O pão de Haku

Não me lembro bem de toda a história, mas tem um trecho do desenho de animação japonês A viagem de Chihiro em que a menina senta, cansada. Sabe aqueles cansaços que de tão grandes te deixam tão travada (o) que você mal pode descansar ?
 
Na cena que eu lembrei, estava o amigo dela, Haku, que surgiu de repente em sua jornada para encorajá-la: ela havia aceito o trato com uma bruxa de trabalhar para provar o seu valor e escapar, ela e os pais, da sentença de morte que os tornaria comida depois de terem sido desumanizados e transformados em animais. Naquele momento ela estava cansada de tanto trabalhar e a liberdade parecia mais longe do que perto.  
 
Haku lhe ofereceu um pedaço de pão, dizendo que depois de comer se sentiria melhor. Ela aceitou e depois de comê-lo, foi sentindo uma tristeza que foi crescendo, crescendo, até virar um choro incontrolável. Chorou muito, parecia ter chorado tudo e depois se sentiu bem, leve, reanimada.
 
Hoje saí do escritório cansada. Não tenho corrido atrás de provar valor ou de reconhecimento, e sim de desenvolvimento e crescimento e por isso, tenho apoio dos colegas e dos patrocinadores dos projetos pelos quais tenho me empenhado também. Mas na estrutura onde estou baseada, não tenho nenhum apoio, praticamente nenhum grau de interação, me sinto isolada. Tento sair do feitiço, mas pelas atitudes que eu observo, só vejo evidências de que não estou conseguindo.
 
Saí da faculdade depois da prova e cheguei em casa. Meu curso está chegando ao fim, mais um pouco de paciência e chego na pós e então, profissionalmente as relações serão melhores. Lanche e pijama. Fui me lembrando das coisas boas do dia. No meio do caminho pra cama, o nó da garganta apareceu, assim como a tristeza e o choro. Chorei de pé, escorada sobre os joelhos, sem conseguir me mover pra nada exceto para vomitar toda aquelas tristezas que sequer imaginei ainda estivessem ali, no meu peito.
 
Comi um pão de Haku, por isso chorei. Posso chamar de Haku a um jornalista do escritório que se corresponde comigo como a interagir com uma profissional de valor. Não, ele não me elogia, apenas se comunica e trabalha comigo, sem se preocupar com a distância dos nossos cargos e muito menos se enciumar com os meus sucessos ou se desiludir com os meus fracassos. Presente, apoia e me guia sem me privilegiar com nada e por isso mesmo sabe que meu ego jamais vai assumir o controle e me fazer ter sentimentos de superioridade. Apenas trabalha comigo. Hoje me mandou um email relatando os resultados das minhas indicações ao projeto, aproveitou pra dizer quando saía de férias e quando voltava, dizendo a quem procurar em sua equipe em caso de necessidade. 
 
Sinto-me feliz e ao mesmo tempo triste, pois queria ter essa felicidade onde estou baseada e não tenho. Mesmo trabalhando muito e realizando, junto com meus colegas desta estrutura e de outras, com avanços, parece que nada quebra ou compra o feitiço.
 
Quando o choro acabou, levantei e fui lavar o rosto, esvaziada e pronta pra continuar tolerando certas coisas, ao mesmo tempo em que me esforço pra não acumular infelicidade pelo que não está bom. 
 
Mas pra mim, a calma só vem mesmo quando escrevo. Assim.
 
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2 respostas para O pão de Haku

  1. Antonio Claudio disse:

    O sucesso é para poucos. Quanto mais nos destacamos, mais trabalhamos, mais nos empenhamos mias próximos dele ficamos, contudo, minha nova amiga, mais solitários nos tornamos. Brilhe, mostre sua força e seu entusiasmo e não esqueça que toda sua evolução é um processo individual e muitas vezes cruel;, não espere apoio. Alguns poderão até usufruir de seu êxito, mas o ônus e as benesses de seus esforços ou ausência deles serão sempre seus. "Aos vencedores as batatas". Que as suas sejam as maiores e mais suculentas.

  2. Cla disse:

    A calma só te vem pela escrita.Para mim, ela, a escrita, me traz a vida, a completude, a felicidade, a liberdade…A escrita me traz o encontro (ou reencontro) comigo mesma.Acho que no fundo, não somos tão diferentes. Nem tão iguais. Apesar dos resquícios de DNA…Fica com Deus, tá?

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