Fim igual ao começo III – Educação e educação

Gosto de escutar as outras opiniões e minha prima, que publicou a sua, merece um contraponto, neste diálogo que travamos em buca de mais compreensão da vida.
 
A Educação a que me refiro não é a que vemos ensinada nas escolas hoje em dia e que produz os bêbados, assassinos, molestadores e ladrões pós graduados.
Ao contrário, esta "educação" é a que Paulo Freire chama de educação bancária, no seu livro Pedagogia do Oprimido:
 
"Quanto mais analisamos as relações educador-educandos, na escola, em qualquer um dos seus níveis (ou fora dela), parece que mais nos podemos convencer de que estas relações apresentam um caráter especial e marcante – o de serem relações fundamentalmente narradoras, dissertadoras.
 
  Narração de conteúdos que, por isto mesmo, tendem a petrificar-se ou a fazer-se algo quase morto, sejam valores ou dimensões concretas da realidade. Narração ou dissertação que implica um sujeito – o narrador objetos pacientes, ouvintes – os educandos. (…)
 
  A narração, de que o educador é sujeito, conduz os educandos à memorização mecânica do conteúdo narrado. Mais ainda, a narração os transforma em ‘vasilhas’, em recipientes a serem ‘enchidos’ pelo educador. Quanto mais vá ‘enchendo’ os recipientes com os seus ‘depósitos’, tanto melhor educador será. Quanto mais se deixem docilmente ‘encher’, tanto melhores educandos serão.
 
  Desta maneira, a educação se torna um ato de depositar, em que os educandos são os depositários e educador, depositante.
 
  Em lugar de comunicar-se, o educador faz ‘comunicados’ e depósitos que os educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis aí a concepção bancária da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los. Margem para serem colecionadores ou fichadores das coisas que arquivam. No fundo, porém, os grandes arquivados são os homens, nesta ( na melhor das hipóteses) equivocada concepção ‘bancária’ da educação. Arquivados, porque, fora da busca, fora da praxis, os homens não podem ser."  eles mesmos." Educadores e educandos se arquivam, na medida em que, nesta distorcida visão da educação, não há criatividade, não há transformação, não há saber. (…)
 
   Na visão ‘bancária’ da educação, o ‘saber’ é uma doação dos que julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações instrumentais da ideologia da opressão – a absolutização da ignorância, que constitui o que chamamos de alienação da ignorância, segunda a qual esta sempre se encontra no outro." – isto é, na outra pessoa e nunca em si mesmo. (…)
 
  Não é de estranhar pois, que nesta visão bancária da educação, os homens sejam vistos como seres da adaptação, do ajustamento. Quanto mais se exercitem os educandos no arquivamento dos depósitos que são feitos tanto menos desenvolverão em si a consciência crítica de que resultaria a sua inserção no mundo, como transformadores deles. Como sujeitos."
 
Então, penso que a verdadeira Educação é a que fundamenta a formação dos indívíduos como responsáveis pela sua vida e pelo viver em sociedade, tornando-os protagonistas e não coadjuvantes ou antagonistas da sua própria história. 
 
É esta educação que fundamenta, por exemplo, os princípios religiosos para quem deseja não ter apenas uma religião, mas a de quem deseja desenvolver sua espiritualidade, pois, analisando mais a fundo, as religiões professam a necessidade de cada um aprender – ou seja, sair do mero "Arquivamento" de informações e partir para a prática até ir de encontro aos limites que ameaçam o seu dogma. Uma prática mecânica, sem interação com o saber da pessoa que o pratica, pode tornar qualquer doutrina não um meio de desenvolvimento, mas uma ferramenta de opressão.
 
Quando penso em espiritualidade, penso em me educar – as fontes religiosas ensinam e a prática, somada aos meus saberes e das pessoas que me cercam, educa.m O professor ensina um conteúdo e educa atráves do diálogo entre o que ele propõe e o que os educandos trazem de saber, desafiando-os a serem críticos, curiosos, não transgredirem a ética. Os motoristas bêbados, molestadores, assassinos, não tinham com quem dialogar a respeito dos seus saberes, apenas acumularam informação, que embora úteis e valiosas, não dialogaram com eles, tonando-se arquivos mortos, livros de estante não lidos ou esquecidos. Portanto não me adimira que joguem fora todo o arquivo acumulado – é morto. Terminam por serem antagonistas de sua vida, pois se adaptam à realidade que os oprime, tornando-se eles mesmos opressores, não sabem que podem transformá-la, transformar sua condição, apresentar uma reação mais eficaz às ações do passado.
 
Um educação  assim não é fácil de implementar pois é trabalhosa, exige, abertura de mente e coração e transformações constantes, exige amor ao próximo, mais do que amor às doutrinas, pois, acredito que Deus vive, age e se importa.
 
É pela realidade que nos ensina e nos chama diariamente a nos educar para uma consciência mais plena, que nos tornará aptos à responder às reações e consequências, aptos a questionar e interferir, construindo uma realidade nova. Por fim, evoluídos e salvos da ignorância e de todos os males que ela traz consigo.
 
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2 respostas para Fim igual ao começo III – Educação e educação

  1. Cla disse:

    No fundo no fundo, é o que sempre digo: um diploma, é apenas um pedaço de papel… E a educação, vai muito além dele…

  2. André disse:

    Muito obrigado pelo comentário no blog do TED. Depois vc pode me passar seu e-mail? Estou procurando pessoas legais para compartilhar uns projetos sustentáveis que andei planejando. Abraço! (e parabéns pelo blog! o post que vc citou o Paulo Freire é muito bom!)andregravata.wordpress.com

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