Michelangelo Bonarroti, vulgo Mica

Acordei com o rádio na Cultura FM e quando despertei realmente, ouvi o locutor avisar que hoje, 06 de março, é aniversário de Michelangelo, o grande pintor e escultor renascentista italiano.
 
Passei um café, uma manteiga com queijo no pão e fui comemorar com ele, revendo algumas de suas obras, fazendo tim-tim no ar com uma xícara, parabéns: bela Capela Sistina, belo Deus no afresco A Criação, bela Pietá – símbolo da misericórdia pelo homem -, bela Sagrada Família – uma pintura circular que parece, de longe, uma escultura: "Uma bela pintura é tanto melhor quanto mais se aproxime de um relevo", disse ele.
 
Também pelo belo Davi – "símbolo da luta contra o destino" sintetiza o Historianet -, demonstrava a sua crença de que "a beleza do corpo era uma legitima encarnação divina na forma passageira do ser humano", diz o site.
 
Ele me levou então, a revisitar a história do renascimento, um momento de abertura de mercado, efervescência cultural e científica e valorização do humano, que a Idade Medieval, no seu teocentrismo, tratava como a uma maldição que deveria ser erradicada do planeta.
 
Nada muito diferente do nosso tempo: abertura de mercados, efervescência tecnológica, valorização do humano que agora, quer descobrir talentos que mantenham a roda da efervescência tecnológica girando, trazendo inovações para o bem-estar e longevidade da vida humana. A pressa por resultados é tanta – pois acabamos de descobrir que disperdiçamos tolamente o recurso mais caro do mundo: o tempo, artigo que não se repõe, não se recupera – que estamos querendo reunir talentos individuais para juntos, feito concilios de deuses, despertar a inteligência coletiva para encontrar milagres que nos façam sobreviver a um meio ambiente ameaçado que nos ameaça, e a própria morte, não só física.
 
Naquele tempo, o renascimento era uma ruptura ou como preferem alguns, uma evolução da trágica condição religiosa da época medieval que condenava as pessoas à miséria, à solidão ou à morte por qualquer coisa em nome de Deus. Não havia uma consciência do valor humano, como hoje também não há, por exemplo, em mentes muito materialistas ou muito religiosas, repare: quanto mais religioso, menos se compadece se tem alguém gemendo entre os escombros de uma demolição por terromoto ou tsunami, prestes a morrer, já que está ali por castigo divino ou porque fez por merecer. Ou ainda, se não está convertido a determinado dogma, não passa de uma criatura desalmada, portanto coisa qualquer, descartável ou massacrável com uma pisada. 
 
Michelangelo era um gênio afoito por produzir conforme sua visão, agoniado pela mediocridade popular e atormentado pela perseguição de invejosos e ciumentos de sua genialidade. Sem papas na língua, inconformado e intolerante, chegou a ser agredido, o que lhe rendeu uma deformação no nariz que acentou algumas de suas deformações humanas: a intolerância, a rabugice, a misoginia (viver em isolamento). Morreu trabalhando muito e sozinho, exigindo muito de si e sendo exigido pelos papas para construir cada vez mais e maior nas suas igrejas.
 
Como não sou um gênio, não entendo a angústia e a agressividade quase louca que a intolerância deles lhes causa diante da mediocridade ou do erro. Mas sei o que é ser intolerante, pois quando acerto em alguma coisa, não suporto, nesta coisa, o erro do outro, é como se me esquecesse de tudo o que tive que aprender pra saber ou ainda, se meu acerto é, digamos, fruto de um dom inato, é como se esta "perfeição" fizesse de mim uma deusa – ou eleita para ser salva por um deus – diante de mortais, criaturas enfadonhas e nogentas. 
 
Um religioso radical, pelo menos pra mim, se vê como símbolo da perfeição quando não a própria, a salvo da humanidade. Professa a crença com superioridade, senso de exclusividade (os eleitos, trigos, etc.) e intolerância, trabalhando como quem quer salvar os outros de si mesmos, pobres e incapazes, a quem se domina, dita as regras e as ordens, quando não são porta-vozes destas, como soldados SS de Auschwitz, "seres superiores" a serviço da limpeza, um "lavar-se" dos seres inferiores. Faz a mim parecer que trata a humanidade – carne e, digamos, personalidade e paixões, como um angustiante e indigno cárcere contra o qual se deve lutar até à morte para chegar à perfeição, contida na alma que só os eleitos possuem, que por sua vez não é a própria pessoa. O gênio, parece-me, age com a mesma orientação: apesar de produzir suas obras, trabalha arduamente e sozinho, com raiva dos outros, "violentando-os".
 
