Incômodo

Uma amiga nos mandou uma mensagem de ano novo, bastante interessante: ela nos desejou que nos incomodássemos.

Que nos incomodássemos com a injustiça, a desumanidade, a indiferença e até mesmo com as nossas pretensões, vaidades, ambições e o desperdício de tempo e momentos que não voltam.

Que nos incomodássemos com os nossos vícios, que tantas vezes parecem ser mais constantes e fortes que as nossas virtudes, assim como parecem ser nossas fraquezas e nossa – quase – preguiça de fazer as melhores escolhas por nossas próprias vidas.

Que nos incomodássemos, por fim, com a eterna espera por dias melhores para adotar mais prontidão e disposição com a vida que acontece, independente da nossa vontade em participar das suas dinâmicas.

Imaginei que sua mensagem tenha surgido de seus tempos com Deus, suas orações, sendo ela uma revisora incansável das suas próprias posturas diante da vida: ela não perde nada, atenta a tudo e assim, tem construído uma vida de fato próspera, feliz e cheia de afeto e encantamento. É o exemplo de alguém que usa sua capacidade crítica para ser proativo nos assuntos que lhe são de fato importantes. É alguém que, incomodado, não se adapta ao incômodo para descansar melhor e sim se levanta para viver: andar em melhores verdes e só então, após ter vivido suas aventuras de dia, descansar em melhores leitos de noite.

Pensei em mim e nas quantas coisas a fazer, a mudar. 2009 foi um ano de portas se abrindo, mas também de portas se fechando. Analisando ambos, me importam mais as que se abriram, pois as que se fecharam, pude perceber, eram esperanças que se verificaram ilusórias, ou porque não me dediquei realmente para conquistá-las, errei bastante e não tive segunda – ou terceira – chance, ou porque simplesmente não faziam parte da minha jornada.

Refletindo na sua mensagem, encontrei dois trechos bíblicos que me inspiraram muito esta manhã. O primeiro diz o seguinte:

" O conhecimento traz orgulho, mas o amor edifica", – 1ª carta aos Coríntios, capítulo 8, 2ª frase do versículo 1. E ele continua assim, no próximo: "Quem pensa conhecer alguma coisa, ainda não conhece como deveria."

Entendo que esta seja a essência do incômodo que leva à constatação, às ações e aos frutos. À maioria de nós basta a constatação: o orgulho pelo pensamento, pelas informações. O humilde percebe que a constatação é um chamado para o compromisso de causar bem. O próspero é o humilde com coragem: vai lá e faz.

As palavras também dizem sobre ter disposição com a vida e viver no Presente. Atentos, acessando, o que dizem ser: a verdadeira inteligência, o verdadeiro Ser superior, vendo as coisas com o olho do Universo ou de Deus mesmo, onde está o Agora.  Dizem principalmente que, na verdade, não há conhecimento que resolva completamente a nossa a ignorância e por isso, é imprescindível nos dedicar, amorosamente a aprender até o último respiro.

Precisamos de amor para não acharmos que a constatação (o conhecimento) já é a maravilha e que torná-la real é coisa de pessoas que pensamos ser melhores do que nós. Precisamos de amor para perceber que a constatação é o chamado para o trabalho de mudar. O amor, é o que torna esse labor possível e suportável até à finalidade a que se destina. Que nos incomodemos com a falta de humildade e coragem.

Pra viver assim, só é possível com o amor, não aquele de emoção e carinhos, mas aquele que faz com que a gente se incomode e faça alguma coisa pelo bem de quem vemos sofrer, seja o outro, seja nós mesmos.

"O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.", mesma carta, capítulo 13, versículo 8.

Parece que na segunda frase, o amor é passivo, mas se olharmos bem, indica que todas as coisas tem o seu tempo: agir é imediato, mas o fruto vem na hora que estiver pronto.

Que nos incomodemos com a nossa impaciência e com a nossa ingratidão pelos frutos que surgem, mas ainda não estão maduros para a colheita. Ou ainda, que não eram belos e suculentos como idealizamos, talvez porque nós mesmos não estivéssemos prontos para saber qual semente plantar.

Nos perguntamos, mas será mesmo que posso? será que meu tempo já não passou pra isso ou aquilo? será que devo esperar mais alguns anos ainda? Será uma ilusão?

Que nos incomodemos com as nossas necessidades de aprendizado e nos prontifiquemos em ensinar a nós mesmos, assim como ensinaríamos aos pequenos que nos perguntam coisas óbvias, curiosas ou inocentes. Quando estamos em situações limite, sempre encontramos a resposta dentro de nós mesmos, por que não procurarmos estas respostas com mais frequencia?

Por fim, em Paulo Freire, na Pedagogia da Autonomia, ele orienta que ensinar, exige alegria e esperança, assim como exige que a convicção de que mudar é possível. Ele ensina que qualquer situação indigna, qualquer incômodo, não é irrevogável. O fato do incômodo se nos mostrar como um problema, já nos indica a possibilidade de solução. Que nos incomodemos, sim, com as nossas necessidades de aprendizado e tenhamos confiança de suprí-los, seja através da nossas sabedorias inerentes, sejam das sabedorias dos demais mestres que encontramos no caminho.

" O conhecimento sobre terremotos desenvolveu toda uma engenharia que nos ajuda a sobreviver a eles. Não podemos eliminá-los, mas podemos diminuir os danos que nos causam. Constatando, nos tornamos capazes de intervir na realidade, tarefa incomparavelmente mais complexa e geradora de novos saberes do que simplesmente a de nos adaptar a ela. É por isso que não me parece possível nem aceitável, a posição ingênua ou, pior, astutamente neutra de quem estuda , seja o físico, o biológo, o sociólogo, o matemático, o pensador da educação. Ninguém pode estar no mundo, com o mundo e com os outros de forma neutra. Não posso estar no mundo de luvas nas mãos constatando apenas. A acomodação…" – ou Paulo teria dito: O Incômodo? – "… em mim é apenas o caminho para a inserção, que implica decisão, escolha, intervenção na realidade. Há perguntas a serem feitas insistentemente por todos nós e que nos fazem ver a impossibilidade de estudar por estudar."

Que nos incomodemos com as nossas constatações. Que nos incomodemos com o entusiamo pelas mudanças que clamamos na virada do ano, a ponto de usá-la como energia propulsora de ações benéficas, que trarão tudo e mais do que esperamos.

Que nos incomodemos.

A minha oração de hoje pelo ano de 2010, é que Deus nos fortaleça o coração, dando-nos coragem para lidar com todos os nossos incômodos, certos da Vitória que aguarda aqueles que lutam por ela.

Coragem pra mim e pra você. Tim-Tim.

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