Uma janela com dois céus

Hoje fez uma manhã ensolarada e cheia de ventos.  À tarde, no sofá sob a janela para ler, senti uma gota. Chuva?

Levantei pra ver: ao longe, à esquerda da janela, uma massa cinza, paisagem borrada por forte chuva e alguns riscos de relâmpagos. Sobre o meu prédio uma chuva, com gotas que escapavam das beiradas de cima pra dentro da minha janela aberta. À frente, vejo a metade do meu quarteirão e a metade do próximo: a julgar pelos telhados secos das casas do quarteirão onde estava, naquela faixa à frente não chovia; e pelo brilho molhado dos telhados do próximo e das folhas das árvores que balançavam na vertical, no próximo, chovia. À direita, aquele céu azul enfeitado por nuvens de algodão que eu namorava entre uma pausa e outra da leitura. Dois céus.

Sábado foi dia de encontro de voluntários na fundação e este foi realizado numa roda de leitura, mediada com Ziraldo, por uma das coordenadoras do projeto e pelo presidente, à vontade como participante, animado com filme Invictus que tinha assistido com a esposa: o sucesso de qualquer trabalho: significado. . Finalmente, voltamos às atividades, mal posso esperar para me encontrar com os alunos.

Ziraldo, pela voz da coordenadora, iniciou o diálogo, contando a saga de Flicts, uma solitária cor que não achava seu lugar no mundo. Todas as outras cores eram conhecidas e reconhecidas por todos, exceto a Flicts: vermelho-paixão, verde-esperança, azul-paz, amarelo-alegria, laranja-energia. Estas cores tinham lugar no mundo, aliás, vários: num arco-íris, numa bandeira, até num semáforo. Claro que estas comunidades não aceitavam a Flicts, mandavam-na embora e nós, tentávamos imaginar como descobrir o lugar dela nestas comunidades, convencendo-as a aceitarem. Eu fui uma das que pretendiam um arco-iris de 8 cores, que inédito e mais bacana seria. Assim, fomos conversando sobre ser a si mesmo, os lugares que ocupamos, onde está o nosso coração, aceitação, escolhas.

No final descobrimos que Flicts tinha um lugar realmente seu: a face da lua. Quando encontramos o lugar, parecia realmente absurdo criar um arco-iris de 8 cores ou um semáforo de 4. Como seria o tal semáforo? Vermelho-pare-freie, Amarelo-atenção-desacelere, Verde-siga-mantenha, Flicts… reflita-acelere? hum… pensando bem para alguns pedestres e motoristas seria bastante oportuno.

Mencionei Rubem Alves, que nos conta como ele tinha sido feliz na infância no campo e como passou a ser triste na juventude ao se mudar para a cidade e começar a se encontrar com os meninos ricos. Adulto, percebeu que não era a pobreza que o entristeceu e sim a comparação. Pra nós, na roda, chegamos perto de concluir que comparação é quase sempre injusta pois ela não leva em consideração a exclusividade das pessoas envolvidas, tanto em formação,história, como de contexto – seria o mesmo que responsabilizar 100% o indíviduo por uma tragédia ou conquista.

Daí, um anseio da fundação de encontrar meios que capacitem os voluntários a descobrir em seus participantes de roda, suas inteligências, que poderiam ser chamadas modestamente de qualidades, que não fossem pregados em suas camisas como condecoração, mas exaltados como instrumentos particulares e compartilhados de desenvolvimento pessoal e coletivo. Entre nós, o presidente é ansioso pela expansão das rodas, pela melhoria da qualidade das existentes, introduzindo agora, consultorias de psicologia.  Admirável atitude de busca por enriquecimento de meios que desejo conhecer e tomar parte da concepção e implantação nas rodas.

A administradora que mora em mim, pensou: uau, um novo empreendimento, novas ideias !

A educadora temeu que os princípios da educação estivessem sendo deixados de lado. Larguei o diálogo e fui para o debate, pois não atingimos todo o potencial dos ensinos da educação que cito, para buscar soluções na psicologia. As palavras usadas em resposta me soaram estranhas, palavras, afinal de um ser humano falível que estava no círculo e que se despediu de nós mais cedo, pois tinha um compromisso com os netos. Não tive chance de entender o seu posicionamento.

Ao fim de tudo, pensei: estou no começo do meu trabalho com educação, assim como em minhas pesquisas. Ter sucesso nas práticas sob a luz do que tenho estudado, me faz pensar, como ser humano falível, que se estou conseguindo em alguns lugares, e se em outros não está dando certo, é porque ninguém está fazendo a coisa certa, ou porque as organizações estão viciadas em soluções fáceis que não resolvem, criando volume de ar, como um pastel com 5 gramas de queijo e 50 gramas de massa, aparentemente gordão, de conteúdo. Então, que se se dessem ao trabalho das ideias mais difíceis.

Então, tenho que comparar o tamanho do meu repertório nesse tema, com o de coordenadores e professores de décadas de carreira, considerando seus relatos vindo das escolas públicas e espaços de encontros culturais, assim como o de coordenadores do projeto sobre os fóruns de educação. Admitir que posso estar enganada, me coloca diante de um céu de tempestade em termos de futuro para a educação: meus sucessos ocorrem pois o universo é menor, por isso, impossível quebrar a herança histórica que sectariza o saber e consequentemente, o crescimento e o sucesso, cheias de estruturas burocráticas que as retroalimentam, recheadas de pobres e fortes individuos que só querem status, poder e nenhum trabalho de realização, acomodados.

Minha fé a esse respeito, pode ser ingênua, concluí com raiva. Mas meu desconforto crescia.

Fiz uma pausa da leitura e fui ler os assuntes interessantes na internet. TED, Webcitizen, Gotas, Prêmio Trip transformadores, meios de criação de idéias e transformações – informações de qualidade, cheias de vida e inteligência, buscando uma criação conjunta de realidades melhores. Os movimentos, também ocorrendo no escritório onde também posso participar, resgatam a capacidade do indivíduo de contribuir, sua vocação de ser mais, de colaborar. Taí lugares que evidenciam ser possível implantar idéias simples, que são difíceis. Encontrei espaços onde a educação, que visa a formação de sujeitos de novas histórias se realiza. Idealistas determinados, irmanados com a causa e diante das dificuldades, permanecem "invictus".

Desejo que os dirigentes da fundação permaneçam "invictus" aos seus ideais, por uma educação para a formação do ser humano como sujeito da História, meu céu de sol brilhante.

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Uma resposta para Uma janela com dois céus

  1. Andrea disse:

    um sorrisão pro seu texto! no comments! ótima semana!

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