Espaços recém-nascidos

Os primeiros minutos de um novo dia são sublimes – parece uma palavra exagerada, mas não: se o dia não nasce nublado, mas tem umas nuvenzinhas aqui e ali, o céu de um dia recém-nascido é perolado, chegando no rosa, no carmim, com aquele céu azul clarinho, a luz que envolve tudo fica muito aconchegante, acolhedora. Quando bate aquela brisa, dá pra sentir o frescor, que revigora o ânimo.
 
O dia foi se iluminando, fui arrumando as coisas pra ir à escola, na xícara, o café, na vitrola, Caetano: "Promessa de felicidade, festa da vontade, nítido farol, sinal, novo sob o sol, vida mais real, coisa linda" – pra mim, a canção do amanhecer. No caminho fui pensando na semana, e também, cheio de encontros felizes: com os quais perdi e ganhei.
 
Dei-me conta que vivi apaixonadamente estes primeiros meses do ano e nunca encontrei-me com tantas pessoas interessantes, algumas delas com quem provavelmente não me encontrarei novamente, parte com quem não queria me despedir tão cedo. Das pessoas com quem quis me reencontrar, agora ou depois, de nenhuma tive acesso e provavelmente não mais.   
 
Depois que deixei tudo pronto para sair, ia esquecendo o livro que separei para o encontro com os alunos e voltei. Tive uma vertigem e sentei uns minutos. Lembrei-me de tudo o que houve nesta semana e de quantas faltam para acabar as ações que empreendi com tantas esperanças de mudanças e encontros e aprendizagens que quis ter, na pessoa melhor que quis ser. Senti um silêncio muito grande e de repente, tudo em que pensei e seus sentimentos desapareceram, abrindo um imenso espaço à minha frente, vazio, mas ao mesmo tempo cheio de presenças que não consegui reconhecer. 
 
Folheei o livro como fiz na semana passada, meio que a esmo, por acaso. Conduzida? Não sei. Só sei que tinha caído ali, naquele trecho, que reli naquele momento: A Coragem de Crescer, de Maria de Melo, capítulo Liberdade para Sonhar. 
 
"Lembre-se de que alguém em você sabe perfeitamente o significado do seu sonho. É só ter coragem de deixar este alguém falar, de não atrapalhar. Dar espaço. Sem pressa: não feche nada antes da hora. Aguente ficar com as coisas em aberto, sem forçar conclusões só para livrar-se da incômoda sensação de não saber ainda, de não ter a explicação final. Tomar qualquer caminho só para não ficar na encruzilhada é sinal de medo, ansiedade. (…) Desapegue-se, entregue-se. (…) Confie na vida!"
 
Quando li pela primeira vez, pensei sem muita maravilha: legal, vai ser bom pra eles, os alunos como parte do que estudaríamos para aquele dia. Mas relendo, era como se fosse pra mim, sobre outros sonhos, que não sei ainda quais são. Estou encerrando os ciclos, e imaginando os próximos passos para o caminho seguinte que planejei.
 
Pode ser o caminho planejado, afinal, quando o imaginado começa a se realizar, pode vir a ser muito diferente da ideia, embora semelhante em essência. Mas no fundo, parece que sei que estou, na verdade, iniciando novos e inesperados caminhos.
 
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Uma resposta para Espaços recém-nascidos

  1. Antonio Claudio disse:

    Na cegueira de meu próximo ato, sempre respiro fundo, escuto o silêncio e aconselho-me com a solidão. Pego informações com meu travesseiro enquanto durmo, e atualizo as novidades em meus sonhos. Mudanças de paradigmas envolvem dor, mas ninguém afirma que tenhamos que sofrer por elas. Beijo no coração.

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