minha experiência TEDxUSP – parte 2

Quando li minhas anotações sobre a palestra de Hernani Dimantas, doutorando em ciências da comunicação da escola de comunicação e coordenador de dois programas e um núcleo de pesquisas na Escola do Futuro, vi que precisava de uma ajuda do google pra recuperar o fio da meada, pois àquela altura dos talks, meu ritmo para retomar a concentração foi menor que o dele pra falar de todos os projetos relevantes que tinha feito: Marketing Hacker, Projeto Metáfora, Multidão hiperconectada, Metarreciclagem, Acessasp, lixoeletrônico.org, desvio/weblab.tk, linkania – todos colaborando com a inclusão digital, a comunicação, a produção cultural, reuso de lixo eletrônico, união de arte e tecnologia, cidadania através dos links… ufa! Ações denominadas com um vocabulário próprio, brincando a sério com as palavras e estabelecendo políticas públicas ao atuar em parceria com o governo (Rede humanizaSus e acessasp). Confesso que ali, não tive a dimensão do seu trabalho que tenho agora. Depois de ler algumas coisas suas entendi melhor a sua relevância. Os seus projetos, pareceu-me, abrangem todos os componetes da vida digital: conexão, relacionamento e meios (rede, computadores). Entendi também porque a Escola do Futuro não é um projeto da Escola de Educação e sim da Escola de Comunicação: “Falar é fácil, o silêncio é fatal” – pra muitos pedagogos essa sentença não é uma via de mão dupla -, para outros e comunicadores é um “aha!” porque o silêncio é o fruto da dominação, da velha e resistente história do sectarismo do saber nas mãos de poucos que se arrogam proprietários de uma verdade absoluta, que subjuga e condena a multidão silenciosa e os diferentes. Seus projetos esclarecem porque a internet não se trata apenas de informação abundante à disposição, trata-se de produção cultural, formação de conhecimento e de indivíduos. “A enormidade de produção cultural mostra que esta multidão hiperconectada é transformadora”. Encontrei um dos nomes que estudam e viabilizam os encontros virtuais (não menos reais) das multidões brasileiras. Seu trabalho é um daqueles que me fez olhar diferente a mesma coisa e me deixou com a sensação de que nunca tinha pensado nisso antes. Talvez não tenha mesmo.

Eliza Capai, jornalista e produtora de documentários entrou no palco recém chegada da África pra falar de sua experiência pessoal com o trabalho. Na busca de que ele fosse prazeiroso e produtivo, começou viajando e, de viagem em viagem, foi escrevendo e filmando histórias reais pra mostrar, principalmente, que não há uma verdade, mas várias. Jeito poético e admirado com as coisas de falar, fiquei com a impressão que é alguém com quem se conversa com prazer. Mostrou-nos uma parte do seu trabalho que gravou em alguns países da África, entre eles, Marrocos, Cabo Verde e África do Sul. Relatando partes dos encontros, expressou todo o espanto por entender que entre culturas muito diferentes sempre haverá um abismo de incompreensão e por isso, como disse uma das sociólogas participantes do documentário, “que cada sociedade faça a sua própria análise.” Seu olhar para aqueles rostos e histórias, belos e humanos somado à mensagem insistentemente repetida de que existem várias verdades, é mais uma das pronúncias do mundo novo.

Apresentando-se como facilitador, Antonio Luis de Paula e Silva, colaborador do Instituto Fontes, de desenvolvimento social e sustentabilidade, fez um momento lúdico: trouxe num saquinho, uma pedra e uma batata muito semelhantes em formato e tamanho. Num tom vagaroso, como se estivesse recitando uma poesia a crianças de 7 anos, deu as características de ambos os materiais e traçou os paralelos que nos levariam ao que as difere e no quanto isso implica em nos questionar sobre como vemos o mundo, particularmente os seres vivos.  “Como você cuida da sustentabilidade da pedra? É um cuidado mecânico, que requer estabilidade e controle. E da batata? É um cuidado orgânico. A batata só se sustenta quando se transforma e por isso, devemos ter respeito ao seu movimento, dar condições ao vir-a-ser, ajudá-la a ser plenamente o que é.” Ao se referir à batata, referia-se à vida, e por isso, fácil começar a conscientização de que todo o ser vivo deve ser tratado da mesma forma, estando ele, homem ou mulher, num ambiente de trabalho ou não. No trabalho até, mais ainda, afinal, o dilema de todo o (bom) gestor é entender como ajudar a desenvolver o potencial do seu funcionário. Recorrendo ao filme Avatar, encerra com a pergunta que entendeu ser a chave do seu enredo. “De que lado você está?” Respondendo: “Eu estou do lado da vida.” Será que foi por isso que Machado de Assis escreveu “Ao vencedor, as batatas !” ?

