Autoridade moral

Acredito que quando Paulo Freire temia a globalização e hostilizava as leis de mercado na sua busca incessante por mais lucro, ele estava iniciando uma discussão sobre sustentabilidade.

Não, alguns me dizem, o que se espera de um fundador do MST? Bem, arrisco dizer sem me aprofundar muito no tema, que a concepção do MST foi uma tática de guerrilha contra a desigualdade social e econômica tanto como as guerrilhas armadas lideradas pelo Mandela foram tática contra o apartheid. Ele prezava o encontro entre as pessoas e tudo o que o facilitasse e gerasse bem era bem vindo, mas via, em mentes predadoras e opressoras, portanto não sustentáveis, o potencial destrutivo de oportunidades como a globalização.

Assisti Invictus, o belo filme de Clint Eastwood sobre o Mandela, com o nada menos belo, Morgan Freeman. Muita gente tenta banalizar Mandela o classificando como fruto da ocasião – fez uma coisinha ali, outra aqui, deu um gritinho ali outro acolá, era negro, virou símbolo popular de uma causa comum e subiu ao poder. As coisas reais não são superficiais.

Seu interesse em derrubar a opressão de um povo era mais do que libertar a si próprio, pois nasceu de uma família tradicional que pôde zelar pela sua saúde e educação. Sua determinação é exemplar: correr risco de morte ao conduzir guerrilhas e preso por 27 anos, lutou orientado para acabar com algo indiscutivelmente absurdo, a segregação racial. Morgan Freeman, que esteve com ele para interpretá-lo, contou à Veja da semana passada que ele era admiravelmente centrado ao escutar as pessoas, isto é, não rendia seus princípios por nada. Ele achou que Mandela era mais ativista que estadista e eu acho que ele foi um dos estadistas mais sensatos da história: dado o curto período de governo, antes de empenhar energia com soluções para pobreza, fome, falta de educação e saúde, ele iniciou um plano de restauração da identidade do seu povo, o orgulho: ao apoiar o rugby – ele sabia melhor que ninguém que para fazer algo por alguém, precisava, antes de tudo, interessá-la nisso.

Mandela poderia ter investido em outros assuntos, mas sua missão pessoal o orientava fortemente sobre a causa de igualdade de direitos, sabendo que se não houvesse uma atitude focada nesse assunto, ele mesmo viraria um emblema anti-apartheid sem gerar a coesão entre as raças que suas ações e o presidente anterior, De Klerk, haviam começado.

A mensagem da sua luta era de que ele, por mais poder que tivesse, pouco poderia fazer de verdade por pessoas que não se interessassem pela ajuda. Ele não queria apassivar as pessoas, criando frentes assistenciais, ele queria apaixoná-las para que fizessem por si mesmas o que ninguém pode fazer: criar fortaleza de espírito e consciência.

Não foi à toa que seu legado para iniciar este processo não poderia ser outro que não o perdão – para ele, arma poderosa de combate, já que o ressentimento e a culpa enfraquecem e arruínam a visão. Também contava com a conviccção de possuir um espírito inquebrantável, inspirada pelo poema de William Henley, Invictus, traduzido abaixo por André Masini:

Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu – eterno e espesso,
A qualquer deus – se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei – e ainda trago
Minha cabeça – embora em sangue – ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda – eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma

 

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

Hoje, aos 91 anos, se dedica à conscientização da Aids e espero que viva para assistir a Copa do Mundo em junho deste ano, na Africa do Sul, que havia sido sede da Copa Mundial de Rugby evento que começou a enraizar no povo o anti-apartheid e o perdão, além de ter sido uma das melhores propragandas do governo para atrair investimento estrangeiro. Isso servirá de base para sustentar o que virá com os governantes seguintes, como o atual, Jacob Zuma.

Sendo tão determinado a considerar como básico os direitos humanos e agindo em total comprometimento com o seu ideal, Mandela conquistou autoridade moral e autoridade é o que se espera de um lider.

Trazendo a concepção para o mundo empresarial, muitas vezes a concepção de autoridade se limita ao conhecimento técnico para conduzir os negócios e ao carisma ou capacidade de coerção para conduzir pessoas. Toda e qualquer habilidade para se obter lucro / resultados advém de líderes ‘capazes’ de ter uma idéia rentável e conduzir pessoas a trabalhar por elas até se atingir seus fins, independente dos meios. Cultura extrativista, colonizadora, pois sustentável, é, penso eu, ter não só, competência para o trabalho como capacidade para preservar os recursos. Considerando o recurso humano, lidar com as pessoas de modo a conscientizá-las e estimulá-las a desenvolver o seu potencial.

Estar numa empresa que valoriza a sustentabilidade nos negócios, no ambiente e nas relações é uma grande oportunidade, mas tornar esta idéia uma prática é algo difícil – esta coerência exige muito empenho pessoal, caráter, valores, princípios, que depende da formação continuada das pessoas e do interesse delas nessa continuação, pois necessidade, apesar da clemência por inovação e dos alarmantes relatórios do IPCC, bem como do ceticismo dos estudiosos em gestão ambiental, ainda não existe.

Haverá um trabalho de melhorias de clima organizacional na empresa em que trabalho. A concepção do presidente é tão pura que ele contratou uma consultoria especializada em educação progressista e pelos preceitos, vejo que está baseada em Paulo Freire, para auxiliar nos processos de mudanças entre as pessoas, tornando o ambiente de trabalho digno e apaixonante. 

Se eu observar a conduta de alguns chefes, parece que a organização está se mobilizando apenas para ter um selo de melhor empresa para se trabalhar – repetindo discursos da época, sem se preocupar em praticá-los na íntegra, tentando somente o que vai salvar a aparência. Mas se eu botar fé, ciente de exemplos como de Mandela e Paulo Freire, que se colocavam permanentemente à prova para alinhar discurso e prática e me predispor às mudanças, vou ajudar a fazer acontecer mudanças desejadas.

E isso também serve para a vida, é hora de colocar à prova as idéias sensacionais que vemos por aí. Quem sabe colheremos frutos? Não saberemos se não tentarmos.

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