Prova de Consciência

 
Perdoe-me quem estiver enjoado das minhas citações de Paulo Freire, mas é que ele é quem tem me educado ultimamente então, não posso deixar de refletir em coisas que me acontecem ou faço, sob a luz dos seus ensinos.
 
Tem uma coisa que ele diz que o "conscientizar-se" é um processo, pois a tomada de consciência é um início, um plug-in e a conscientização mesmo, depende de busca pessoal, de ações bem orientadas e focadas, coração presente. Hoje acabei de me assistir fazendo uma coisa pela qual estou sentindo remorsos.
 
No escritório, acabei de concluir um projeto que nasceu de outra mente que saiu da "caixa" de suas funções e se pôs no lugar do cliente. Seu incomôdo me incomodou e me levou a incomodar outros colegas que julguei prontos a se incomodarem comigo. Quem se incomodou, como eu, não teve a audácia de propor a solução que a mente audaciosa deu e, mais tarde, o projeto deu para uma parte do público; não teve audácia porque não v’iu a possibilidade ou se acomodou na sua caixa ou se acorvadou.
 
A mente audaciosa levou a questão para a hierarquia e foi ouvida. Esta mente me solicitou na condução do projeto e foi atendida. Mas estes comandantes pediram a participação dos colegas que desempenham a função, da "caixa" especializada pois, apesar das minhas competências e perfil, eu trabalhava numa "caixa" de onde seria pouco provável obter sucesso na ação. No fundo, com a falta de amparo especializado na hierarquia da minha caixa, até eu duvidava ser capaz de algum sucesso e aceitei o convite com um certo alivio pela participação dos colegas especializados.
 
Começamos o trabalho e o colega especializado, altamente qualificado, deu a partida nas definições do projeto, verdade seja dita. Participou facilitando algumas questões e não poderia mesmo fazer tudo, pois a bola da vez era minha, que tinha a conhecimento e a influência sobre a equipe da outra caixa que iria "montar a máquina", que teve a audácia também de acreditar na solução proposta. De qualquer modo, sua ausência colaborou para que eu trabalhasse dobrado e por isso, no fim das contas, assumi o controle de toda a execução e reparos na definição do projeto.
 
Durante o processo, aprendi outras tantas lições, principalmente a ser determinada e ter uma só postura independente do nível hieráquico, regulando apenas o "o quê" dizer. No fim, a execução foi impecável. Eu e outros colegas validamos a entrega e anunciei o sucesso, sabendo que o pé de todos, exceto da mente audaciosa, continuaria atrás, até que provassem que estava tudo bem.
 
Primeiro ato do qual sinto remorsos: no meu anúncio, não agradeci especialmente à mente audaciosa pela iniciativa exemplar e, principalmente, pela pública  demonstração de confiança no meu trabalho. Simplemesmente a agradeci igualmente com quem participou, dando a minha menção honrosa à equipe que comprou a idéia e montou a máquina. A equipe mereceu a honra mas deveria compartilhá-la com a mente audaciosa.
 
Passadas as primeiras 48 horas de entrega, poderiamos começar a receber o feedback dos clientes que poderiam tanto ficar em silêncio, do tipo "vocês não fizeram mais do que a obrigação", como protestar por erros ou manifestar elogios – artigo raro. O primeiro cumprimento foi do colega especializado, copiando seu chefe, quem me espreitava com alguma confiança e de, certa maneira ficou presente, conosco, em todo o processo. O segundo, foi dele mesmo, só pra mim, um entusiasmado parabéns. O terceiro, também entusiasmado, veio um dia depois, já com os primeiros feedbacks dos clientes, do colega que me ajudou a validar o resultado implantado. Até então, nenhuma manifestação da hierarquia da minha caixa e com isso, retransmiti o email do terceiro colega, o tom era tranquilizá-los de que os feedbacks estavam sendo positivos e com isso, eu gostaria de confirmar que tudo deu certo mesmo. Nenhuma resposta.
 
A "caixa" resposável pelo grupo de clientes atendido pelo projeto, retransmitiu uma mensagem com um delicioso email de um dos seus mais importantes clientes, rasgando elogios. Sobre o email dele, diversos da alta hierarquia se regalando entre si sobre a delícia. Felizmente, a mente audaciosa fez parte dessa mesa, recebendo os agradecimentos especiais que eu gostaria de ter dado. Eu e o colega especialista, digamos, recebemos os cumprimentos pela porta dos fundos; no fim das contas, desonra merecida, afinal, nós éramos gestores do negócio e embora reponsáveis pela entrega não haviamos tido a audácia esperada para propor a solução que estava não só resolvendo um problema, mas agregando valor ao relacionamento com aquele grupo de clientes.
 
Segundo ato do qual sinto remorsos: retransmiti o email para a quieta hierarquia da minha caixa, avisando que a mensagem continha um bom feedback do cliente e comentando: "A entrega foi, principalmente, nossa." Esta mensagem foi retransmitida imediatamente ao diretor da minha caixa, para ciência. Foi aí que percebi o meu engano: como eu pude compartilhar o sucesso com quem estava ausente no processo inteiro? Fui totalmente injusta comigo mesma, com as pessoas que trabalharam comigo, com o colega da mente audaciosa que, mesmo sendo de outra caixa – nem da minha, nem do colega especialista – me apoiou verdadeiramente quando eu precisava ser ouvida. 
 
Foi então que entendi porque fui tão injusta e, então, confesso: eu ainda busco a aprovação de quem me rejeita. Tento agradar, dar o meu melhor. Só isso explica o meu gesto de incluí-los no resultado pelo qual não fizeram nenhum esforço e quem sabe, duvidassem do sucesso. Nesse ponto, verdade seja dita, colaborei para que achassem isso pois quase sempre não lhes dei segurança para que confiassem. Talvez então, essa relação tenha sido um círculo vicioso que se encerra com este sucesso.
 
Eu já tinha tomado a consciência de que eu tinha esta bomba em mim, que minava muitos dos meus relacionamentos e fui tentando desmontá-la. Mas como são dinamites espalhadas, acho que vou levar milhares de anos pra me livrar delas e enquanto isso, já viram o que acontece com pessoas assim. Ficam sozinhas, mal pagas e mal amadas.
 
Está pesando a minha consciência, nem sei se vou dormir hoje.
 
Minha esperança é ter, pelo impacto que me causei, mais presença de espírito para dobrar a minha atenção no meu comportamento e ser rápida no desmonte, tomando as decisões certas daqui pra frente. Não preciso de quem não precisa de mim. E nem devo incomodar com o meu amor e o meu melhor, quem não me ama e não me quer.
 
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