Chutes a gol

Por causa do momento de reformas tecnológicas que vivemos no escritório, em que os prazos combinados vão ficando menores não por causa do tempo que passa, mas dos problemas que aumentam, é necessário aproveitar todo o contingente disponível de pessoas e acioná-las em busca de informações. Por isso é natural que pessoas como eu, em níveis de coordenação e gerência, irem a comitês de executivos a fim de dar suporte necessário que favoreçam as decisões imediatas.

Neste ano, fui a um. Lembro que fui com a expectativa de encontrar exemplos a seguir e voltei frustrada. Sabe quando encontramos problemas, oposições, dificuldades nada nobres que ensinam o que não repetir ou lhe dão lições para a vida? Pois é.

Naquela suntuosa sala de reuniões de pé direito alto, grandes janelas e lauto café da manhã onde estive quinta-feira para uma pauta de 10 minutos, encontrei-me com profissionais altamente qualificados pelo seu trabalho, que sabem o que fazem, com suas metas de modo geral. Mas na hora de se comunicarem – é pra isso que estão lá: conhecer, decidir, acompanhar, não sabem esclarecer, escutar, dialogar, conectar-se com os interlocutores, sequer enxergar, enquanto pedem, perguntam, falam, avaliam as situações, o melhor de cada um. A pequenez dos debates – se é que posso chamar de debate aquele fala-daqui-fala-de-lá-, não combina com o tamanho daquela sala. Por isso há tantos problemas, as soluções são tão caras e os resultados são tão previsiveis e não maiores como querem os acionistas.

Saí de lá, roubada em minha dignidade, sentindo-me incapaz, caída depois de levar um chute de um dos crachás com que me deparei. Emudeci. Tenho um desafio e nenhum suporte da hierarquia para lidar com ele. O resultado que estava ali estampado foi fruto dos meus esforços, com as ajudas que conquistei, mas isso não foi considerado. Foi solicitada uma ação, instalou-se uma confusão, passou-se a responsabilidade para outro, fui desautorizada na frente de quem eu precisava de ajuda para concluir o trabalho daquela temporada. Como ainda não sei me levantar rápido quando caio, saí dali me arrastando. Tentei transferir o desafio para a diretoria de direito a fim de cessar a dissonância – este desafio não tem nada a ver com a diretoria em que atuo, mas não consegui, justamente por que só eu queria resolver a questão e ninguém mais. Sozinha, não faço nada.

Outro chute, de volta ao escritório, do outro crachá. Digo chute, pois são reações e comentários desrespeitosos, feitos pra agredir quando contrariados em suas vontades nem sempre bem comunicadas. Chutes de briga, chutes à contusão, de vingança ou de má indole, relações de senhor de engenho e escravo negro: apanha pra aprender a cumprir ordens. Senti-me um objeto sem valor. Entrei, sentei-me na mesa, com a cabeça estourando, notícias dos outros dois projetos que fazem parte dos ideais de futuro da organização, as reformas de base que visam modernizar a mentalidade de todos, reanimaram-me. Grandes idéias dão muito trabalho para se implementar, precisa de esforços conjuntos e constantes – sob sol e chuva, dia e noite -, liderança, habilidade de propor mudanças e acompanhá-las, perseverança, visão, confiança, paciência e muito, mas muito perdão. É preciso ser forte e ao mesmo tempo leve. Forte para dominar a carne e leve para atrair e manter o espírito presente, na liderança.

Antes de ir pra casa para o meu fim de semana, um dos gerentes falou comigo sobre suas opniões e esperanças, ouviu-me e também, foi gentil em me emprestar um livro sobre superação e perseverança de um esportista. Mas não dialogamos, foi aquele fala-daqui-fala-de-lá.

Para dialogar é preciso estabalecer uma ligação horizontal e lá, se fala sempre na vertical, de cima pra baixo ou de baixo pra cima. Alguns ainda não entenderam que a ligação horizontal não iguala os niveis hierarquicos, mas remete à base das relações humanas: dois ou mais profissionais com saberes que podem ser úteis na solução de problemas ou na inspiração para novos sonhos, planos. As diferenças entre eles, de graduação, hierarquia, tamanho ou variedade de repertório pedem um esforço de modular a conversa, utilizando códigos de comunicação que ambos conheçam. E só. Dialogar com um executivo, não fará de mim uma executiva e vice-versa.

