minha experiência TEDxUSP – parte 1

Com duas maçãs e o livro Pedagogia dos Sonhos Possíveis na bolsa para ler em caso de não encontrar uma boa conversa antes do evento, cheguei na FAU às 11h. Ao invés da fila que imaginei, encontrei umas quinze pessoas sentadas no banco lateral ao grande espaço que montavam  para os telespectadores e devia ter umas quatrocentas cadeiras diante de um grande telão.

Procurando organizadores para descobrir onde seria o credenciamento , encontrei uma senhora, em busca da mesma informação. Conversando com ela descubro que é educadora formada lá após se aposentar, dedicando-se a uma ong que alfabetiza jovens e adultos carentes: foi uma boa companhia daquelas que fazem parte dos sinais que devemos tomar o cuidado de não ignorar.

As pessoas foram chegando e o credenciamento começou, não oferecendo nenhum outro material além do crachá e um folheto da coordenadoria do campus falando sobre um programa que propõe o campus da USP como um campo de prova para projetos sustentáveis. Antes tarde do que nunca, mas atrasado – passando pelas faculdades havia ficado desolada, pois tudo tinha ares de abandono, sem falar das inovações que necessariamente não foram engendradas lá -, tão  atrasado quanto o evento: as palestras começaram perto das duas.

O profº Luiz Carlos Menezes, professor de física e conselheiro da Capes, foi o primeiro e falou sobre aprender o imponderável. Citando Eric Hobsbawn, falou da incerteza como sua primeira constatação: quanto mais novos conhecimentos e técnicas, maiores são a capacidade de produção que, por sua vez, aceleram as mudanças e geram incertezas, fazendo-nos a pegunta: queremos segurança ou aventura? Parece que pra ele, é melhor a aventura, afinal, a certeza, por exemplo, trouxera os regimes totalitários e o sectarismo. Sendo a ciência, fundada na dúvida e as religiões na certeza, o que seria melhor pra nós no mundo de hoje? “Mantenha-se em dúvida, proteja-se das certezas”, exortou, dizendo ainda que dada a transitoriedade e efemeridade das coisas, não nos resta nada senão, estarmos em permanente processo de reinvenção. Para conscientizar / preparar as pessoas para este momento, concorda que o modelo educacional precisa ser mudado: devemos sair de uma educação que domestica e trata as pessoas como produtos, objetos e entrar em uma que humaniza, promove e emancipa. Thank God, mais alguém influente no Brasil concorda ! 

“Liberdade de escolha depende de conhecimento, mas sem invenção ela definha. Vontade livre é imprevisível, criadora. Aprender o impoderável é criar.”  

Juliana Ferreira, a geneticista e pesquisadora falou sobre o tráfico da fauna e como o estudo genético dos animais apreendidos pode auxiliar a descobrir a rota dos traficantes e o local de origem das espécies ou indivíduos (foi assim que se referiu aos animais o tempo todo – achei legal, não é gente, mas é vida). Informou estatísticas, mostrou imagens, falou da ONG onde trabalha, mas o significado deste trabalho ficou contido numa opinião nada reveladora ao final da apresentação que poderia ter sido melhor explorada: “Por que devemos nos interessar por isso?”, perguntou. Porque é lindo o complexo biólogico e devemos ver a importância das interações com o meio. Ok. Também não deu uma amostra de como é, pelo código genético, achar uma rota ou o local de origem ). Isso sim teria sido superinteressante.

Não lembro o sobrenome do palestrante seguinte e ele não está no site – aliás o apresentador, o jovem que se apresentou como curador do evento, não estava falando com clareza, pois parecia estar muito embevecido com tudo. Marcelo, que chegou de boné com a aba bem afundada no rosto, mal pude ver seu olhar, já foi logo dizendo que era palestrante-step e teve poucas horas para preparar a sua apresentação. Parecia intencionado a ser espontâneo, engraçado e humilde e acho que funcionou com boa parte do público, que riu bastante. Ele tem uma empresa de consultoria que mobiliza recursos para projetos, algo como achar as pessoas certas e elas fazem o resto, inclusive pagar a conta. “Dinheiro não é o objetivo e pessoas são importantes”, disse e abordou de forma semelhante ao do prof. Meneses quando diz que precisamos humanizar o olhar sobre as pessoas. “As empresas são quatro paredes com gente dentro, mas por estar numa empresa ficamos ‘institucionalizados’, viramos objetos”. Assim fazemos com a nossa visão de sociedade: sociedade são os outros e estamos à parte. Algo que soou novo em termos de ideias, pelo menos pra mim, foi quando contestou a ideia de que vivemos na era da escassez; vivemos em abundância e o que é necessário fazer para vê-la é desobstruir os fluxos,  muros levantados pelas próprias pessoas.”Uma rua obstrui possíveis camínhos”, ilustra. O que veio depois, foram releituras que davam suporte a esta ideia: diagrama de Baran, a história do molho de tomate contada por Gladwell num TED, um mapa da blogosfera chamado mar de flores que mostra as conexões entre si. “Com mais gente, nos sentimos mais constelados, estamos todos no mesmo barco”. 

