Deixe o frio ser frio, minha filha

Pior que o trânsito, só o frio. Do frio dá pra escapar. Do trânsito também, mas se escapa geralmente quando o caos que o provoca desaparece subitamente, o que, dizem uns malucos por aí, só a física quântica explica. Na fundação, encontrei os voluntários daquela noite e um dos coordenadores do projeto, conversando em torno de um café recém-passado.

Dali, minutos depois, fomos para a escola pública próxima, assim eu poderia acompanhar o trabalho deles com uma roda de leitura no EJA – Educação de Jovens e Adultos e assim, já ter uma percepção da resposta deles, já que começaria o meu trabalho na próxima quinta-feira. A medida em que passávamos pelos portões de ferro, fui emudecendo. Costumo achar que o inverno é triste, pois parece que tira o viço das pessoas, mas ali dentro, as fazia parecer doentes; talvez por causa das portas de ferro das salas de aula – o corredor, parecia uma prisão. Muda, meu coração foi apertando. Os voluntários estavam cheios de si, alegres por fazer algum bem, que os satisfazia, mas será que satisfazia as pessoas com quem se encontravam?

Fui apresentada à coordenadora pedagógica e mal conversei. Ela também não deu muita atenção e se manteve entretida com o vai-e-vem dos professores em volta, mas depois juntou-se a nós, que esperávamos o horário e falou do programa de reciclagem de lixo que começavam na escola, incentivando-nos a utilizar temas afins nas leituras.

Entramos na sala de aula, as turmas se dividiram e fiquei com um dos voluntários que estava aplicando um trabalho artístico de reflexão sobre a vida. Na roda passada, ele havia mediado um poema da Cora Coralina e nesta, havia pedido que desenhassem a máscara que usam para enfrentar a vida e uma reflexão. Aqueles alunos estavam no que correspondiam à 5a. série, uns quatro deveriam ter mais de 50 anos, outros quatro, 30-40 – cansados, com frio e desinteressados, como é de se esperar. Fiquei quieta um tempo, até a minha mente tinha emudecido. O voluntário estava feliz, distribuía as canetas, tirava fotos, organizava os desenhos; seu movimento era diferente do deles – embora se ocupassem todos da atividade – as dele parecia um mundo à parte, que tinha ido ali pra fazer uma coleta de dados para o seu projeto enquanto que os alunos, obedientemente se deixavam levar, pareciam não saber o que estavam fazendo ou pra quê. Entrou um fotógrafo de um jornal para uma fotos e depois de colocá-los em roda, tirar fotos, saiu.

Comecei a ler o que escreviam e no geral tinham pensamentos-padrão sobre a vida em geral, não estava encontrando ali depoimentos reais. Uma senhora, curiosa, puxou conversa enquanto acabava de pintar o seu desenho e perguntou-me se eu voltaria na semana que vem, se ficaria com eles. “Sabe? Quando me pedem pra fazer uma coisa, preciso de um tempo, não vou logo fazendo. Às vezes demoro, mas faço.” Sorri e torci as mãos, geladas. “Com frio?”, perguntou ajeitando seu cachecol. “É, estou. Hoje o frio está judiando.”, respondi. “Deixe o frio ser frio, minha filha. É bom vestir alguma coisa mais quente nesses dias.”, disse. Contou-me sua história e porque estava estudando: “Não é pra me formar, estou estudando pra mim.”

Uma hora passa muito rápido e logo estava voltando pra casa. Não saberia dizer se conseguiria vencer a sensação de que eu deveria fazer o mínimo por eles na roda. Fiquei tentada a planejar as aulas que oferecessem somente um pouco mais de conhecimento do que recebiam ali, de diversão e algumas ferramentas pra que tirassem mais prazer da vida com os recursos que tiverem à mão. Fiquei tentada a lhes oferecer meios de, somente, aliviar o cansaço, arranjar repouso. Fiquei tentada em não falar de sonhos, transformações, progresso. Fiquei tentada em achar que eles não dariam conta de mais esperanças, mais conhecimentos nem estímulos. Fiquei tentada a não procurar neles suas inteligências mais espertas e ajudá-los a descobrir como usufruir delas e fazer com que trabalhassem a seu favor.

Mas não caí. Se deixasse de fazer “com” eles, deixaria de fazer comigo e “com” qualquer outra pessoa que precisasse vencer a tentação de se deixar levar pelas circunstâncias e pelas aparências. Teria deixado pra trás toda a fé no desenvolvimento que venho depositando, achando que é pra poucos e escolhidos. Lembrei-me dos alunos da 8ª série da outra escola, que retomo no próximo sábado: a atitude inicial deles tinha sido incomparavelmente pior e embora eu tenha cometido alguns equívocos cometidos pelo voluntário desta noite, mudamos e eles evoluíram, sabíamos como retomar agora depois da dispersão do final de junho.

Preciso me proteger mais do frio: não parar de acreditar, tampouco de agir.

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