Agradecendo a Deus pelo meu trabalho na Fundação, por tudo que tenho aprendido e colocado em prática, recebi uma mensagem da minha colega de voluntariado da Fundação, indicando outro texto pra ser trabalhado na roda daquele sábado. Era uma crônica de Nelson Rodrigues de 58, que ficou histórica e famosa por ter nomeado Pele, o Rei do futebol. Num primeiro momento fiquei em dúvida: um garoto de 17 anos com um talento extraordinário para o futebol e inato, elogiado de um modo que inferioriza todos, ensinaria o que? Pedi sugestões da fundação e recebemos coletâneas de textos e títulos do acervo sobre futebol que poderiam dialogar com os meninos.

Como ela não estaria conosco neste dia e estávamos em cima da hora – não consegui planejar o encontro com tempo, decidi usar o texto, ajudando-os a refletir sobre atitude – algo do qual falava bem: o que fazia dele um craque, não era o futebol, mas a atitude confiante, lutadora, tenaz. Também podíamos reforçar que não vivemos mais num momento de levantar e separar superiores de inferiores, mas de somar talentos para multiplicar riquezas.

Cheguei na escola como de costume para arrumar as coisas e pouco a pouco os meninos foram chegando. Não só os 5 de sempre, como o menino mais novo e outros – pasmei ! – 10. Não só eles da nossa roda de 8a. série, como o pátio ia se enchendo de crianças de outras sérias. O que teria acontecido? Liguei pra fundação pra saber se eu e outro voluntário, trabalhávamos com todos numa grande roda, ou se viria mais alguém. Estava chegando um dos coordenadores do projeto da Fundação, estudante de Ciências Sociais na PUC, que havia feito com outros voluntários, colegas da fundação e a coordenadora pedágógica da escola, um trabalho intenso de diálogo rápido com os meninos e meninas durante a semana, incentivando-os a vir no sábado também. Quase 50 alunos vieram naquela manhã. Golaços.

Enquanto ele formava uma grande roda, que contou com a participação de um dos pais, que por sinal, segundo me contou o Dodô, entendeu a proposta e ficou admirado, envolvido, líamos o texto na sala.

Os novos meninos e meninas – haviam 3 – eram falantes e participativos. Um deles, era um leitor, estava lendo Capitães da Areia do Jorge Amado e adorando. Achavam que o Pelé não poderia ser considerado Rei, pois depois dele, vieram outros craques. Nomes, opiniões. A novidade de gente nova, o improviso de ler o texto no notebooke um por vez, já que eu tinha esquecido os impressos em casa, agitou o menino hiperativo e tive mais trabalho pra concentrar a turma. Mas no fim acabou dando certo: ficaram atentos à mensagem da dinâmica que propus, o andar do craque, confiante e lutador, como seria? Todos andaram assim. Também andaram ora de cabeça baixa, olhando pro chão. Ora com a cabeça pra cima, com o nariz bem empinado, olhando pro teto. Ora, de cabeça reta, olhando pra frente, para os lados, para os colegas. Em três formas de andar, 3 atitudes, como era a sensação? Qual atitude escolheriam? Andem de cabeça erguida, mas na direção que lhes permita ver que vocês não estão sozinhos no mundo, lhes disse.

Fomos para o patio fazer uma atividade com uma bola de futebol. Levei a bola, um apito, a idéia foi formar duplas, com um goleito e um jogador. Eles formariam um grito de guerra e iniciariam um campeonato de chute a gol. Mas jogariam entre si na primeira fase, como treino: jogador procuraria dar o chute mais certeiro e o goleiro, a melhor defesa. Outros meninos da roda do coordenador quiseram participar: formamos 10 duplas, contando comigo – nunca fico de fora das dinâmicas porque não quero correr o risco de subir em pedestais e me distanciar deles, já era um dificuldade fazer com que parem de me chamar de professora e me chamem pelo nome.