O pesquisador do instituto de astronomia Antonio Guimarães, falou de sua pesquisa sobre as Lentes Cósmicas e se restringiu ao assunto, não fez paralelos ou falou do seu própósito. Longe de mim tentar resumir o seu conteúdo, pois achei imensamente complexo, só pra entendidos. Mas achei interessante saber que 96% do universo é composto de matéria/energia escura, isto é, nada decifrada. Decompondo essas visões em fotos, milhões de galáxias, ampliou a visão da nossa insignificância, o que é bom para a humildade. Por outro lado, também ampliou a visão da nossa capacidade de decifrar o lado desconhecido, que poderíamos chamar de potecial criativo. Comecei a sentir euforia ao imaginar um mundo onde as pessoas realizassem plenamente o seu potencial, ao passo em que ele mostrava como conseguia localizar e mapear estas matérias escuras, dando-nos até, uma visão tridimensional. O desconhecido – nossos potenciais? – existe e pode trazer milhões ou talvez zilhões de novas possibilidades e realizações.

Da próxima palestrante, anunciada como step na linha “espontânea graça”, fiquei sem saber o nome. Algumas outras pessoas pra quem perguntei também. Doutoranda de biologia numa universidade americana, veio compartilhar sua experiência pessoal em corridas de aventura compartilhada com fotos e imagens das competições inclusive mundiais que tinha ganhado e que lição tirava: como é importante o espírito de equipe, o comprometimento e fazer as coisas com o coração. Ao dizer que decidiu deixar o esporte porque estava ficando monotemática no momento em que ia para uma nova e melhor competição mundial, ficou claro porque ela não tinha muito o que dizer sobre, já que tinha virado a página e parecia que o assunto já devia estar encerrado.

O bloco terminou uma hora depois com a palestra curta de Marcio Boruchowski, de uma das empresas apoiadoras do evento, fez uma reflexão, pra mim, um pouco clichê em torno das palavras Ideas, worth, spreading, do TED pra dar um pitaco do como sua empresa trabalha com inovação. O que passou realmente a mensagem de inovação foi o cachorro chamado Shiva que eles levaram vestido com uma camisa TEDxUSP e é integrante da empresa (sim, tem uma cadeira no quadro de funcionários) – muito simpático, que circulou entre as pessoas com todo o seu charme (acho que era um golden retriever, mais peludo) e o mural interativo onde colocaram um manifesto em prol da sustentabilidade e da ação refletida por um mundo melhor. A mensagem foi recortada em vários quadrados adesivos que tínhamos recebido no credenciamento; na hora do break, deveriam ser colados aos lugares marcados e se todos colaborassem,  leríamos a mensagem na íntegra. No final, dava pra ler a maior parte da mensagem e ainda era possível a recebermos por email.

O coffe break, de uma hora, apesar das máquinas de café expresso, com cappuccino e etc. livre, foi uma distribuição de comida que me fez lembrar os dias de prova da Fuvest: os organizadores aflitos, abriam as caixas de papelão e estendidam os chocolates de beber, iogurtes, chás e água do patrocinador, enquanto outros tentavam arrumar os biscoitos salgados e doces nas bandejas, uns chocolatinhos em aquários redondos. Os telespectadores também desceram e num primeiro momento, o grande pátio ficou apertado. Mas um tempo depois, quando uns subiram em busca de ar ou de esfiha na lanchonete aberta, ficou mais circulável e dava pra repetir os cafés.

