vozes pela educação que desenvolve

Outro dia, ouvi o educador e escritor britânico Sir Ken Robinson dizer que os maiores pecados da educação mundial são a linearidade, e tudo o mais que um modelo fabril de produção oferece, como a padronização. Isso nos coloca numa crise de recursos humanos já que este modelo não nutre o espírito das pessoas. O melhor modelo – e que vem de encontro à mesma temática de crise de recursos naturais -, é o agrícula, orgânico, que pede intervenção “sobre as condições” de crescimento e não “no” crescimento. Pensando bem, sendo nós humanos, seres vivos, não faz o menor sentido nos tratarmos como peças recebendo tratos em esteiras de produção.

As ideias foram espalhadas por ele neste ano numa palestra TED (Tecnologia, Entretenimento e Design), que espalha ideias de valor desde 84 (aqui). Também havia feito o mesmo em 2006, e assim outras pessoas também questionam o modelo de educação existente, como Samara Werner, no TEDx São Paulo do ano passado (aqui) , provocando discussões oportunas: passamos por inúmeras transformações causadas pelas revoluções tecnológicas e a educação, continua na mesma.

Claro que estas revoluções abrem demandas cada vez maiores por inovação. Como os recursos humanos estão esgotados em função de um modelo educacional pobre, que mata o espírito – como diz Ken Robinson ao comparar a situação a fast food versus comida saudável – e pode levar a um caos relevante a um ponto que promova tratados de cooperações mundiais e assim, ações consequentes. Já pensou a economia estagnar por falta de recursos humanos inovadores?

O futuro próximo para a educação não parece bom se mantivermos o paralelo com o meio ambiente: se as primeiras discussões relevantes a respeito das mudanças climáticas com as quais nos preocupamos hoje foram iniciadas no final do século XIX, as constatações do crescente aquecimento global em meados do século XX, o protocolo de Kyoto no final e há dez anos do século XXI as primeiras ações, provalvemente vai levar mais de um século para as mudanças realmente importantes na educação começarem.

Em seu O Elemento-chave, Sir Ken Robinson comenta as transformações desejadas, mas ao colocar o olhar nos indivíduos que as fariam, vê a necessidade de solicitar atitudes iniciais como auto-observação, autorreconhecimento, nunca de forma isolada e sempre com o máximo de abertura aos estímulos externos e às  outras pessoas, em resumo. É um plano que abre espaço para a expressão da exclusividade do ser e protege esta diversidade como caminho para a criatividade de que o mundo está carente, pois ela se vale das inúmeras combinações possíveis dos elementos-chaves de cada pessoa, como ele define: 

O lugar onde você gosta de fazer se encontra com o que você faz bem”.

Então, quem vive o seu elemento não faz tão-somente um “o que fazer” e sim, “um estar sendo no mundo”. Faz um chamado aos leitores para que atendam à responsabilidade pessoal e intransferível de descobrir sua identidade e se desenvolver,  vivendo de forma  autêntica e por isso, criativa. Quem é o que é e assim vive sua paixão de ser, protagoniza com a vida e com os outros. Tão simples que só podia ser complexo e trabalhoso, haja amor , paciência e perseverança. Caminhos e histórias interessantes, contados com um humor muito elegante.

Ele deseja para as novas escolas, bons educadores, bons mentores que auxiliem as pessoas neste processo, sem porém, esclarecer mais profundamente o que os qualifica como tais e então, recorro à  Paulo Freire, e termino por entender que mudar a relação com as pessoas e consigo mesmo para viver produzindo criativamente é uma questão de transformar as relações de poder, o que ele ilustra muito bem em seus livros Pedagogia da Autonomia e Pedagogia do Oprimido. 

Escrevendo eu muito simplemente, entendo que ele parte da premissa de que somos seres inacabados, por isso condicionados – isto é, tudo se aprende enquanto se vive –  e orientados pela vocação inata de ser cada dia melhor. E então, ilustra o que vejo como a questão que separa o mundo contra o qual queremos reagir agora e o mundo melhor onde queremos viver: mais sustentável, próspero e humano. Pra isso temos que vencer nossa dualidade: um lado nosso, condicionado há anos em estabelecer uma relação de superioridade-inferioridade com o outro, visto como um objeto, meio para se alcançar determinados fins, onde se depositam instruções que devem ser estritamente processadas e executadas. Outro lado, que anseia uma conexão de sujeito com sujeito, uma troca de saberes que evolui para novas experiências que se entrelaçam e produzem frutos e novas sementes. Portanto, um  lado nosso, é necrófilo, lida com o outro como se a um objeto manipulável, gosta de controle, obediência e reverência. Outro lado nosso é biófilo, gosta de gente e assim a vê, de movimento, interação, liberdade de criação. O que pode ajudar a alimentar o nosso lado biófilo é focar atenção no ser e estabelecer um contato horizontal com este sujeito de sua história e logo,  protagonista dela, com orientação sustentada pela esperança (sempre ativa) de ser realmente melhor, o que será viabilizada por uma ferramenta proposta pelo primeiro pai da educação, Sócrates: o diálogo.  

Não gosto de achar que isso é realmente um trabalho secular que passará por pelo menos mais duas gerações até se realizar plenamente, mas se é a única esperança que resta, é melhor continuarmos incomodando e buscando fazer o possível até que a soma das atitudes façam a revolução que precisamos. Esta é a minha maneira de estar no mundo.

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