Jogamos, sem silêncio e com alguma ordem, mas deu certo, marquei os pontos e eles ficaram de voltar no próximo sábado, mesmo feriado, para continuarmos os próximos passos do campeonato de Chutes a Gol – pra eles, um exercício de pequenas metas para começarem a trabalhar a objetividade as inciativas e pequenas ações de curto prazo.

Fiquei feliz da vida e coordenador do projeto nem se fala: as rodas se multiplicando são o sonho esperado, evidências de que é possível realizar um ideal. Falamos depois ao telefone por mais de uma hora, não somente o plano da roda, mas de outras esperanças e medos, buscando recarregar as baterias para lutar e vencer.

Voltei pra casa e fiquei pensando no quanto estou ganhando de mobilidade para buscar soluções, em como tenho crescido na convicção de que para tornar o impossível possível, devo sempre me perguntar e a quem estiver por perto que queira colaborar: qual é a solução, quais são as possbilidades e confiar numa das máximas que Cristo ensina: Quem procura, acha. Quem pede, recebe.

Fui ao cinema atrás de uma comédia romântica e não achei nada interessante. Quando me vi, estava caminhando para a sala onde seria exibido o filme sobre Chico Xavier, o maior representante do espiritismo no Brasil. Venci meus preconceitos para estar ali, em busca de mais conhecimento, mais compreensão e me emocionei com a atitude humana e solidária dos seus ensinamentos baseados em Cristo: a luz é pra todos, ninguém é privilegiado em nada aos olhos de Deus – são escolhas que nos levam onde estamos e todas nos ensinam alguma coisa, podem contribuir com a nossa evolução. É preciso escolher que chutes queremos dar, pelo que, para que.

Ele tinha dito que o espírito que o guiava, Emmanuel, havia lhe dito que ele só morreria no dia que todo o povo brasileiro estivesse feliz. E de fato, morreu em 2002, 10 horas depois do Brasil ter ganho penta na Copa da Alemanha por 2 x 0. Marcamos gols e defendemos todas.

É um placar assim que estou vendo no colégio, na Fundação. É um placar assim que vejo na minha vida – dar chutes esportivos e ganhar o desafio, é assim que estou aprendendo a jogar: olhando o adversário nos olhos e dialogando com ele – sabendo despertar a conexão horizontal que o diálogo precisa pra acontecer como deve – e antes de mais nada, saber lidar com a adversário como parceiro de jornada, que não sai perdendo ao jogar comigo, a menos que queira.

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Chutes a gol

  1. Antonio Claudio disse:

    Ligo para o bom senso, diserram-me que havia saído. Não me faço de rogado e ligo para a sensibilidade, disseram que estava em outra parte da cidade. Sem encontrar nem bom senso, nem sesibilidade. faço uma outra tentativa e ligo para delicadeza, fiquei frustrado, ninguém atendeu e não havia como eu deixar recado. A intuição que estava ao meu lado soprou-me a dica. Liguei para a Deyse, que mal havia chegado, estivera no cinema. Encontrei a doce criatura em bela companhia, estava com aqueles que eu procurava: o bom senso, a delicadeza e a sensibilidade. E ainda descobri, entusiasmado que lá estava, também, a paixão pela vida! Beijo amiga e excelente semana. Você merece.

  2. Cla disse:

    Na verdade, Chico morreu no dia da final da copa, 10 horas depois da decisão.Querendo saber mais sobre esse belíssimo homem, exemplo de Amor, Solidariedade, Paz, Abnegação, Superação, etc, etc, etc, avisa… Tem uns livros ótimos…Quanto aos chutes… Eles doem mesmo, principalmente quando partem daqueles a quem deveríamos confiar, amar, ou ao menos nos espelhar, mas sejamos otimistas: melhor ser "bunda" (ou bola, se preferir) que ser pé. Ao menos eu, não conseguiria conviver com a dor de ter chutado alguém, e você? MIL VEZES SER MÃO, QUE ACOLHE, ACARICIA E ERGUE, não é mesmo?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s