De voltàs talks , a prof. Linamara Rizzo da faculdade de Medicina, como secretária de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência em São Paulo, vibrante, falou de acessibilidade nos dando uma visão de quantos são os deficientes hoje no Brasil – 29 milhões -, as ferramentas desenvolvidas para inclui-los e no quanto havia a ser feito em termos de mobiliários, transportes, tecnologia de informação. O advento das unidades móveis de atendimento médico, ensino à distância e do livro digital foram muito louvados como soluções de inclusão de quem muito podemos aprender e com quem podemos produzir. Achei muito esclarecedor e um chamado para que os estudantes se interessem em ampliar os leques de soluções.

O ex-professor da Poli Demi Getschko, conhecido como um dos “pais da internet”, muito aplaudido,  falou da sua experiência pessoal nesta trajetória como engenheiro e descobridor da internet, algo a que se referencia modestamente. Falou de como as primeiras conexões surgiram, era uma situação de conexão um pra um que tinha um modus operandi viral: sem um fluxo hierárquico convencional, o caos da base fazia subir as novidades e assim, os movimentos aconteciam onde a única regra era “sermos liberais no que aceitamos e conservadores no que fazemos.”, encerrando com os princípios para a governança e uso da internet.

O curador da Bienal de SP, Agnaldo Farias, apresentando-se como professor vocacional, também contou sua experiência pessoal no envolvimento com a arte, também muito aplaudido pelos artistas da platéia, inclusive eu mesma, claro. Fez sua crítica ao mundo de hoje, dizendo que está excessivamente técnico (rotinas, padrões pré-definidos) e por isso, nos influencia “a escolher algo em função de modelos e não de um modo de estar no mundo.” Pra ele, a arte é um antídoto contra esta influência e fazendo um link com a palestra do Prof. Meneses ao citar Descartes: “O motor do conhecimento é a dúvida e não a certeza.”, disse, lindamente que é função do artista ir à escuridão e assim, como escolhido da arte,  mostra ao mundo o que antes não era visto e entrega a ele, tudo o que a arte criou dentro de si”, podendo ela também ser manifesta através da linguagem, citando as experiências com J.G. Rosa, querendo com isso, “desproibir” os artistas de o serem e as pessoas de se fascinarem com eles, visando a liberação de mais inovação.

Juca Kfouri, na condição de ex-aluno da faculdade de Ciências Sociais, por onde passei, chamou-nos à uma revolução ou, pelo menos, a uma reflexão com um mínimo de mobilização em favor das notícias estranhas que vem da parte dos organizadores da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil: estádio do Morumbi vetado e novo estádio em Cuibá? O desperdício de dinheiro nos Jogos Panamericanos, parecia que se repetiriam. Falou de sua trajetória e do seu propósito, mostrar que o futebol não é alienante, o que, como citou, tem se provado verdadeiro ao menos na produção intelectual sobre o tema, crescente a partir dos anos 80 – agora valeria a pena que as pessoas se mobilizassem em favor de preparativos conscientes dos jogos. Pareceu-me que a sua tese, pretendida na época de estudante nos anos 70 “O futebol não é um fator de alienação, mas de mobilização”, poderia enfim ser coroada com um ato precursor do tão sonhado exercício da cidadania brasileira. Será que nos mobilizaremos?

Apesar de estar mais inspirada neste segundo bloco, a palestra do Juca me fez lembrar que quando entrei na USP, nas Sociais, achei todo mundo louco demais, achei que não me adequaria. Mas na verdade, sou tão louca como eles, que o são ao se olhar de perto e ao se olhar de longe. Se eu não a tivesse negado, onde eu estaria agora? Não veio nenhuma imagem – talvez nada de novo fosse a resposta. E pensando em loucura e desvios, voltei ao presente pra ouvir sobre alguns projetos da Escola do Futuro do próximo palestrante.

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4 respostas para minha experiência TEDxUSP – parte 1

  1. Valeu por compartilhar, Deyse! Muito bom mesmo. Não pude ir e aqui tive uma boa ideia de como foi. E só lembrando que de perto ninguém é normal! rsrsrs
    Abraço

  2. Deyse,

    Muito obrigado pelo texto, é muito importante para nós conhecer a opinião e impressão dos participantes do evento (principalmente porque cada membro da organização viu uma parte do evento, nenhum assistiu ele através do ponto de vista dos participantes).

    Estamos ansiosos pela segunda parte.

    Grande abraço,

    A. Veiga

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