Conspirações a favor

Ontem de manhã, de volta para a escola, apesar da greve de professores, reencontrei-me com 3 dos alunos da turma passada e conheci um novo na roda de leitura, tendo ainda como companheiros de jornada, um estudante de relações internacionais estagiando na fundação e como colegas voluntários, uma estudante de artes e um porteiro de um dos centros administrativos de uma importante construtora, que sabia quantos empregados a empresa tinha: "Sou chão de fábrica, mas tenho que saber quantos colegas eu tenho, não é?", disse ele na sua simplicidade.

No começo da semana, recebi uma resposta da fundação sobre minha dúvida em relação ao posicionamento do presidente a respeito da investigação de novas ferramentas de trabalho elaboradas no campo da psicologia. Esclarecimentos, links, indicação de bibliografias pra ler, convite para participar dos encontros do grupo de trabalho, incentivando minha continuidade nos estudos e até uma sorrateira pergunta "posso conhecer seu currículo?"

Lendo parte desses conteúdos na internet, comecei a entender suas respostas. Eram dialéticas e por isso serviam pra me levar a outro nível de entendimento. Não, não estão substituindo os metódos pedagógicos, estão complemetando com ferramentas que não servem à manipulação, à criação artificial de comportamento, mas que servem ao desenvolvimento humano. Growth Mindset – Carol Dweck explica a pais e educadores como instigar o gosto pelo aprendizado que é a verdadeira diferença entre quem é bem sucedido e quem não é: em outras palavras, ser reconhecido como inteligente, castra enquanto que ser reconhecido como esforçado, estimula.

Foi incrível perceber como isso foi real pra mim: meus boletins da escola primária eram 10, 9.5 e o de um dos meus amigos, 7, 8. Ele era o esforçado que precisava descobrir uma maneira de melhorar as notas, e eu a inteligente, e melhor aluna da escola – até medalha de honra ao mérito ganhei. Hoje ele é o bem sucedido: feliz e realizado em sua carreira, com seu casamento. Estou no meio, começo dos caminhos e não posso desconsiderar a importância de outras questões e interferências. Mas agora sinto que estou no ritmo certo, com visão, buscando aprender como converter estas notas do boletim da infância em realizações.

"Os pais devem abandonar a idéia de que não estarão dando aos seus filhos um presente quando não lhes dizerem o quão brilhantes e talentosos são. Pois, de outra forma, eles os farão acreditar que terão valor em serem inteligentes e isso os fará não querer aprender mais nada." É a satisfação com o rótulo, (a marca, a grife) que leva as pessoas a buscarem mais status e poder do que realização. Por isso, o sociólogo Benjamin Barber, disse em apoio ao estudo, realizado por esta psicóloga na Universidade de Standford: "Eu não divido o mundo entre fracos e fortes ou bem sucedidos e fracassados. Eu divido o mundo entre aprendizes e não-aprendizes."

O ensinamento fundamental dos seus estudos, divulgados em 2007, e me parece, que retomado agora (dei uma olhada no twitter) – é de que as habilidades não são fixas, são maleáveis, "desenvolvíveis", idéia, afinal, totalmente consoante com o principal pensamento de Paulo Freire: o ser humano é condicionado e não determinado – portanto, pode aprender e realizar qualquer coisa com empenho e dedicação, realizados em permanente interação dialógica com os outros. Nossa vocação inata, portanto, simplesmente é, ser mais.

Coincidência ou não, na noite anterior o carteiro me trouxe a revista Vida Simples, que nesse mês fala de Diálogos, Sócrates e ser verdadeiro e responsável no bem que se faz. " Os genes não operam isoladamente. Eles estão em diálogo constante com o resto da célula que, por sua vez, responde a sinais de outras células do corpo, que, por sua vez, estão em contato com o ambiente externo. Quando esse diálogo não se processa corretamente, os genes saem de controle, as células crescem desordenadamente, e o resultado é o câncer.", diz o biólogo Ian Willmut, em seu livro A Segunda Criação, citado por Eugênio Mussak, da revista, em seu gostoso artigo O Poder do Diálogo.

Na roda de leitura, lemos um texto que a estudante de artes trouxe, de autor (por hora) desconhecido, que começa assim: "Eu não sou você, você não é eu. Mas sei muito de mim, vivendo com você." O texto segue com a descoberta das características do eu no outro e vice-versa, outro fundamento de Paulo Freire que diz, que no encontro, as pessoas que dialogam verdadeiramente, passam a se conhecer e a subsidiar, ao mesmo tempo, o auto-conhecimento do outro, colaboração mútua com a formação de sujeitos autênticos, autônomos e colaborativos.

Entre nós, na roda, a mediação ficou por conta de descobrirmos o que vimos no outro que é nosso e vice-versa, deixando uma ideia na cabeça e no coração de como é bom nos encontrarmos com as pessoas, a quem, no geral, num âmbito familiar e comunitário, não temos motivos para evitar conhecer, que medo nenhum justifica a falta de aproximação e contato, assim como o de fortalecimento de boas amizades, aprendizados, com gosto pela vida.

