Pessoas e Maçãs

Nos anos 80, nas empresas se buscava a qualidade total, erro zero, dizendo que a qualidade não acontece com alguma coisa, mas com alguém. Só o indivíduo fazia a diferença.

Hoje, nos anos 10 do século 21, se fala novamente em excelência, erro zero, mais conhecida como sete sigma, cientes de que esse resultado nasce da inteligência coletiva – a soma dos talentos trabalhando sinergicamente.

Hoje na padaria, à espera de pão quente, na fila atrás de dois homens, ouvi conversarem entre si sobre os seus empregados. Um dizia que não sabia o que fazer com alguns focos de ineficiência, pois ele estava cansado de falar, avisar e o outro, respondendo-lhe: "Maçã podre, meu amigo, joga fora. Assim os outros ficam espertos".

Fiquei pensando: por quê as pessoas, para incentivar alguma conduta e recriminar outras – geralmente as mal-interpretadas -, associam o ser humano à coisas? Ou pior, à atividades que em sua essência, têm outro sentido: por exemplo, maus empregados geralmente são chamados de anestesistas. Um anestesista adormece um paciente para que ele aguente uma cirurgia que lhe manterá a saúde.

Para uma empresa, um anestesista é alguém que tira o ânimo e a proatividade do outro, injetando-lhe conceitos que o façam adormecer, parasitar.

Vão me dizer: "Ah, não seja chata." ou "que carne de pescoço é você!"

Mas vou lhes dizer: amigos, as palavras tem poder, e como quem conta um conto aumenta um ponto e quem escuta um conto, perde um ponto, entendo que muitos comportamente inacreditavelmente genocidas nascem das confusões de interpretação, passadas pra frente, em versões pioradas, quando não encontram figuras loucas e desumanas como Hitler que dominam tanto o coletivo que o fazem acreditar ser um bem, uma perversidade.

Quando você lê alguma coisa sobre o nazismo, uma das coisas que os nazistas faziam para obter adesão à campanha racial, era associar os judeus a ratos. Ratos são nojentos, de esgoto, ladrões de comida, inumanos. Deve haver outros exemplos, mas repare que no dia-a-dia, quando alguém o associa a uma coisa, não o vê como um ser humano, com dignidades, respeito, capacidade de soluções, saberes.

Cheguei em casa, fiz o meu café, e fiquei um pouco em silêncio, sentindo a brisa fresca do dia quente. Notei uma revista que costumo ler, em cima de outros livros e me senti atraída por ela. Peguei, folheei e li algumas coisas, e parecia que tinha sido pela primeira vez. Era a Vida Simples de novembro, edição 85 e a matéria: "Consciente Coletivo", falando de inteligência social, colaborativa, criação coletiva.

Lá, dentre outras idéias interessantes, havia um alerta: No século 20 houve muitos movimentos artísticos de vangarda, trazendo o saber popular, quebrando o elitismo. A este movimento de, digamos, inclusão social, "seguiu-se a barbárie nazista", observando o autor que "para cada onda de liberdade, uma ressaca de repressão.".

Lembrei-me também do encontro que tivemos no escritório com consultores especializados em gestão do conhecimento, que estão organizando processos estruturados de diálogo, para fomentar o engajamento entre nós, os empregados.

Notei ali, uma brecha perigosa que me ligou à conversa da padaria: como identificar engajados de não-engajados? No material que testamos aquele dia para multiplicar depois, havia uma exposição cuidadosa das questões, não desvia o atento. Mas um desatento ou uma "inteligência solitária", anti-social, desvia, podendo gerar uma ação do tipo: separar joio do trigo, rotulando pessoas de maçãs-podres, cafés-com-leite ou anestesistas.

Fui para Paulo Freire novamente, que na Pedagogia do Oprimido, explica que condutas não-engajadas são um estado do ser e não uma característica determinada e por isso, permanente do indivíduo.

O que torna alguém não-engajado, joio, maçã-podre, cafés-com-leite ou anestesista é uma constante exposição à opressão resultante de atos que tratam o saber como "uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. (…) Os educandos, alienados, por sua vez, a maneira do escravo na dialética hegeliana, reconhecem em sua ignorância a razão da existência do educador, mas não chegam, (…) a descobrir-se educadores com o educador."

Isso significa que quanto mais a pessoa não é ciente da sua capacidade de contribuir, assim como do valor da sua contribuição, tanto mais ela irá depender de quem lhe "doe" tudo o que precisa, tornando-se antagonista de qualquer iniciativa que suspenda a doação, visando a auto-suficiência, o engajamento, o protagonismo – ela não entende essas iniciativas, teme não sobreviver sem elas, pois jamais a escutaram, desafiaram-na e a viram como alguém capaz de contribuir, com saberes. Jamais acreditaram que fosse capaz de gerar soluções além de problemas.

Há que se enfatizar que nessas condições a pessoa estaria condicionada a agir contra o protagonismo e portanto, pode se condicionar a agir a favor. Dai o papel da educação que problematiza, pois liberta da passividade, crendo que todos podem encontrar as soluções que precisam, daí o papel dos diálogos.

A esse tipo de opressão, Paulo Freire chama de educação bancária, que citei no post anterior, na qual o "sábio" doa seu saber de modo narrativo, depositando-o no outro , que por sua vez os toma como arquivos prescritos que devem ser seguidos rigorosamente.

"Assim é que, enquanto a prática ‘bancária’ como enfatizamos, implica uma espécie de anestesia, inibindo o poder criador dos educandos, a educação problematizadora, de carater autenticamente reflexivo, implica um constante ato de desvelamento da realidade. A primeira pretende manter a imersão ; a segunda, pelo contrário, busca a emersão das consciências de que resulte sua inserção crítica na realidade."

(…)

"Educador e educandos (liderança e massa) …" que em outros trechos Paulo Freire esclarece que se revesam nestas posições já que juntos se educam e são educados, "…. co-intencionados à realidade, se encontram numa tarefa em que ambos são sujeitos no ato, não só de desvelá-la e , assim, criticamente conhecê-la, mas também no de recriar este conhecimento. Ao alcançarem, na reflexão e na ação em comum, este saber da realidade, se descobrem como seus refazedores permanentes. Desse modo, a presença dos oprimidos… ", isto é, complemento: dos apassivados, anestesistas, maçãs-podres, joios, cafés-com-leite, "… na busca de sua libertação, mais que pseudo-participação, é o que deve ser: engajamento."

Para fazer alguém buscar essa libertação, sua causa, reconhecer o valor dos seus saberes, é preciso tirá-la da zona de conforto, e o que acontece em muitas empresas é que os chefes geram estresse propositado – o que causa movimento, mas com boa parte do seu valor comprometido pois gera resistência, mais isolamento e incompreensão.

Os chefes precisam saber como fazer as pessoas se apaixonarem – não há melhor movimento que o causado pela paixão – e isso, penso, é possível somente à liderança esclarecida que tem um espírito discernente, tem competência humana, motiva, anima, encoraja, estimula, dialoga e media também, pois sempre há conflitos de interesses e, por isso dificuldade de entendimento mútuo num processo de comunicação e de mobilização para um trabalho em que se pretenda erro zero e encantamento.

Depois de entender tudo isso, escrevi uma carta para os organizadores da frente de Diálogos do escritório sobre essas questões, pois já me engajei na causa do direto às liberdades e ao desenvolvimento humano.

E como o calor está grande, em homenagem aos colegas da padaria, cozinhei umas maçãs com mel e canela e pus no congelador para comer mais tarde, como a um sorvete, na hora da novela das 8.

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