Lutando contra a parada no 360º

Quando eu tinha 14 anos, queria salvar o mundo e tive a idéia num acampanhamento com os amigos do grupo de jovens da igreja da época, ouvindo Tempo Perdido do Legião Urbana. Embalada na pré-adolescência pelas campanhas pelas eleições presidenciais diretas fui lendo coisas sobre o assunto até parar, aos 18, na faculdade de ciências sociais da Usp em busca de entendimento pra fazer isso acontecer. Mas lá, a sociologia e a política não me diziam nada ou o que diziam eu não escutava, especialmente porque eu não conseguia mudar meu mundo com essas teorias e também me causavam o desconforto de ver 50 indivíduos se arrogando o direito de entender as aflições do coletivo, culminando num amontoado de intelectuais de direita ou de esquerda jogando conversas fora no bar da faculdade de história onde os tanques da ditadura haviam passado.
 
Meus colegas haviam escolhido o curso pelo direito legítimo de entender o que se passa nessa sociedade brasileira e quem, sabe, ter uma idéia brilhante pra mudar algum mecanismo opressor. Depois, começaram a querer ser críticos de torre de vigia – só queriam saber denominar alguma onda coletiva – , ou professores para ensinar as mais belas teorias e formar críticos, ou políticos para politicar – no bom e no mau sentido – ou jornalistas – para narrar de forma mais fundamentada as mazelas, melhorando a capacidade de selecionar reportagens promissoras a prêmios e dinheiro.
 
Quem conseguia fazer uma crítica dos mecanismos de controle social, contentava-se em entender como a coisa funciona e pronto. Fazia suas escolhas pessoais, como por exemplo não assitir certos canais de TV ou deixar de tomar coca-cola, concluindo, por fim, que toda a evolução social era um lamentável e eterno círculo vicioso e qualquer giro em direção às mudanças, ao chegar no ponto de 180º graus, se dobrava vencida, caindo na direção dos 360º pela inércia coletiva, já que sua força mecânica só era capaz de fazer tudo voltar ao ponto de partida.
 
Neste sábado, fizemos uma roda de leitura com os pais dos alunos e dos treze previstos, vieram quatro. A proposta da roda com eles era falar sobre estar com os filhos, sua relação com eles e como começar a incentivá-los a ter gosto em aprender. Levei um texto da Cora Coralina que a Liana da Fundação indicou, alguns textos de apoio sobre as teorias da psicóloga Carol Dweck que a Fundação está pesquisando, uma dinâmica de abertura para deixarem porta afora tudo o que os impedisse de estar presentes ali e principalmente, se abrirem a conhecer outras pessoas em quem poderiam encontrar apoio ou ideias quando precisassem, e por fim, uma dinâmica de encerramento, troca de bilhetes incentivadores e pequenos vasos de flores.
 
Considerando seu repertório as respostas foram boas, a participação foi acima da expectativa. Fomos alinhando os medos e expectativas sobre a educação dos filhos no tema que a poesia de Cora e as mensagens de Dweck traziam: não sabemos de tudo, mas podemos encontrar respostas buscando ajuda. Nada será perfeito e então enquanto os meninos, pais e educadores se dispõem a aprender, todos se ajudam a saber mais. Citei a história contada pela psicóloga em seu livro Mindset, do menino que derrubava os pregos no chão e se julgou desastrado. Ao invés do pai reforçar o julgamento, ensinou o que se diz quando aquilo acontece: se dizia algo que orientasse o filho a corrigir o incidente, ajuntar os pregos e tirar do chão.
 
Eles deram depoimentos positivos a respeito do encontro: esperavam uma reunião de pais entendiante ou de críticas sobre o desempenho dos filhos e acabaram encontrando uma diferente, em que gostaram de estar e voltariam outras vezes. Foi mesmo um encontro divertido e diferente.
 
Antes de encerrarmos, a mãe da menina perguntou se a filha era obrigada a vir nas rodas, se haveria marcação de faltas. Fiquei um pouco desapontada com a pergunta, mas não me desiludi – a adesão ocorre no impulso e geralmente fica no intencional. O hábito é um processo de construção. Respondi que a presença é livre e não seria cobrada, mas o programa a ajudava a se desenvolver, quanto mais ela viesse, melhor para o seu desempenho. Em contrapartida, o pai do menino novo, levantou-se rápido e me deu o telefone de sua casa para avisá-lo ou à esposa caso o menino "se esquecesse" de vir às rodas.
 
Como trocamos flores e mensagens por sorteio, ganhei as flores do menino novo que me escreveu: "Siga os passos de Deus." Fiquei pensando na mensagem e novamente em como seria a vida daquelas pessoas no dia a dia.
 
O caseiro da escola me ajudou com as bolsas enquanto eu esperava o carro e me contava de sua fé, naquela simplicidade adorável, e de seu aniversário de casamento. Pedi para ele escolher algumas flores pra dar de presente à esposa que se aproximava de nós, curiosa. Queriam saber qual era a minha religião e eu simplesmente respondi que era cristã. Não sei o que acharam ao certo, mas achei graça por terem se lembrado do trecho bíblico em que Cristo desprezaria, no juízo final quem não o obedecia e vivia somente dizendo "Senhor! Senhor!" Ele responderia, "Vão embora pois não os conheço." Não resisti e brinquei: "Já pensou a gente lá no dia do juízo: "Senhor!" e Jesus respondendo: "Te conheço? Passa amanhã !". Muitas gargalhadas e um pedaço de bolo de fubá quentinho.
 