Lígia Amadio, ex-poli e ex-fea, redescobriu sua vocação para a música quando acompanhou sua amiga para um teste no coral da universidade. Digo redescobriu, pois quando criança tinha pedido para aprender a tocar piano e graças a isso, quando se tornou assistente do maestro por auxiliar no ensaio do coral, se viu regente e fez a opção de uma nova formação, deixando o conforto de um futuro emprego. Com uma trajetória em profissões onde predominam os homens, lançou a pergunta para nós: “Há preconceito contra as mulheres?” Não houve muita reação, pode ser que o paradigma já tenha sido superado e o que falta na verdade é estímulo. Falando sobre a necessidade de perseverança voltou no ponto que parecia mais fazer sentido pra ela: ter a coragem de enfrentar as dificuldades e de seguir a vocação, leve onde levar. Seguindo o prof. Menezes, exortou: “Aventure-se!”, decisão muito útil pra quem precisa de segurança, e também pra quem não sabe qual é a sua: a aventura de se conhecer e assumir a responsabilidade de si ainda é de poucos corajosos.

O último palestrante foi a atração Marcelo Tas, fotografado e ovacionado, um fenômeno que me desconcerta – eu tinha medo do professor Tibúrcio! – perguntava-me de que planeta ele era e hoje me pergunto em torno de qual sol gira o planeta Tas? Contou, com todo aquele humor inteligente – sua trajetória profissional, o orgulho poli-eca-uny (universidade de nova york) e como a passagem por estes três ambientes carregou sua bagagem para as relações de hoje na mídia e internet, aguçando a sua curiosidade para os passos seguintes. A contribuição de Arthur Clarke com a criação da transmissão via satélite, que trouxe o tempo real foi uma das inspirações escolhidas como exemplo de visão. E de falta de visão, um quadro com uma pintura retratando uma escola na época medieval – ele foi mais longe que Samara Werner na comparação – exatamente igual ao de hoje, inclusive igual na figura de um aluno tirando uma soneca. Levou-nos ao CQC, “fruto de produção cultural e interatividade, uma rede de gente” que acontece à frente dos “tuítes” e mensagens. Nada nas redes sociais é meramente virtual, é a manifestação do real – é o que deixou claro quando mostrou algumas delas, inclusive de alguém que ele testou se estaria na platéia e estava. Você está atento ao que realmente quer? Você está colocando o quê na sua bagagem? O que você está produzindo? Qual teoria você está transformando em prática? O que, do virtual, você está descortinando de real?  – pareciam ser estas as perguntas que ele deixava. Forte na mensagem é a descoberta do poder do mundo digital e ao mesmo a sua impotência para minimizar o que é real. Pareceu-me que, no seu propósito, o mundo digital é somente um meio de expressão do ser e sua arte, de comunicação “com” todos que promovem as realizações e por isso, podem realmente ajudar a tranformar o mundo num lugar mais humano e habitável.

Saímos para a Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene, pronto no palco de cima, do telão. Interessante saber que do mesmo instrumento, tira-se possibilidades de sons graves, agudos, médios, por isso orquestra. Um pouco de blues, um samba, uma jogada de capoeira, lindo e infelizmente com pouca audiência pois todos saíram correndo para o último circular ou para outras músicas. O som era outra viagem, outra beleza, um encanto brasileiro, bom para o fim daquele encontro.

Depois de me despedir das pessoas que conheci, que saíram compartilhando suas paixões, um músico, uma educadora, uma estudante de literatura chilena, fui seguindo sem tentar reordenar nada na cabeça “Abra um canal para o que você quer e faça algo, grande ou pequeno. Tudo o mais vai acontecendo”, disse o músico sobre como formou sua banda.

O operacional estava descuidado, mas a escolha dos assuntos e palestrantes até que não. Encontrei muita sinergia entre os assuntos e a fala dos palestrantes – em sua maioria excelentes exemplos de teoria que se transforma em prática relevante, por isso, terminou por passar a mensagem proposta, especialmente se tinha o desejo de tirar os estudantes do conforto do berço esplêndido de ser filho da USP e produzir com empenho e com amor, pois o mundo tem pressa.

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