Dizem as fontes que Michelangelo foi criado por um pai violento e religioso, e a mãe, morreu quando criança. Meio de opressão, oprimindo um gênio, que virou, de certa forma, opressor, mais de si mesmo. Acho que o caráter religioso e violento do pai o influenciou na concepção das suas obras, mas me pergunto o quanto a exposição à sua violência o fez materializar suas idéias, como se aprendesse, da violência, a constituir uma força que transforma as ideias em bens tangíveis? Será essa a lógica complementar do opressor, de quem gosta de dominar e comanda autoritariamente, alienando a ignorância, a inferioridade, e não-sei-mais-o-que de indigno no outro ? Nesse caso, não seríamos apenas seres condicionados, mas interessados nas vantagens que certas condições trazem.
 
Então, fiquei imaginando, o que teria sido de Michelangelo, de Florença, do mundo, ou mais precisamente dos seus colegas, especialmente os ciumentos e invejosos, se ele tivesse tido a consciência de que todos à sua volta tinham talentos e que, juntos, complementando-se, poderiam evoluir e atingir algo que, chamaríamos de "perfeição", mas que poderiamos chamar agora de máxima e evolutiva satisfação? A força de realizar viria, então como Paulo Freire ensina, das trocas autênticas entre si gerando, como frutos, ações refletidas e por isso, produtivas.
 
Uma vez, um senhor muito simpático, engenheiro da Unicamp, estava dando uma palestra pra nós sobre inovação. Fiquei intrigada: como despertar no outro o interesse de fazer o melhor comigo? Como ajudá-lo a dar o seu talento, se eu consigo dar o meu, num processo em que ele se voluntariou para atingir tal objetivo? Sim, muitas vezes as pessoas concordam em trabalhar por algum objetivo, mas ao invés de se doarem, ficam à deriva, à espera dos ventos que vem de quem se doa, reclamando quando faz muito sol ou quando cai muita chuva. Enigmaticamente, ele sorriu e me disse: "Fale com ele(a), com o protagonista dentro dele(a).". E hoje entendo melhor: fale com a sua vocação de "ser mais". Incite, faça um "barulhinho bom", quem sabe despertam, de você e dele(a)?
 
Isso me leva a concluir que o resgate esperado pelas pessoas – por nós – dos heróis, salvadores – que mais tarde se revelam opressores, pois ditam o que devemos fazer – que buscamos, nada mais é do que a vontade inata de ser chamado ou de ser ouvido ao chamar, passando, então, a participar da efervescência tecnológica e cultural do nosso meio, produzindo o que Paulo Freire chama, de "o novo viável", ou seja, a tão desejada inovação, cultural e tecnológica.
 
Como não é um processo consciente e como somos humanos, vivemos lutando entre querer heróis que nos façam viver confortavelmente, e querer sermos nós mesmos, de preferência heróis com superpoderes, fazendo-nos viver em estado constante de crescimento e satisfação. Comparando nosso ciclo de vida com o das árvores, viemos de uma semente, que germinou, brotou, e cresce para atingir toda a altura, a largura, a profundidade e o valor de sua condição de ser a si mesmo, existente e vivente, em comunhão com essa vocação que, penso, em sua origem, nos remete a Deus, que harmoniza tudo o que não está ao nosso alcance, pois nada tão grande controlamos.  
 
Definitivamente, Paulo Freire é o gênio humano do meu tempo, que não se alienou na sua inteligência porque faz parte do seu dom, reconhecer que todos somos talentosos e aptos para a inovação.
 
Dizem também que Michelangelo preferia ser chamado pelo nome completo. Acho que se estivesse conosco, no nosso tempo, gostaria de ser chamado Mica ou por algum outro apelido mais genial, que só poderia ser genial mesmo pois o daríamos juntos e com ele.
 
Parabéns, Mica, onde quer que você esteja.
 
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