Novelas e religiões como um meio de controle social, no sentido de dar um escape da pressão dos problemas, da pobreza e das fomes por meio de diversão ou consolo. As pessoas evitam o crime quando suficientemente envolvidas pelas tvs e pelas igrejas, mas ficam repetindo aquelas coisas que pra elas não fazem um sentido autêntico, adormecem, algumas se esquecem de viver, ficam apáticas, se destruindo por ações "socialmente aceitas", como comer ou dormir demais ou se drogar com analgésicos.
 
As escolas de ciências sociais tem feito um bom trabalho: não fossem por elas, não seríamos capazes de manter governo, políticas públicas, assistência social, economia formal. Mas elas ainda não desarmam o crime organizado, o sectarismo do saber das escolas, as dicotomias que disseminam preconceitos, marginalizações, violências. Um exemplo de dicotomia que desintegra: teorias x práticas ensinados nas escolas. As mais avançadas tem laboratórios de ciências e bibliotecas circulantes para proporcionar experiências além das teorias ensinadas; bacana, útil. Mas qual programa consegue se corresponder com o aluno em tempo real, ilustrando uma teoria com uma prática de acordo com sua história, sua necessidade no momento, fazendo uma conexão que o ajude a acordar da passividade e acordar outros? Que programa pode atingir tanta diversidade, falar com cada indívíduo?
 
Minha resistência em relação à sociologia é a mesma em relação à história em termos de ferramentas para solução: são estudos necrológicos ou abstratos, sobre fatos passados, dá-nos uma noção geral das massas e políticas que até hoje não resolvem as mazelas sociais. Acho que qualquer mazela se desarma acionando os componentes das massas: os indivíduos, no presente, no real, pessoa a pessoa, mano a mano. A vida é dinâmica, um constante acontecendo. Pra transformar, tenho aprendido cada vez mais, é preciso amar, aprender, praticar e muitas ideias boas foram ignoradas sem chance de prática. As pessoas continuam inventando, inventando ideias ao invés de se empenharem na prática de uma, das boas.
 
Saí pensando em como fazer as próximas rodas. Dos treze pais convidados, apenas 4 vieram, dos 4 apenas dois manifestaram apoio ao programa, incentivando a vinda dos filhos. Irresistível pensar que parecia que todo o trabalho feito no ano passado, que havia atingido o ponto 180, começava a cair para os 360.
 
Mas pensando em termos de desafios e considerando que muito raramente algo importante acontece num passe de mágica, voltei a pensar nos "comos". Os livros são representações de pessoas com ideias e os alunos precisavam se apaixonar pela leitura para aperfeiçoarem sua formação quando não tiverem pessoas instigadoras por perto. Também aposto ainda no poder do diálogo, de ser presente num encontro, escutando o outro e se fazendo escutar, trocando ideias com liberdade, como uma dança de par: dois passos pra lá, dois pra cá. Mas dá pra começar a entremear os textos com dinâmicas que ilustrem as idéias em vivências. Como fazer? Vou precisar de ajuda pra descobrir e já tenho algo em mente.
 
Quero saber cada vez mais como ajudar as pessoas a conhecerem o que elas tem em si que podem ajudá-las a construir a vida que desejam, ter a felicidade e o amor que esperam, junto com o outro, parceiros permanentes ou não de jornada e assim, somando um indivíduo feito sujeito, o SOU – e não mais objeto, mero componente de dominação alheia – com outro sujeito e mais outro, e outro, que dará um verdadeiro, autêntico e saudável NÓS para o qual, os princípios ativos dominantes são a colaboração e o desenvolvimento.
 
Inevitável pensar nos desafios do escritório. Felizmente estou envolvida em dois projetos que tem tudo a ver com o desenvolvimento que estou buscando, que  provocam minha curiosidade, minha vontade de aprender e de transformar. Lá encontro as mesmas resistências – as mentes de políticas que se encontram num estado de não pensar por si e por isso, querem ser manipuladas o tempo todo e manipulam, mas também encontro pessoas com as aspirações de transformação de pessoas-objetos a pessoas-sujeito, que me encorajam.
 
Tivemos um encontro com uma professora de Harvard, Rosabeth Moss, falando de inovação e desenvolvimento: novamente a questão da humanização, do aprendizado, das lideranças móveis. Saí correndo pra livraria mais próxima comprar o livro que aborda o assunto com mais profundidade e me vi com inúmeras informações úteis para os desafios do escritório, da faculdade, da fundação. Não tem jeito: coragem de aprender, de se apresentar como aprendiz é o que abre portas e ajuda a evitar a permanência no ponto 360º do giro da roda viva, pelo menos até aprendermos a ficar no centro da circunferência, onde está a bem-aventurança e onde tudo o que reluz, seja crise, seja oportunidade, vira ouro.
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Uma resposta para Lutando contra a parada no 360º

  1. Cla disse:

    Algo me diz que você deveria ter se enveredado pela Pedagogia…

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