Foi difícil finalizarmos o encontro. Sentem-se felizes conosco, ficam receptivos e expressivos. Disseram que não tem idéia de que assunto tratar nos encontros seguintes, mas querem tratar escrevendo ou desenhando. Minha colega de artes penso num plano para o próximo encontro, só falta a gente encontrar o livro certo.

Dali, fui encontrar meus amigos num bistrô na cidade para almoçarmos e falarmos de música. A conversa rendeu tanto que terminamos nosso encontro numa livraria, na seção de músicas de jazz. Um deles é um jornalista apaixonado e traça os pararelos das músicas com seus compositores e intérpretes, contando histórias interessantes sobre o que viveram que nos faz viajar no tempo ou achar que a qualquer momento os encontraremos no café ao lado. Confesso que saio zonza por causa de tantas idéias e informações. E não é só interessante pra nós, como para os estranhos que estão do lado: perguntam se o cd tal de Chet Baker, seria um bom presente de aniversário para um amigo querido que gosta de jazz. Ele não responde que sim ou não. Faz mais perguntas, conta as histórias, sugere outras coletâneas em que o artista está numa fase melhor, tudo falado de um jeito amigável, com vontade de ajudar, sem invadir, sem se envaidecer. Nos orgulhamos muito dele.

Com pena de deixar aquela noite fresca, fomos para um boteco ao lado e pedimos refrigerantes com gelo. Ali, falando sobre mais música e sobre exemplos de filantropos que, pela música ajudaram as pessoas marginalizadas pela pobreza a produzirem cultura, como o maestro Bacarelli e a orquestra de Heliópolis, com eles compartilhei como a leitura atenta de certas letras de músicas ajudaram aqueles adolescentes com atual baixo repertório a se identificarem e criarem livres associações que os ensinam a lidar com suas angústias, medos e desesperanças.

Então, nasceu um projeto musical envolvendo jazz, blues e mpb. A finalidade é levar para as pessoas, a inspiração e as histórias de músicas concebidas por artistas que foram exemplos de superação e, também, dedicação em produzir algum bem através de suas paixões. Meus amigos tem muito conhecimento para compartilhar e eu, como admiradora, quero ajudar nisso, produzindo apaixonadamente algo que seja útil para as pessoas. Não temos ainda, uma idéia clara de como fazer dar certo, mas temos algumas pistas e muitas informações. Combinamos não só de nos encontrarmos para começar a elaboração do projeto, como o de passar o aniversário de Ella Fitzgerald em companhia de nossos amigos ficcionados, no Rio, dia 25 de abril.

É muito bom estar disponível pra vida para aprender e não há segredo melhor do que esse para promover o desenvolvimento.

Hoje lembrei de outra amiga que em breve estará de volta da Índia, do programa médicos sem fronteira e como sinto saudades dela. Respondi ao seu email há poucos dias atrás: lembro-me de como ela conta das viagens que faz, maravilhada e contente, cheia de admiração pela vida. Assistir aos encontros das águas em Manaus foi um acontecimento: muito fotografado, admirado, do tipo tem que ver antes de morrer: é a menina no seu passeio inédito, a pessoa em sua descoberta do mundo, no meio dos quefazeres médicos. Ela é uma amiga querida entre os meus, onde encontro uma sede de aprender, de transformar, de colaborar, que me movem também. Saudades!

Saudades também da amiga que se mudou a trabalho para as terras americanas, perto de New Orleans. Só tive tempo de gravar uma seleção de Ella pra que ela fique em boa companhia enquanto não encontra os novos amigos. Mesmo longe, ela vibra comigo pelos meus progressos e também me move pra frente; bom mesmo é conversar com ela ao vivo, num jantar em restaurante novo, sempre temos dela, a noção exata de que a vida é realmente viva e possível. Então, sempre brindamos.

Que vontade de conversar com elas hoje ! Mas, estou aqui, com outros companheiros de jornada, com quem me alegro também.

Depois de ler e estudar as coisas da faculdade, resolvi descansar assistindo a um desenho: A Princesa e o Sapo – já sabia que o jazz era um dos elementos da história, mas para minha supresa, o enredo remete à diferença entre quem batalha pelo que quer e quem espera que o outro resolva. Não vou contar como esse conflito termina, mas, pra variar, a mensagem é de esperança. Ativa, conspirando a favor do melhor.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Conspirações a favor

  1. Andrea disse:

    olá flor no nome e flor de alma:resolvi fechar meu domingo com uma boa leitura em português e não podia ter tido melhor idéia! obrigada pela lembrança, obrigada por partilhar seus caminhos! me parecem festivos e renovadores, além do que transborda para outros: e isto é o máximo que podemos fazer! Go ahead, shine girl!Cheers

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s