miniatura

Ser uma recém-tia não faz de mim uma autoridade em educação, muito menos infantil , especialmente porque desde que meu sobrinho nasceu, morando ele em outra cidade, até agora só participei dos seus momentos fofos, daqueles nos quais as crianças conquistam você para o resto de sua vida. Observando, porém, alguns acontecidos por aí, dá vontade de pensar e escrever umas coisas.

A sala de espera onde eu estava, ficava em frente à sala de espera infantil e a julgar pelo berros de criança, ali próximo também se fazia algum atendimento. Ao meu lado, uma senhora com um bonsai nas mãos estava irritada: “Será que essa mãe não consegue dar um jeito pra calar essa criança?”, perguntava para o senhor quieto ao seu lado que olhava a televisão de braços cruzados. Dali a pouco saía o menino, de uns quatro anos, ainda soluçando, magoado com o procedimento, carregado no colo e consolado pela mãe, e repreendido pelo pai: “Pára de chorar, já acabou. Ah, que bobo, não foi nada !” A senhora do meu lado suspirou aliviada porque o barulho tinha ido embora, mas continuou resmungando para o senhor sobre os pais de hoje em dia, que não sabiam educar, colocar limites. Não me irritei tanto com o barulho, como com a mulher. Só ela falava e depois algum tempo, até o inocente bonsai no seu colo não me parecia mais simpático, imaginava-me o arrancando de suas mãos e o jogando no lixo.

Depois, outro berro de criança começava. Uma atendente veio trazer meus resultados e outra, pediu pra eu esperar mais um pouco pelo próximo procedimento e chamou a senhora, acompanhada do homem quieto. Dali a pouco, silêncio outra vez e saiu outro menino que parecia ter a mesma idade, talvez uns cinco, com o rosto banhado de lágrimas e o nariz vermelho, mas andando,  com os pais atrás dele, tranquilos, sorridentes, em sintonia, ambos dizendo: “Parabéns filho, você conseguiu ! Até ganhou um selinho de corajoso !” O menino, apesar do choro, saiu com uma pose de gente grande quando se orgulha de um grande feito, quase feliz e cheio vontade, curioso de novo com o que ia descobrir na sala do lanche.

Que diferença, pensei. Pela atitude do segundo menino, pareceu-me que os pais tiveram paciência com a emoção do filho – não se irritaram ou se compadeceram demais pelo sofrimento – e talvez tivessem explicado a ele o que ia acontecer, junto com o médico e o enfermeiro, dizendo que logo estaria livre pra lanchar e brincar. Talvez tivessem sido firmes, sem raiva ou irritação, com uma conduta amorosa, o encorajando a suportar o procedimento, pois ir até o fim, significaria ganhar uma prova de coragem. Já o outro menino, se parece com a maioria dos casos que a gente vê por aí: a emoção da criança é reprimida e ela ainda se sente culpada pelo que sentiu, colocando mais uma experiência nova no seu banco de “coisas a evitar”, que provalmente acabaria sendo maior do que o banco de “coisas a viver”.

Quando crescemos, tendemos a repetir este tratamento em todas as relações, o processo é o mesmo. Ignoramos ou reprimimos alguém que se emociona, sente medo ou dramatizamos a situação com a pobre vítima, sem dar atenção a qualquer coisa de positivo que tenha sido realizado por ela ou não a encorajamos a seguir. Se somos nós mesmo na experiência, em vez de assumirmos as emoções e fazermos o que precisa ser feito, muitas vezes evitamos fazer ou passamos a depender de heróis que nos salvem milagrosamente da situação.

Entendi, depois, porque o bonsai me irritou mais que os resmungos da pobre senhora: a planta me lembrou da muda que foi podada para crescer em miniatura, ao invés de o ser para atingir toda a altura que germinou pra ter.

Então, pensei que estamos sempre lidando com alguém e temos sempre algum grau de responsabilidade pelo sucesso do contato ou do relacionamento ou ainda da gestão, seja no âmbito escolar, seja no de negócios. Lidando com nós mesmos então…

Perguntei-me qual costuma ser a minha atitude em relação ao meu crescimento e de quem está em contato comigo? Se podo alguma ideia ou atitude, é pra fazer crescer ou miniaturizar?

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