que estão hoje, pedem que você se posicione escolhendo um lado, alinhe-se conforme , pois assim, as pessoas que “pensam da mesma forma”, poderão unir esforços para resolver alguma questão de importância, devidamente priorizada. O pior é que quando debatem entre si, ficam a caça de pontos fracos, se atém a logicas, persuasões e perdem a visão, a coerência, o senso de compromisso, a consciência passa longe. É uma pena que as pessoas gastem tanta energia nisso e menos na solução dos problemas; se isso faz de mim uma ingênua, não me importo, acho mesmo duvidoso tomar partido de uma ideologia e não de uma necessidade.

Lendo outro dia um livro sobre Motivação, escrito em forma de diálogo entre Luiz Marins e Eugênio Mussak, este conta que levou a esposa para a joalheria Tifanny a fim de lhe comprar um presente. Lá, a funcionária explicou que as grandes lojas tem lapidações patenteadas e assim, fizeram uma chamada lapidação lúcida, que produziu uma pedra lúcida. Lúcida vem de luz e na astronomia, referencia uma estrelha de maior brilho e então, eles tinham conseguido fazer uma lapidação que fazia uma pedra ter mais brilho, história que utilizaram no texto para falar sobre a finalidade do educador que é lapidar, de modo que faça com que as pessoas brilhem mais.

Se estivermos falando de um autêntico educador, interessado em estimular o desenvolvimento do melhor que há em alguém, disposto a olhar e admirar o diverso e o novo, podemos admitir que precise realmente se empenhar em ser tão competente que ao lapidar, não mate o espírito ou o torne inválido. Mas se estivermos falando de todos os que se acham donos de verdades absolutas, correntes doutrinárias infalíveis e corretas para “todos”, teremos dado asas a cobras. Este dilema ainda não está totalmente superado, é triste ver tanta gente invalidando o conhecimento de alguém tão preparado como o Ioschpe porque ele está “equivocado”, é “fantoche de direita”, e tenha tido uma educação tão privilegiada que talvez o isole da sociedade. É triste também vê-lo se abster de dialogar, o fazendo somente com os “iguais”, já que acha que nada é feito porque as pessoas não estão cientes do quanto a situação está ruim.

Ainda aposto na capacidade das pessoas de ganharem autonomia, baixarem a bola do ego, subirem a da consciência e, solidarizando-se, façam um mundo melhor.

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