o pouso da esperança

Enquanto lia no parque perto de casa, uma esperança, o inseto, pousou num banco e ficou ali por uns instantes. As crianças mais novas ficaram curiosas, e as mais velhas ficaram pensando no que fazer para atraí-la pois o efeito devia ser como o de borboleta: haveria de trazer sorte.

Lembrei do conto de Clarice Lispector, do livro Felicidade Clandestina, Uma Esperança: tanta delicadeza e tanto vagar no caminhar, que parecia nada inteligente, presença tão suave que mal podia ser percebida e que depois de a perceber, nada mais acontecia.

Lembrando também dos finais de ciclos das nossas histórias, uma hora cheguei a pensar que teria novos e inesperados caminhos, mas ao contrário, só havia um chão de terra batida à frente, impróprio para cultivo. Talvez, pensar em novas e imediatas possibilidades, tenha sido uma dessas esperanças que pousam despercebidas e como efeito, também incontrolável, provocam a imaginação que toma conta dos espaços vazios com sua palheta e ilustra um cenário: feliz de quem o vê e discerne os “o que-como-porque fazer” ou o que esperar, já que o trabalho atrás de si foi feito. Infeliz de quem só faz contemplar e se prende à imaginação, achando tudo o mais impossível.

Até me desvencilhar das esperanças e imaginações, e das peças que elas pregam, custou alguns meses – como voltar a escrever com esperança se muito provalvemente, com ela, nada viria apesar dos esforços? Na semana passada terminei de (re)ler Jane Austen, Persuasão – algo extraordinariamente bom acontece quando as protagonistas perdem a esperança e assim, a chegada da felicidade tão imaginada, é triunfante, um gozo de felicidade. Se ela pessoalmente gostaria de ter esta experiência, morreu sem ela, o que não serve de prova contra a realização daquilo que as esperanças anunciam pois não sabemos o que ela realmente queria além de escrever, se é que queria outra coisa.

Na maioria das vezes o triunfo depende de como nosso esforço está orientado, do que alimenta, do nosso senso de viabilidade, da nossa capacidade de sentir o chão e caminhar sobre ele, sentindo o peso do corpo sobre os joelhos, das colaborações que damos e recebemos. Depende de vivermos incansavelmente com uma visão que há de ser renovada a cada momento, senão fatalmente nos conduziremos a lugar nenhum.

Foi, na volta pra casa à tarde, por ver no chão do meu caminho um par de borboletas namorando que me dei conta que a sorte vem para quem se empenha com vigor e alegria. Daí a fortuna é tão grande que parece uma dádiva, assim como deve ser dadivoso o trabalho que constrói o que sonhamos. Dei-me conta que achei impróprio me empenhar por certas coisas – como? certas coisas são o que são,vem e vão, pensava -, e estava enganada: tudo requer atenções, cuidados e dedicação. E às vezes requer derrotas e esperas.

A esperança move a alma – para mover a alma é preciso delicadeza –  e esta, move o corpo. Ela insufla um ânimo que desenha e pinta uma visão, que depois, o corpo discute, prepara, molda, constrói, trabalha, transformando em realidade aquilo que era apenas o seu toque.

Coloquei as borboletas de volta no jardim e em casa, voltei a escrever, assim como a relatar meus pensamentos nas notas de rodapé dos livros que tenho lido sobre educação e traçar novos planos, mudar a postura. Como primeiro post daqui, deixo assim, só as palavras que estavam presas há semanas e a partir dele, reconstruo um novo trabalho, mais real, pois acho que agora sei melhor o que fazer com as esperanças quando pousam assim, de repente.

Anúncios
Esse post foi publicado em estórias e marcado , . Guardar link permanente.

4 respostas para o pouso da esperança

  1. E a vida é um eterno ir e vir! Legal seu blog, Deyse. Boa sorte!
    abraço
    Rodrigo

  2. Neuza Ferreira disse:

    Muito interessante o seu texto! Ontem pousou na minha sala de casa uma esperança, e ficamos mesmo sem saber o que fazer, estão estamos esperando, fazendo por onde. Ela continua lá. Temos esperança!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s